Lição 8
12 a 19 de agosto
De escravos a herdeiros
Sábado à tarde
Ano Bíblico: Jr 7–9
Verso para memorizar: “Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro” (Gl 4:7, NVI).
Leituras da semana: Gl 3:26–4:20; Rm 6:1-11; Hb 2:14-18; 4:14, 15; Rm 9:4, 5

Paulo disse aos gálatas que eles não deviam viver nem agir como escravos, mas como filhos e filhas de Deus, com todos os direitos e privilégios relacionados a essa condição – uma verdade que o jovem Martinho Lutero precisou descobrir. À medida que se aprofundavam suas convicções acerca do pecado, o rapaz buscava, por suas próprias obras, obter perdão e paz. Ele levava uma vida muitíssimo rigorosa, esforçando-se para subjugar por meio de jejum, vigílias e autoflagelação os males de sua natureza, dos quais a vida monástica não lhe trouxera nenhuma libertação. Martinho Lutero não recuava diante de nenhum sacrifício pelo qual pudesse alcançar a pureza de coração que o habilitaria a ser aprovado diante de Deus. Posteriormente, ele disse que era um monge piedoso que seguia rigorosamente as regras de sua ordem e, no entanto, não encontrava paz interior. “Se algum monge pudesse obter o Céu por meio de suas obras monásticas, eu certamente teria direito a isso”. Mas Lutero não conseguiu encontrar a paz assim.

Somente quando, mais tarde, compreendeu a verdade sobre a salvação em Cristo, conforme revelada em Gálatas, ele começou a ter liberdade espiritual e esperança em seu coração. Como resultado da experiência de Lutero, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Consolide o hábito de fazer o culto a cada dia em seu lar. Ajude sua família a viver uma profunda experiência com Deus.
Domingo, 13 de agosto
Ano Bíblico: Jr 10–13
Nossa condição em Cristo (Gl 3:26-29)

1. Tendo em mente Gálatas 3:25, leia o verso 26. Qual é nossa relação para com a lei, agora que somos redimidos por Jesus?

A palavra pois, no início do verso 26, indica que Paulo via uma relação direta entre esse verso e o anterior. Assim como o filho de um senhor ficava sob a tutela de um pedagogo somente enquanto era menor de idade, Paulo disse que os que alcançaram a fé em Cristo não mais eram menores; sua relação com a lei havia sido alterada, porque agora eram “filhos” adultos de Deus.

O termo filho não é exclusivo dos homens; Paulo incluiu mulheres nessa categoria (Gl 3:28). A razão pela qual ele usou a palavra filhos (no masculino) em vez de uma palavra neutra (por exemplo, crianças) é que ele tinha em mente a herança da família que era transmitida para os descendentes do sexo masculino, além do fato de que a expressão “filhos de Deus” era a designação especial de Israel no Antigo Testamento (Dt 14:1; Os 11:1). Em Cristo, os gentios passaram a desfrutar da relação especial com Deus que havia sido exclusiva de Israel.

2. De acordo com Gálatas 3:27, 28; Romanos 6:1-11 e 1 Pedro 3:21, por que o batismo é tão importante?

O uso que Paulo fez da palavra pois, no verso 27, indica mais uma vez o desenvolvimento estritamente lógico do seu raciocínio. Paulo via o batismo como uma decisão radical de unir nossa vida a Cristo. Em Romanos 6, ele descreveu o batismo simbolicamente como nossa união com Jesus, tanto em Sua morte quanto em Sua ressurreição. Em Gálatas, Paulo utilizou uma metáfora diferente: o batismo é o ato pelo qual somos revestidos de Cristo. A terminologia de Paulo faz lembrar passagens maravilhosas do Antigo Testamento que falam de sermos revestidos com justiça e salvação (Is 61:10; Jó 29:14). “Paulo via o batismo como o momento em que Cristo, como um manto, envolve o cristão. Embora ele não tenha empregado o termo, Paulo estava descrevendo a justiça concedida aos cristãos” (Frank J. Matera, Galatians, Collegeville, Minnesota, The Liturgical Press, 1992, p. 145).

Nossa união com Cristo, simbolizada pelo batismo, significa o seguinte: o que é verdade em relação a Cristo também é verdade em relação a nós. Pelo fato de Cristo ser a “semente” de Abraão, como “co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17), os cristãos também são herdeiros de todas as promessas da aliança feitas a Abraão e a seus descendentes.

Pense neste conceito: aquilo que é verdade em relação a Cristo também é verdade a nosso respeito. Como essa verdade maravilhosa deve afetar cada aspecto da nossa existência?
Participe do projeto “Reavivados por Sua Palavra”: acesse o site http://reavivadosporsuapalavra.org/
Segunda-feira, 14 de agosto
Ano Bíblico: Jr 14–16
Escravizados aos princípios elementares

Tendo comparado nossa relação com Deus com a de filhos e herdeiros, Paulo aprofundou essa metáfora, incluindo o tema da herança em Gálatas 4:1-3. A terminologia de Paulo evoca uma situação em que o dono de uma grande propriedade morreu, deixando todos os seus bens para o filho mais velho. Seu filho, entretanto, ainda era menor de idade. Como frequentemente acontece com os testamentos, mesmo hoje, a vontade do pai estipulava que o filho estivesse sob a supervisão de tutores e administradores até que atingisse a maturidade. Embora ele fosse o dono da propriedade de seu pai por direito, por ser menor de idade, na prática ele não era muito mais do que um escravo.

A analogia de Paulo é semelhante à do tutor em Gálatas 3:24, mas, nesse caso, o poder dos tutores e administradores era muito superior e muito mais importante. Eles não eram responsáveis somente pela educação do filho de seu senhor, mas também por todos os assuntos financeiros e administrativos até que o filho se tornasse maduro o suficiente para assumir essas funções.

3. Leia Gálatas 4:1-3. Qual é a função da lei em nossa vida, agora que estamos em Cristo?

O que Paulo quis dizer exatamente com a expressão “princípios elementares” (Gl 4:3, 8) é questionado. A palavra grega stoicheia significa literalmente “elementos”. Alguns a têm visto como uma descrição dos elementos básicos que compõem o Universo (2Pe 3:10, 12); ou como poderes demoníacos que dominam nesta era maligna (Cl 2: 15); ou como os princípios elementares da vida religiosa, o ABC da religião (Hb 5:12). A ênfase de Paulo sobre o estado da humanidade como “menores” antes da vinda de Cristo (Gl 4:1-3) sugere que ele estivesse se referindo aos princípios elementares da vida religiosa. Sendo assim, Paulo estava dizendo que o período do Antigo Testamento, com suas leis e sacrifícios, era apenas a cartilha do evangelho que delineava os fundamentos da salvação. Portanto, por mais importantes e instrutivas que fossem as leis cerimoniais para Israel, eram apenas sombras do que estava por vir. Elas nunca foram destinadas a tomar o lugar de Cristo.

Estabelecer a vida em torno dessas regras, em vez de Cristo, é como querer voltar no tempo. O retorno dos gálatas àqueles elementos básicos depois de Cristo ter vindo era como se o filho adulto, na analogia de Paulo, quisesse voltar a ser menor de idade!

A fé infantil, apresentada na Bíblia de modo positivo (Mt 18:3), poderia impedir a maturidade espiritual? Enquanto você cresce espiritualmente, sua fé deve continuar sendo infantil? Você tem uma fé “infantil” [inocente] e confiante [dependente do Pai]?
Terça-feira, 15 de agosto
Ano Bíblico: Jr 17–19
“Deus enviou Seu Filho” (Gl 4:4)

“Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4:4).

Paulo escolheu a palavra “plenitude” para indicar o papel ativo de Deus na realização de Seu propósito na história humana. Jesus não veio simplesmente em qualquer tempo, mas veio no momento exato que Deus tinha preparado. Sob a perspectiva histórica, esse tempo é conhecido como a Pax Romana (a paz romana), o período de dois séculos de relativa estabilidade e paz em todo o Império Romano. A conquista romana do mundo mediterrâneo trouxe paz, um idioma comum, meios de transporte favoráveis e uma cultura comum que facilitou a rápida propagação do evangelho. Da perspectiva bíblica, ela também marcou o tempo que Deus havia estabelecido para a vinda do Messias prometido (Dn 9:24-27).

4. Por que Cristo teve que assumir nossa humanidade a fim de nos redimir? Jo 1:14; Gl 4:4, 5; Rm 8:3, 4; 2Co 5:21; Fp 2:5-8; Hb 2:14-18; 4:14, 15

Gálatas 4:4, 5 contém um dos relatos mais sucintos do evangelho nas Escrituras. A entrada de Jesus na história humana não foi acidente. “Deus enviou Seu Filho”. Em outras palavras, Deus tomou a iniciativa da nossa salvação.

Nessas palavras também está implícita a crença cristã fundamental da eterna divindade de Cristo (Jo 1:1-3, 18; Fp 2:5-9; Cl 1:15-17). Deus não enviou um mensageiro celestial. Ele veio pessoalmente.

Mesmo sendo o divino e preexistente Filho de Deus, Jesus também foi “nascido de mulher”. Embora o nascimento virginal esteja implícito nessa frase, ele confirma mais especificamente Sua genuína humanidade.

A frase “nascido sob a lei” aponta não apenas para a herança judaica de Jesus, mas também inclui o fato de que Ele sofreu a nossa condenação.

Era necessário que Cristo assumisse nossa humanidade porque não podería­mos nos salvar por nós mesmos. Unindo Sua natureza divina à nossa natureza humana caída, Cristo Se qualificou legalmente para ser nosso substituto, Salvador e Sumo Sacerdote. Como o segundo Adão, Ele veio ao mundo para reivindicar tudo que o primeiro Adão havia perdido por sua desobediência (Rm 5:12-21). Por Sua obediência Ele cumpriu perfeitamente as exigências da lei, redimindo assim o trágico fracasso de Adão. E por Sua morte na cruz, Ele cumpriu a justiça da lei, que exigia a morte do pecador, ganhando assim o direito de resgatar todos os que vão a Ele em verdadeira fé e submissão.

Quarta-feira, 16 de agosto
Ano Bíblico: Jr 20–23
Os privilégios da adoção (Gl 4:5-7)

Em Gálatas 4:5-7, Paulo desenvolveu o assunto, destacando que Cristo veio ao mundo para “resgatar os que estavam sob a lei” (v. 4, 5). A palavra resgatar significa “comprar de volta”. Referia-se ao preço pago para comprar a liberdade de um refém ou escravo. Como esse contexto indica, a redenção implica um passado negativo: precisamos ser libertados.

Do que, no entanto, precisamos ser libertados? O Novo Testamento apresenta quatro coisas, entre outras: (1) do diabo e de suas artimanhas (Hb 2:14, 15); (2) da morte (1Co 15:56, 57); (3) do poder do pecado que nos escraviza por natureza (Rm 6:22) e (4) da condenação da lei (Rm 3:19-24; Gl 3:13; 4:5).

5. Qual propósito positivo Cristo alcançou para nós mediante a redenção que temos nEle? Leia os seguintes textos e assinale “V” para verdadeiro ou “F” para falso: Gl 4:5-7; Ef 1:5; Rm 8:15, 16, 23; 9:4, 5.

A.( ) A garantia de que jamais pecaremos.

B.( ) A adoção de filhos.

Muitas vezes falamos sobre o que Cristo realizou por nós como “salvação”. Embora verdadeira, essa palavra não é tão vívida e descritiva quanto a palavra adoção (huiothesia), usada unicamente por Paulo. Embora Paulo seja o único autor do Novo Testamento a usar essa palavra, a adoção era um procedimento legal bem conhecido no mundo greco-romano. Vários imperadores romanos utilizaram a adoção como meio de escolher um sucessor, quando não tinham nenhum herdeiro legal. A adoção garantia, e ainda garante, uma série de privilégios: “(1) o filho adotivo se torna filho verdadeiro […] de seu adotante […]; (2) o adotante concorda em educar a criança de maneira adequada e suprir as necessidades de alimento e roupa; (3) o adotante não pode repudiar seu filho adotivo; (4) a criança não pode ser submetida à escravidão; (5) os pais naturais da criança não têm direito de reivindicá-la; (6) a adoção estabelece o direito à herança” (Derek R. Moore-Crispin, Galatians 4:1-9: The Use and Abuse of Parallels [Gálatas 4:1-9: O Uso e o Abuso dos Paralelos], The Evangelical Quarterly [O Trimestral Evangélico], v. LXI/nº 3, 1989, p. 216).

Se esses direitos são garantidos aqui na Terra, imagine quanto maiores são os privilégios que temos como filhos adotivos de Deus!

Leia Gálatas 4:6. Abba, do hebraico, era a palavra íntima que os “filhos” utilizavam para se dirigir aos pais, como as palavras papai ou paizinho hoje. Jesus a usou em oração (Mc 14:36) e, como filhos de Deus, temos também o privilégio de chamar Deus de Abba. Você gosta desse tipo de proximidade com Deus? Se não, por quê? O que você pode mudar para ter essa intimidade?
Quinta-feira, 17 de agosto
Ano Bíblico: Jr 24–26
Por que voltar à escravidão? (Gl 4:8-20)

6. Leia Gálatas 4:8-20. Resuma nas linhas abaixo o que Paulo disse. Ele levava a sério os ensinamentos falsos entre os gálatas?

Paulo não descreveu a natureza exata das práticas religiosas dos gálatas, mas ele tinha em mente, de maneira clara, um falso sistema de adoração que resultava em escravidão espiritual. Na verdade, ele considerava isso tão perigoso e destrutivo que escreveu uma carta muito exaltada, advertindo os gálatas de que suas práticas eram algo semelhante a se afastar da filiação e voltar à escravidão.

7. Embora Paulo não tenha entrado em detalhes, o que os gálatas estavam fazendo que ele achava totalmente censurável? Leia Gálatas 4:9-11 e assinale a alternativa correta:

A.( ) Praticando o falso dom de línguas.

B.( ) Adorando os apóstolos e desunindo a igreja.

C.( ) Observando as leis cerimoniais e buscando a salvação pelas obras da lei.

Muitos têm interpretado a referência de Paulo aos “dias, e meses e tempos, e anos” (Gl 4:10) como uma objeção não apenas às leis cerimoniais, mas também ao sábado. Tal interpretação, porém, vai além das evidências. Em primeiro lugar, se Paulo quisesse destacar o sábado e outras práticas judaicas específicas, em Colossenses 2:16 fica claro que ele facilmente poderia ter identificado cada uma pelo nome. Em segundo lugar, Paulo deixou claro que, não importando o que os gálatas estivessem fazendo, as atitudes deles os afastavam da liberdade em Cristo e os conduziam à escravidão. “Se a observância do sábado semanal sujeitasse as pessoas à escravidão, o próprio Criador teria entrado em escravidão quando Ele observou o primeiro sábado que houve no mundo!” (Comentário Bíblico Adventista, v. 6, p. 1071). Além disso, por que Jesus teria não apenas guardado o sábado, mas ensinado a outros como guardá-lo, se sua devida observância estivesse de alguma forma privando as pessoas da liberdade que tinham nEle? (Mc 2:27, 28; Lc 13:10-16).

Entre os adventistas do sétimo dia existem práticas que tiram a liberdade que temos em Cristo? O problema está com essas práticas ou com nossa atitude em relação a elas? Uma atitude errada poderia nos conduzir à escravidão sobre a qual Paulo advertiu os gálatas com tanta veemência?
Sexta-feira, 18 de agosto
Ano Bíblico: Jr 27–29
Estudo adicional

No concílio do Céu, foi feita provisão para que os homens, embora transgressores, não perecessem em sua desobediência, mas, pela fé em Cristo como seu substituto e penhor, pudessem se tornar eleitos de Deus, predestinados para a adoção de filhos por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de Sua vontade. Deus quer que todos sejam salvos, pois fez ampla provisão ao dar Seu Filho unigênito para pagar o resgate do ser humano. Aqueles que perecerem o farão por se recusarem a ser adotados como filhos de Deus por meio de Jesus Cristo. O orgulho do homem o impede de aceitar a dádiva da salvação. Por mérito humano, nenhuma pessoa será admitida na presença de Deus. O que torna alguém aceitável a Deus é a graça concedida por Cristo mediante a fé em Seu nome. Nenhuma confiança pode ser colocada em obras ou em alegres êxtases de sentimentos como prova de que os homens são escolhidos de Deus, pois os eleitos são separados por meio de Cristo” (Ellen G. White, “Escolhidos em Cristo”, Signs of the Times, 2 de janeiro de 1893).

Perguntas para reflexão

1. O que significa ser como crianças em nossa caminhada com o Senhor? O que isso não significa? Quais aspectos das crianças devemos imitar em relação à nossa fé e ao nosso relacionamento com Deus? Ao mesmo tempo, de que maneira podemos levar essa ideia longe demais?

2. O que torna os seres humanos temerosos em relação à ideia da graça e da salvação unicamente pela fé? Por que muitos prefeririam trabalhar por sua salvação, se isso fosse possível?

3. Como adventistas do sétimo dia, podemos estar envolvidos no tipo de escravidão da qual, teoricamente, temos sido libertados? Como isso poderia acontecer conosco? Como poderíamos saber se acontece? Como podemos ser libertos?

Resumo: Em Cristo fomos adotados na família de Deus como Seus filhos e filhas. Por isso, temos acesso a todos os direitos e privilégios que envolvem essa relação de família. Ter um relacionamento com Deus com base apenas em normas e regulamentos seria tolice. Seria como um filho que deseja renunciar à sua posição e herança a fim de se tornar escravo.

Resumo da Lição 8
De escravos a herdeiros

TEXTO-CHAVE: Gálatas 4:7

O ALUNO DEVERÁ

Conhecer: O processo pelo qual somos revestidos de Cristo no batismo e nos tornamos herdeiros de Seu reino.

Sentir: A intimidade do relacionamento Pai/filho, por meio do Espírito de Cristo em nosso coração.

Fazer: Viver como filho de Deus, não mais na condição de menor sob a restrição da lei, mas livre para aceitar os plenos direitos da herança.

ESBOÇO

I. Conhecer: Herdeiros, revestidos de Cristo

A. Como o batismo em Cristo nos distingue como filhos de Deus?

B. Por que foi necessário que Cristo nascesse de uma mulher, sob a lei, a fim de nos libertar, para que nos tornássemos Seus filhos e herdeiros?

II. Sentir: Abba, meu Pai

A. Como o Espírito nos faz lembrar da intimidade amorosa e informal entre um pai e um filho que sabe que é amado? Como saber se temos essa experiência com Deus?

B. Quais experiências proporcionam esse amor caloroso e confiante?

III. Fazer: Herdeiros do reino

A. Visto que temos sido filhos de Deus, como poderíamos voltar à escravidão das obras em busca do favor divino?

B. Como podemos nos revestir da justiça diariamente, na morte e ressurreição de Cristo?

C. Nossa lista de tarefas diárias reflete nossa condição de filhos de Deus e herdeiros de Seu reino?

RESUMO: Quando vivemos a vida de Cristo, somos chamados filhos de Deus. Tratamos o Pai de maneira amorosa e íntima, tendo todos os direitos dos que herdarão o reino de Cristo por causa de Suas dádivas, e não pelos nossos méritos.

Ciclo do aprendizado

Motivação

Focalizando as Escrituras: Gálatas 4:7

Conceito-chave para o crescimento espiritual: A vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo foram os meios divinos para nos libertar do poder do pecado e da morte e nos colocar de volta em um relacionamento correto com Ele. Somos chamados a viver livres em Cristo.

Para o professor: A seguinte história verídica nos lembra de que a liberdade que Deus nos concedeu por meio de Cristo é um dos mais preciosos dons oferecidos aos seres humanos caídos e deve ser celebrada como tal.

Em abril de 2002, Ray Krone, um antigo detento do corredor da morte, tornou-se o centésimo prisioneiro nos Estados Unidos a ser inocentado pela prova de DNA desde que a pena de morte foi restabelecida em 1976. Krone tinha passado mais de dez anos na prisão por um homicídio que não cometeu.

Como Krone passou seu primeiro dia de liberdade? Ele comeu bife e foi nadar na piscina de um hotel, gritando de alegria à medida que a água fria o envolvia. Quase imediatamente após sua libertação, ele começou a denunciar as deficiências do sistema judiciário que fizeram com que ele perdesse a fé. Krone havia sido condenado não uma, mas duas vezes pelo mesmo crime, sendo que na última vez foi condenado à prisão perpétua.

Quando perguntaram como ele planejava reconstruir a vida, Ray Krone respondeu: “Eu não penso em reconstrução. Penso em começar de novo. Tenho uma vida totalmente nova, sonhos totalmente novos [...]. Não quero ser negativo, vingativo nem furioso. Não tenho tempo para isso.”

Pense nisto: Peça que a classe considere as seguintes questões: Com o que se parece a liberdade em Cristo? Como podemos saber quando essa liberdade é genuína e quando não é? É possível saber? Qual verdade profunda sobre nossa nova vida em Cristo é revelada pelas palavras de Ray Krone sobre começar de novo?

Compreensão

Para o professor: Como a lição desta semana deixa claro, os profetas do Antigo Testamento enfrentaram a difícil tarefa de expor os pecados escondidos, e os não tão escondidos assim, do povo que muitas vezes alegava estar adorando o Deus verdadeiro.

Comentário bíblico

I. Mortos de verdade

(Recapitule com a classe Rm 6:1-11; Gl 3:26, 1Co 12:13.)

A lição desta semana esboça o papel fundamental que o batismo desempenha na completa renovação da vida do pecador. Segundo o estudo de domingo, “unir nossa vida com Cristo” é uma “decisão radical”.

Em Romanos 6:4, o apóstolo Paulo ampliou o conceito do significado do batismo. Ele descreveu o processo dizendo que “fomos sepultados com Ele na morte por meio do batismo” (NVI). Esse geralmente é um dos conceitos mais difíceis de compreender, de que mediante o batismo a pessoa morre verdadeiramente para sua antiga maneira de viver. No entanto, essa compreensão é afirmada em Gálatas 3:26.

A morte do cristão para o pecado no batismo é tão real e completa como a morte literal de Cristo. Assim como o ressurgimento de Cristo da sepultura indica um novo nascimento, também nossa saída da sepultura das águas batismais simboliza nova vida em Cristo.

O batismo representa uma união com Cristo. Paulo observou: “Em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12:13).

Pense nisto: Por que muitos cristãos lutam para aceitar a totalidade de sua morte em Cristo? Como devemos entender o fato de que, embora estejamos mortos para o pecado, certos pecados continuam a nos desafiar? Como Satanás usa essa tensão entre a velha e a nova vida para nos desencorajar?

II. Até mesmo Seu poder?

(Recapitule com a classe Gl 4:7; Mt 4:4-11.)

Um dos aspectos verdadeiramente inspiradores do ministério de Jesus na Terra foi o difícil exercício de Seu domínio sobre Satanás, começando com a tentação que Ele enfrentou no deserto (Mt 4:4-11). Como o autor deixa claro no estudo desta semana, visto que somos coerdeiros com Cristo, tudo que pertence a Ele pertence a nós, até mesmo Seu poder. Parte da liberdade oferecida por Cristo é uma crescente capacidade de resistir ao pecado e abandoná-lo em todas as suas formas. Deus nos adotou da “escravidão do pecado”.

Pense por um momento sobre a incapacidade de Satanás em ter êxito com Jesus em qualquer frente, como Ellen G. White descreveu: “Ao vir Jesus ao mundo, o poder de Satanás se voltou contra Ele. Desde o tempo em que apareceu aqui, como a Criancinha de Belém, o usurpador trabalhou para promover Sua destruição. Por todos os meios possíveis, procurou impedir Jesus de desenvolver infância perfeita, imaculada varonilidade, um ministério santo e sacrifício irrepreensível. Porém ele foi derrotado. Não pôde levar Jesus a pecar. Não O conseguiu desanimar nem desviá-Lo da obra para cuja realização veio ao mundo. Do deserto ao Calvário Ele foi açoitado pela tempestade da ira de Satanás, mas quanto mais impiedosa ela se tornava, tanto mais firmemente o Filho de Deus Se apegava à mão de Seu Pai, avançando na ensanguentada vereda. Todos os esforços de Satanás para oprimi-Lo e vencê-Lo só faziam ressaltar, mais nitidamente, a pureza de Seu caráter” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 759).

Pense nisto: Muitos cristãos não acreditam que, por intermédio de Jesus, eles também possam vencer as artimanhas de Satanás. O que os impede de experimentar a liberdade do poder de certos pecados? Estariam destinados a lutar para sempre? Explique.

III. O testemunho vivo de Paulo

(Recapitule com a classe Gl 3:28; 4:12.)

O estudo desta semana se encerra com o apelo de Paulo para que os novos cristãos gálatas não retornassem aos “rudimentos fracos e pobres” que uma vez os haviam escravizado (Gl 4:9). Para Paulo, o retorno ao legalismo passado seria semelhante a voltar à adoração pagã.

Paulo exortou seu público gentio da seguinte maneira: “Que se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês” (Gl 4:12, NVI). Escondida nessa linguagem aparentemente sentimental estava a verdade que Paulo revelou em Gálatas 3:28, de que em Cristo não há “judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus” (NVI). Como veremos no estudo da próxima semana, Paulo efetivamente adotou alguns costumes e modos de vida dos gentios.

Podemos apenas imaginar como essa declaração chegou aos ouvidos do público judeu de Paulo. O apóstolo rejeitou enfaticamente qualquer separação entre ele e os gentios. Em 1 Coríntios 9:21 ele afirmou que havia se tornado como gentio para que talvez pudesse levar alguns gentios a Cristo: “Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a lei” (NVI).

A liberdade de Paulo em Cristo removeu a visão estreita e paroquial e o tornou aberto a compartilhar o amor de Deus por toda parte.

Pense nisto: Como devemos proceder para exemplificar a unidade que compartilhamos com todos os filhos de Deus?

Aplicação

Para o professor: Como filhas e filhos adotados por Deus, devemos conhecer a vida do Pai, o que significa permanecer nEle (Jo 15:1-7) e compartilhar Seu amor com os membros perdidos da família humana (Mt 28:18-20).

Perguntas para reflexão

1. Qual é o papel da nossa vida devocional na manutenção da nossa liberdade em Cristo? Leia Marcos 1:35-39. O que esses versos falam sobre a vida devocional de Jesus e como isso influenciava Suas decisões a cada momento?

2. Por que alguns cristãos duvidam da realidade de sua adoção em Cristo? Como nossa antiga relação com o pecado pode, às vezes, prejudicar nosso relacionamento com o Pai?

Perguntas para aplicação

1. Como podemos conciliar a liberdade em Cristo com o ensino da Bíblia sobre assuntos como modéstia no vestir, comportamento cristão e reforma de saúde? O que podemos e o que não podemos fazer?

2. Em que aspecto devemos permanecer como crianças na caminhada cristã? Em que aspecto devemos nos tornar filhos e filhas de Deus plenamente amadurecidos?

Perguntas para testemunhar

1. “Os discípulos deviam ser colaboradores de seu Redentor na obra de salvar o mundo”
(Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 818). O que nossa disposição de trabalhar pela salvação dos irmãos perdidos revela sobre nosso amor pelo Pai?

2. Leia a parábola da grande ceia encontrada em Lucas 14:15-24. Jesus ordenou aos Seus servos: “Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a Minha casa” (v. 23). Por que o Pai está tão desejoso de compartilhar Suas dádivas com tantas pessoas quanto possível? Como podemos “obrigar” as pessoas a vir para a grande celebração da adoção?

Criatividade e atividades práticas

Para o professor: Compartilhe a seguinte mensagem com os alunos e pergunte como eles poderiam aplicar as verdades aprendidas nesta semana para atender a necessidade do aflito coração da pessoa mencionada a seguir. Peça que os membros da classe façam uma lista das coisas que diriam a essa pessoa.

Alguém postou o seguinte clamor por ajuda em uma página cristã na internet: “Às vezes, parece que Deus está a uma galáxia de distância de mim. Penso que meus pecados passados continuam me assombrando. Não consigo esquecê-los! E justamente quando acho que eles estão sob controle e não mais irei praticá-los, a bomba explode! Acontece tudo de novo. Eu me atrapalho. É como se o diabo estivesse zombando de mim: ‘Pensou que poderia escapar? Você não pode!’ E às vezes me sinto assim, achando que desci até o fundo e que estou tão longe da graça de Deus que não posso voltar. Sei que isso não é verdade, que Deus Se encontra comigo onde quer que eu esteja, mas às vezes pergunto se Ele realmente me ouve”.

Rejeitados por causa do sábado

 

Seis famílias da Igreja Adventista do Sétimo Dia permaneceram fiéis a Deus em meio às ameaças de morte, prisão e perseguições no nordeste da Índia. Como resultado dessa coragem, 30% dos moradores da pequena aldeia agora são membros da Igreja Adventista.

A história começou quando as seis famílias de observadores do sábado se mudaram para a aldeia, a fim de escapar de uma insurreição em sua terra natal em 1966. Nos primeiros quatro anos, a vida na nova aldeia transcorreu normalmente. Os adultos pertencentes às seis famílias decidiram fazer parte da Igreja Adventista por meio do batismo. Quase imediatamente, os outros aldeões começaram a causar problemas. Ordenaram que os novos adventistas abandonassem a aldeia ou desistissem da nova fé.

A maioria dos moradores da aldeia pertencia a outra igreja cristã, e não queria saber dos adventistas. Eles ameaçaram os adventistas, invadiram a pequena cabana coberta de palha que servia como igreja, e construíram um fogão tradicional de três pedras no centro da cabana, dizendo que ali deveria ser uma residência, não uma igreja.

Vários aldeões fizeram ameaças de morte aos adventistas, mas o pequeno grupo permaneceu fiel às suas crenças. Quando nada deu resultado, os aldeões convenceram um funcionário do governo local a assinar um decreto segundo o qual os adventistas deveriam desistir da sua fé ou sair da aldeia.

Presos

No sábado seguinte, vários policiais ficaram esperando os adventistas voltarem para casa depois do culto. A polícia disse aos três homens do grupo que eles estavam presos.

As mulheres ficaram com medo, e as crianças começaram a chorar. Pan, um dos adultos, disse aos policiais: “Não cometemos nenhum crime, por isso não merecemos ser presos. Se vocês querem nos matar por motivos religiosos, estamos prontos para entregar nossa vida.”

“Não queremos matá-los”, disse um policial, “mas como os aldeões não querem que vocês morem aqui, nós temos que levá-los para a prisão.”

Um policial algemou Pan, seu amigo Amunang [Amunangue], e um terceiro homem, e os colocou na carroceria do caminhão da polícia.

A esposa de Pan sentiu uma dor de estômago quando viu o marido sendo levado. Mas ela se lembrou da promessa de Jesus em Mateus 5:10: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.”

O carro da polícia se dirigiu para a delegacia principal da região, que ficava a duas horas de distância na cidade de Dimapur. Perto da delegacia de polícia, Panmeichung percebeu, surpreso, que suas algemas escorregavam do pulso, separando-o de seu amigo. Ele mostrou aos policiais suas mãos livres e eles perguntaram como ele tinha tirado as algemas. “Nós não fizemos nada”, disse ele. O policial fechou as algemas e o grupo continuou a viagem para a delegacia.

Os três homens adventistas foram levados para uma cela onde passaram dois dias. Na segunda-feira, o policial disse que eles poderiam ir e que deveriam se mudar para outra aldeia. Os adventistas protestaram dizendo: “Vocês não nos deram uma razão para nos prender, não fizeram nenhuma investigação e nem qualquer acusação.” A polícia não pôde responder e finalmente os homens foram libertados.

A volta para casa

Ao chegar em casa, os adventistas fizeram um apelo às autoridades locais. Pediram autorização para viver em paz na aldeia. Três meses depois, as autoridades disseram que os adventistas poderiam ficar na aldeia e determinaram que os outros moradores deveriam deixá-los em paz.

Apenas seis famílias adventistas se mudaram para essa aldeia, mas hoje 84 famílias são adventistas do sétimo dia. Quase um terço dos 1.500 habitantes da aldeia agora pertencem à Igreja Adventista.

Panmeichung nunca descobriu porque as algemas caíram do seu pulso. Mas ele disse que o incidente o fez lembrar, naquela hora de angústia, que Deus estava perto dele. Ele disse: “Foi um milagre; uma espécie de sinal que nos mostrou que o Senhor estava conosco.”

Parte da oferta da Escola Sabatina deste trimestre ajudará a construir um residencial feminino na Escola Adventista de Nagaland, localizada em Dimapur, a mesma cidade onde esses fiéis adventistas foram presos por dois dias. A escola precisa de dormitórios para que mais estudantes de aldeias distantes, como a que conhecemos hoje, possam frequentar uma escola adventista e aprender a ser bons cidadãos e servos de Deus.

(Continua na próxima semana.)

Resumo missionário

• Nagaland fica no nordeste da Índia e faz limite com Myanmar (Birmânia) ao leste. A maioria das pessoas de Nagaland é considerada “população tribal” – grupos étnicos diferentes da maior parte dos habitantes da Índia.

• O cristianismo é a religião dominante na região e o inglês é amplamente falado como resultado do trabalho missionário do século 19. Embora os cristãos mudem de denominação, muitas vezes isso não acontece sem objeções por parte da maioria das denominações cristãs ali existentes.

• A Escola Adventista de Nagaland está localizada em Dimapur, a maior cidade do estado.

Comentário da Lição da Escola Sabatina – 3º trimestre de 2017
Tema geral: “O evangelho em Gálatas”
Lição 8: 12 a 19 de agosto
De escravos a herdeiros

Autor: Pr. Nilton Aguiar

Editor: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br

Revisora: Josiéli Nóbrega

 

Introdução

Na sua carta aos Efésios, o apóstolo Paulo enfatizou que, em Cristo, o Pai nos abençoou “com toda sorte de bênção espiritual” (Ef 1:3). Ele afirmou que Deus nos escolheu em Cristo (v. 4); redimiu-nos em Cristo (v. 7); desvendou-nos o mistério de Sua vontade em Cristo (v. 9); fez convergir todas as coisas em Cristo (v. 10); deu-nos uma herança em Cristo (v. 11); selou-nos com o Espírito Santo da promessa em Cristo (v. 13) e “nos predestinou para Ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo” (v. 5). Em Gálatas, Paulo também abordou esse tema, enfatizando os privilégios da adoção. Em Cristo, Deus nos tirou da condição de escravos, e nos fez herdeiros!

Nossa condição em Cristo

Ao continuar seu raciocínio sobre o propósito da lei de nos conduzir a Cristo, Paulo passou a mencionar as bênçãos que recebemos em Cristo. A expressão em Cristo e seus cognatos aparecem mais de 170 vezes nas cartas paulinas. Paulo gostava de utilizar essa expressão “para sinalizar a relação pessoal, local e dinâmica do crente com Cristo”.[ii] Ela aparece três vezes em Gálatas 3:26-29, e cada uma delas destaca uma verdade que merece nossa atenta consideração: 1. Em Cristo, todos somos filhos de Deus (v. 26); 2. Em Cristo, fomos batizados e Dele nos revestimos (v. 27); 3. Em Cristo, não há qualquer distinção entre as pessoas (v. 28).

Filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus. Ao declarar que todos nós somos filhos de Deus, Paulo modificou essa informação a partir de duas expressões: mediante a fé e em Cristo. As duas expressões não precisam necessariamente aparecer juntas. Assim, uma tradução possível do verso é: “Em Cristo, vocês são filhos de Deus, mediante a fé”. A expressão “mediante a fé” aponta que é pela fé que os Gálatas se tornaram filhos de Deus. Embora Paulo não tenha mencionado aqui a questão da circuncisão, o contexto da carta deixa claro que sua intenção foi argumentar que é a fé, e não a circuncisão, que torna um gentio um membro da família de Deus. Por sua vez, a frase em Cristo no verso 26 aponta para a base sobre a qual essa filiação ocorre, ou seja, é a união do crente com Cristo Jesus.

Batizados em Cristo. No verso 27, Paulo introduziu o ponto em que a união com Cristo inicia. Aqui, também é claro que o batismo ficou no lugar da circuncisão como sinal de que pertencemos ao povo de Deus. O batismo é apresentado como revestimento de Cristo. Essa linguagem aparece em outras cartas de Paulo (Rm 13:12-14; Ef 4:22-25; Cl 3:8-12). Na linguagem bíblica, revestir-se de alguém significa desenvolver “as características, virtudes e/ou intenções da pessoa referida, e então tornar-se semelhante a essa pessoa”.[iii] Em outras palavras, para Paulo o batismo era essencialmente importante porque por meio dele Cristo compartilha Seu próprio caráter conosco. Porém, como cerimônia de iniciação, o batismo indica que o desenvolvimento de um caráter semelhante ao de Cristo é o processo de uma vida inteira.

Todos iguais, em Cristo. No verso 28, Paulo comenta que em Cristo todas as barreiras de distinção foram derrubadas. Não há distinção racial (judeu ou grego); de classes (escravo ou livre); nem de gênero (homem ou mulher). Todos somos iguais perante Deus!

Escravizados aos princípios elementares

Existe algum debate entre os estudiosos da Bíblia sobre o que Paulo quis dizer com a expressão “princípios elementares” em Gálatas 4:3. Porém, parece bastante claro que ele estava aplicando a ilustração que ele apresentou nos dois versos anteriores (Gl 4:1, 2). Paulo iniciou o verso três com a expressão “assim também”, uma fórmula bastante comum, usada para introduzir a conclusão de uma comparação (Ex.: Rm 5:12, 18, 19, 21; 1Co 15:22; Ef 5:24, etc.). Essa é uma pista para entender o que Paulo quis dizer ao afirmar que “ quando [nós] éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo”. A identidade do “nós” também é importante para a compreensão da passagem. Ao usar esse pronome, fica claro que Paulo estava pensando não somente nos gentios, mas também nos judeus.[iv] A ideia é que, assim como o herdeiro menor de idade estava sujeito a guardiões e administradores, e, por isso, não diferia de um escravo, assim também judeus e gentios estavam sujeitos aos princípios elementares do mundo e, por isso, não passavam de escravos.

Na ilustração, judeus e gentios são comparados ao herdeiro menor de idade, enquanto os princípios elementares do mundo são comparados aos guardiões e administradores. O termo menor, que é aplicado tanto ao herdeiro (v. 1) quanto aos judeus e gentios (v. 3) é a tradução do termo grego n?pios, que se refere a uma criança, porém especificamente à sua imaturidade por ainda não haver atingido a maioridade. Paulo trouxe esse termo para um contexto espiritual. Como no verso quatro ele mencionou a primeira vinda de Cristo na plenitude dos tempos, finalmente fica claro que a expressão “princípios elementares do mundo” tem a ver com a imaturidade no conhecimento de Cristo, compartilhada não somente pelos gentios, mas também pelos judeus, pelo fato de que tudo que se sabia sobre Ele era apenas sombra de uma realidade infinitamente superior.

“Deus enviou Seu Filho”

A primeira vinda de Cristo é o tempo na história em que os descendentes espirituais de Abraão (Gl 3:28, 29) finalmente puderam herdar a promessa. Já não podiam mais ser considerados menores e, portanto, escravos. A sombra encontrou a realidade; o tipo, o antítipo; a promessa, o cumprimento.

Do ponto de vista temático, Gálatas 4:4 é paralelo a Romanos 8:3 e João 3:16. Essas passagens apontam para a iniciativa de Deus de enviar Seu Filho. É importante notar que, em todas elas, Jesus é chamado de Filho, e Ele é Filho mesmo antes de ser enviado à Terra com a missão especial de salvar a humanidade. Portanto, o termo Filho aplicado a Cristo tem um sentido não apenas funcional, ou seja, o papel que Ele desempenha no plano da salvação, mas também ontológico, ou seja, aquilo que Ele é em natureza: igual a Deus! Isso significa que o próprio Deus veio ao mundo para resolver o problema do pecado. Ao refletir sobre isso, devemos ter em conta dois fatores. Primeiro, a importância da humanidade aos olhos de Deus; segundo, o pecado é tão sério que foi necessário que Deus viesse pessoalmente ao mundo para resolvê-lo.

A humanidade de Cristo é destacada de duas maneiras em Gálatas 4:4. Paulo declarou que Ele nasceu de mulher e nasceu sob a lei. Ao dizer que Cristo nasceu de mulher, Paulo deu a entender que Jesus era plenamente humano. Porém, em Romanos 8:3, Sua humanidade é explicada em termos de semelhança. Ali, Paulo afirmou que Deus enviou “o Seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa”. O termo “semelhança” nessa passagem tem duas funções. Primeiro, ele aponta que Jesus não era um pecador. Ao Se tornar homem, Jesus foi similar a nós em todos os sentidos, exceto um: Ele era plenamente Deus. Ao mesmo tempo, o termo “semelhança” demonstra que Jesus Se identificou profundamente com o pecador. Paulo afirmou que Ele nasceu sob a lei no sentido de que Ele “nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se Ele próprio maldição em nosso lugar” (Gl 3:13).

Os privilégios da adoção

É interessante como numa passagem tão curta quanto Gálatas 4:5-7 Paulo consiga condensar um tema tão vasto quanto os privilégios da adoção. Em síntese, podemos dizer que há quatro privilégios expressos nessa passagem: 1) filiação; 2) o Espírito Santo; 3) liberdade e 4) herança. Comentaremos em poucas palavras cada um deles. Antes, porém, é preciso considerar que o pensamento de Paulo nesses versos é uma continuação do pensamento introduzido no verso quatro, ou seja, Deus enviou Seu Filho ao mundo. No verso cinco, Paulo expressou os dois propósitos ou resultados dessa iniciativa divina. Primeiro, Jesus veio ao mundo para nos resgatar; segundo, Jesus veio ao mundo para que nós pudéssemos ser adotados como filhos. Nessa passagem, Paulo não oferece explicação a respeito do resgate. Esse é um assunto bem explorado em outros lugares do Novo Testamento. Porém, ele desenvolveu o assunto da adoção, apresentando os privilégios que dela decorrem.

Filiação. A frase “vós sois filhos” é declarativa, afirmando o status dos crentes na comunidade cristã. Como filhos de Deus, os crentes agora podem desfrutar de um relacionamento mais íntimo com o Pai, o que fica claro pelo uso do termo Abba. Como Cristo nos chama de irmãos (Hb 2:11), nós também podemos chamar Deus de Abba, Pai. A ideia de filiação é tão importante que é repetida no verso sete.

O Espírito Santo. É interessante notar que o verso quatro afirma que Deus enviou Seu Filho e o verso seis menciona que Deus enviou o Espírito ao nosso coração. Aqui, vemos claramente o trabalho da Trindade em favor do resgate da humanidade. A nossa adoção como filhos de Deus ocorre por meio da ação do Filho e é confirmada pelo Espírito.

Liberdade. Paulo menciona que não somos mais escravos. Ele contrasta o status de escravo com o status de filho. Portanto, a condição de filho é uma condição de liberdade.

Herança. Em Cristo, somos herdeiros da promessa feita a Abraão. A frase kl?ronomos dia theou, traduzida como “herdeiro por Deus”, também pode ser traduzida como “herdeiro através de Deus”. Essa frase demonstra que “o que somos enquanto cristãos, como filhos e herdeiros de Deus, não ocorre através de nosso mérito, nem através de nosso esforço, mas ‘através de Deus’, através de Sua iniciativa de graça, que primeiro enviou Seu Filho para morrer por nós e então enviou Seu espírito para viver em nós”.[v]

Por que voltar à escravidão?

Em Gálatas 4:9, Paulo voltou a usar a palavra stoicheia, traduzida na Nova Versão Internacional como “princípios elementares” e, na Almeida Revista e Atualizada, como “rudimentos”, e novamente a associa a um estado de escravidão (ver versos 1-7). Existem várias interpretações sobre o que Paulo quis dizer ao mencionar stoicheia, porém a que mais parece se encaixar com o contexto da carta, bem como com o contexto imediato da passagem, é a de que essa expressão se refere a ensinos elementares. Isso pode ser visto a partir da relação entre “princípios elementares” e o tempo da infância (“quando éramos menores”), no verso três. Em toda a seção compreendida em Gálatas 3:23–4:7, Paulo estava argumentando que é em Cristo que os crentes alcançaram maturidade. Cristo é o cumprimento das profecias e símbolos do Antigo Testamento. Portanto, retornar à circuncisão era visto por Paulo como uma forma de retrocesso.

Em Gálatas 4:8, Paulo explicou que os gálatas haviam sido “escravos do paganismo”, uma vez que, não tendo o conhecimento de Deus, eles adoravam outros deuses. Para Paulo, esse retrocesso dos gálatas era uma nova forma de escravidão, porém, agora, não por meio do paganismo, mas em função da ideia de salvação pelas “obras da lei”. É interessante notar que Paulo usou os adjetivos “fracos” e “pobres” para caracterizar stoicheia (princípios elementares ou rudimentos). Esses princípios elementares, ou rudimentos, são fracos “porque eles não têm poder de salvar ou justificar seus devotos; e são pobres porque eles não têm riquezas espirituais para conceder aos Gálatas – em resumo, eles não têm nada para oferecer, exceto escravidão”.[vi]

Conclusão

Na lição desta semana, vimos que nossa condição em Cristo implica que (1) somos filhos de Deus, (2) entramos numa relação de intimidade com Deus por meio do batismo e da reprodução do caráter de Cristo em nós e (3) somos todos iguais perante Deus. Em Cristo, Deus nos tirou da condição de escravos e nos levou à condição de herdeiros do reino. Ele fez isso enviando Seu Filho ao mundo. Em Cristo, recebemos os privilégios da adoção, que envolvem filiação, o Espírito Santo, liberdade e herança. Não existe razão para querer voltar à condição de escravo!

Notas

[ii]Richard N. Longenecker, Galatians, v. 41, Word Biblical Commentary (Dallas: Word, Incorporated, 1998), 152.

[iii] Richard N. Longenecker, Galatians, 156.

[iv] Ronald Y. K. Fung, The Epistle to the Galatians (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1953), 180-181.

[v] John R. W. Stott, The Message of Galatians: Only One Way, The Bible Speaks Today (Leicester, England; Downer’s Grove, IL: InterVarsity Press, 1986), 107.

[vi] Ronald Y. K. Fung, The Epistle to the Galatians, 192.

 

Autor do comentário: O autor é pastor, mestre em Ciências da Religião, mestre e bacharel em Teologia, licenciado em Letras e autor de diversos livros e artigos. É docente do curso de Teologia, no Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, Cachoeira/BA, e atualmente está cursando o doutorado em Novo Testamento, na Andrews University (EUA). É casado com a professora Cristiane Aguiar, e tem dois filhos: a Karol e o Lucas.