Lição 11
06 a 12 de junho
A Bíblia e as profecias
Sábado à tarde
Ano Bíblico: Jó 15-17
Verso para memorizar: “Ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” (Dn 8:14)
Leituras da semana: Dn 2:27-45; Jo 14:29; Nm 14:34; Dn 7:1-25; Dn 8:14; 1Co 10:1-13

As profecias bíblicas são essenciais para nossa identidade e missão. Elas apresentam um mecanismo interno e externo para confirmar a exatidão da Palavra de Deus. Jesus disse: “Disse-vos agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós creiais” (Jo 14:29; veja também
Jo 13:19). A pergunta crucial é: como podemos interpretar as profecias corretamente a fim de saber quando elas realmente aconteceram?

Durante a Reforma, os reformadores adotaram o método historicista. Esse método é o mesmo que Daniel e João usaram como chave para sua própria interpretação. O método historicista considera as profecias um cumprimento progressivo e contínuo da História, começando no passado e terminando com o reino eterno de Deus.

Nesta semana estudaremos os pilares da interpretação profética historicista. “Devemos ver na História o cumprimento da profecia, estudar as operações da Providência nos grandes movimentos reformatórios, e entender o progresso dos acontecimentos ao ver as nações ­mobilizando-se para o combate final do grande conflito” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, v. 8, p. 307).

Um aperto de mão dado por um cristão pode transformar vidas. Experimente olhar para as pessoas como Cristo olhava!
Domingo, 07 de junho
Ano Bíblico: Jó 18, 19
O historicismo e as profecias

O método fundamental aplicado pelos Adventistas do Sétimo Dia para estudar as profecias chama-se historicismo. É a ideia de que muitas das principais profecias da Bíblia seguem um fluxo linear ininterrupto da História, do passado ao presente, e ao futuro. Esse método é semelhante à maneira pela qual a História é estudada nas escolas. Adotamos esse método porque a própria Bíblia interpreta as profecias dessa maneira.

1. Leia Daniel 2:27-45. Quais aspectos do sonho indicam uma sucessão contínua e ininterrupta de poderes ao longo da História? De que maneira a própria Bíblia nos mostra como interpretar a profecia apocalíptica (relacionada ao tempo do fim)?

_________________________________________________

Observe que o reino de Nabucodonosor é reconhecido como a cabeça de ouro. Portanto, Daniel identificou Babilônia como o primeiro reino (Dn 2:38). Em seguida, ele disse: “Depois de ti, se levantará outro reino, inferior ao teu; e um terceiro reino” (Dn 2:39) e depois um quarto (Dn 2:40). O fato de que esses reinos tinham uma sequência, um após o outro, sem quaisquer lacunas, também está implícito na própria estátua, pois cada reino é representado em partes de um corpo maior, movendo-se da cabeça aos dedos dos pés. Essas partes estavam conectadas, assim como o tempo e a História estão conectados.

Em Daniel 7 e 8, em vez de uma estátua, são usados símbolos específicos de animais para ensinar sobre os mesmos acontecimentos. Vemos uma sequência ininterrupta de quatro reinos terrestres (três em Daniel 8). Eles começam na Antiguidade e atravessam a História até o presente e o futuro, quando Cristo retornará, e Deus estabelecerá Seu reino eterno.

Portanto, a estátua de Daniel 2 e as sucessivas visões de Daniel 7 e 8 proveram o fundamento para a interpretação historicista protestante das profecias, que os Adventistas do Sétimo Dia ainda defendem.

2. Leia João 14:29. Segundo as palavras de Jesus, como as profecias podem funcionar? Assinale a alternativa correta:

A.(  ) Como sinais para confirmar nossa fé no Senhor.
B.(  ) Como indicações para calcularmos a data da volta de Cristo.

Que enorme vantagem temos hoje, em relação a alguém que viveu no tempo de Babilônia, considerando que grande parte da história já se passou?
Segunda-feira, 08 de junho
Ano Bíblico: Jó 20, 21
O princípio do dia/ano

Uma das chaves interpretativas do historicismo é o princípio do dia/ano. Ao longo dos séculos, muitos estudiosos aplicaram esse princípio às profecias de tempo de Daniel e Apocalipse. Eles o retiraram de vários textos fundamentais e do contexto imediato das próprias profecias.

3. Leia Números 14:34 e Ezequiel 4:6, 7. Nesses textos, como Deus explicou o princípio do dia/ano?

______________________________________

Nesses textos, vemos muito claramente a ideia do princípio do dia/ano. Mas como justificamos o uso desse princípio com algumas profecias de tempo, como em Daniel 7:25 e 8:14, bem como Apocalipse 11:2, 3;
12:6, 14; e 13:5?

Três outros elementos apoiam o princípio do dia/ano nessas profecias de Daniel e Apocalipse: o uso de símbolos, longos períodos de tempo e expressões peculiares.

Primeiramente, a natureza simbólica dos animais e chifres representando os reinos sugere que as expressões de tempo também devam ser entendidas simbolicamente. Os animais e chifres não devem ser considerados de maneira literal. Eles simbolizam outra coisa. Portanto, visto que o restante da profecia é simbólico, não literal, por que deveríamos considerar literais as profecias de tempo? Evidentemente, não devemos.

Em segundo lugar, muitos acontecimentos e reinos descritos nas profecias abrangem um período de muitos séculos, o que seria impossível se as profecias de tempo que as descrevem fossem tomadas literalmente. Aplicando o princípio do dia/ano, o tempo se ajusta aos eventos de maneira precisa, o que seria impossível se as profecias de tempo fossem consideradas literalmente.

Por fim, as expressões peculiares usadas para designar esses períodos de tempo sugerem uma interpretação simbólica. Em outras palavras, não são normais as maneiras pelas quais o tempo é expresso nessas profecias (por exemplo, “2.300 tardes e manhãs”, em Daniel 8:14), mostrando-nos que os períodos de tempo descritos devem ser tomados simbolicamente e não literalmente.

Se a profecia das 70 semanas (Dn 9:24-27) fosse literal, o período “desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe” (Dn 9:25), seria de 69 semanas, ou seja, um ano e quatro meses. A profecia não teria sentido. Os eventos proféticos ficam claros quando aplicamos o princípio do dia/ano, e as 70 semanas se tornam 490 anos?
Terça-feira, 09 de junho
Ano Bíblico: Jó 22-24
Identificando o chifre pequeno

Durante séculos, os reformadores protestantes identificaram o poder do chifre pequeno em Daniel 7 e 8 como a igreja romana. Por quê?

4. Leia Daniel 7:1-25; 8:1-13. Quais são as características comuns do chifre pequeno em ambos os capítulos? Como podemos identificá-lo?

___________________________________

Existem sete características comuns entre o chifre pequeno de Daniel 7 e o de Daniel 8: (1) ambos são descritos como um chifre; (2) ambos são poderes perseguidores (Dn 7:21, 25; 8:10, 24); (3) ambos são blasfemos e exaltam a si mesmos (Dn 7:8, 20, 25; 8:10, 11, 25); (4) ambos têm como alvo o povo de Deus (Dn 7:25, 8:24); (5) ambos têm aspectos de sua atividade descritos pelo tempo profético (Dn 7:25; 8:13, 14); (6) ambos se estendem até o fim dos tempos (Dn 7:25, 26; 8:17, 19); e (7) ambos devem ser destruídos de maneira sobrenatural (Dn 7:11, 26; 8:25).

A História identifica o primeiro reino como Babilônia (Dn 2:38), o segundo como a Média-Pérsia (Dn 8:20) e o terceiro como a Grécia (Dn 8:21).
A História mostra, de maneira incontestável, que depois desses impérios mundiais vem Roma.

Em Daniel 2, o ferro que representa Roma continua nos pés de ferro misturado com barro; isto é, até o fim dos tempos. O chifre pequeno de Daniel 7 surge do quarto animal, mas permanece como parte desse quarto animal.

Qual poder surgiu de Roma e exerceu influência político-religiosa por pelo menos 1.260 anos? Apenas um poder se encaixa na História e na profecia: o papado, que chegou ao poder entre as dez tribos bárbaras da Europa e exterminou três delas. Esse poder era “diferente dos primeiros” (Dn 7:24), indicando sua singularidade em comparação com as outras tribos. O papado falava “palavras contra o Altíssimo” (Dn 7:25) e ­“engrandeceu-se até ao príncipe do exército” (Dn 8:11), usurpando a função de Jesus e ­substituindo-a pela figura do papa. Durante a Contrarreforma, o papado cumpriu a profecia de perseguir “os santos do Altíssimo” e lançar por terra “alguns do exército” (Dn 8:10), quando os protestantes foram massacrados. O papado buscou “mudar os tempos e a Lei” ao remover o segundo mandamento e mudar o sábado para o domingo.

Em Daniel 2, 7 e 8, depois da Grécia, surge um poder que subsiste até o fim dos tempos. Qual poder seria esse, senão Roma, agora em seu estágio papal? Não importa quanto seja politicamente incorreto, por que esse é um ensinamento fundamental das três mensagens angélicas e, portanto, um elemento crucial da verdade presente?
Quarta-feira, 10 de junho
Ano Bíblico: Jó 25-28
O juízo investigativo

O esboço profético estudado nesta semana tem encontrado apoio majoritário entre historicistas protestantes desde a Reforma. Porém, somente com o movimento milerita, no início dos anos 1800, os 2.300 dias e o juízo investigativo foram reconsiderados. Veja o seguinte gráfico:

Daniel 7

Daniel 8

Babilônia (leão)

------

Média-Pérsia (urso)

Média-Pérsia (carneiro)

Grécia (leopardo)

Grécia (bode)

Roma pagã (quarto animal)

Roma pagã (o chifre se move horizontalmente)

Roma papal (chifre pequeno)

Roma papal (o chifre se move verticalmente)

5. Leia Daniel 7:9-14; 8:14, 26. O que estava acontecendo no Céu? Assinale a alternativa correta:

A.(  ) Uma cena de juízo.
B.(  ) Uma festa do Cordeiro.

Em Daniel 7 e 8, o juízo acontece após o período de perseguição medieval, que terminou em 1798 com a prisão do papa Pio VI pelo general Berthier (Ap 13:3). O juízo ocorre no Céu, onde “assentou-se o tribunal” (Dn 7:10, 13). Essa cena ocorre depois de 1798, antes da segunda vinda de Jesus.

O juízo em Daniel 7 está em paralelo com a purificação do santuário (Dn 8:14). Os dois capítulos falam sobre a mesma coisa. O tempo dessa purificação, que é a terminologia do Dia da Expiação, é de 2.300 tardes e manhãs, ou dias. Com o princípio do dia/ano, esses dias representam 2.300 anos.

O ponto de partida dos 2.300 anos é a profecia das 70 semanas (490 anos), que é “cortada” (chatak) da visão dos 2.300 dias (Dn 9:24). Muitos estudiosos veem a profecia dos 2.300 dias (anos) e a profecia das 70 semanas (490 anos) de Daniel 9:24-27 como uma mesma profecia, sendo esta última a parte inicial da primeira. O verso seguinte à profecia das 70 semanas, Daniel 9:25, apresenta o início do período de tempo: “desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém”. Esse evento ocorreu no “sétimo ano do rei Artaxerxes” (Ed 7:7), ou 457 a.C. Se contarmos 2.300 anos a partir dessa data, chegaremos a 1844, que não é muito depois de 1798 e precede a segunda vinda de Jesus. Foi quando Cristo entrou no santíssimo e começou a obra de intercessão e purificação do santuário. Veja o gráfico no estudo de sexta-feira.

Quinta-feira, 11 de junho
Ano Bíblico: Jó 29-31
Tipologia como profecia

Os símbolos das profecias apocalípticas, como os encontrados em Daniel e Apocalipse, têm um único cumprimento. Por exemplo, o bode se cumpriu na Grécia, um reino singular (Dn 8:21). Afinal de contas, o texto o nomeou para nós! Isso poderia ser mais claro?

Contudo, a tipologia se concentra em pessoas, eventos ou instituições reais do Antigo Testamento, fundamentados em uma realidade histórica, mas que apontam para uma realidade maior no futuro. O uso da tipologia como método de interpretação remonta a Jesus e aos escritores do Novo Testamento e se encontra até mesmo no Antigo Testamento. O único guia para reconhecer um tipo e antítipo é quando um escritor inspirado das Escrituras os identifica.

6. Leia 1 Coríntios 10:1-13. A quais eventos na História Paulo se referiu quando admoestou a igreja de Corinto? Como isso se relaciona conosco hoje?

________________________________________

Paulo se referiu à realidade histórica do Êxodo e desenvolveu uma tipologia com base na experiência dos antigos hebreus no deserto. Ele mostrou que Deus, que inspirou Moisés a registrar esses eventos, tinha a intenção de que essas coisas fossem “exemplos para nós” (1Co 10:6), exortando, assim, o Israel espiritual a suportar a tentação enquanto vive nos últimos dias.

7. Leia as passagens abaixo e anote cada tipo e o seu cumprimento antitípico, conforme descritos por Jesus e pelos escritores do Novo Testamento:

Mt 12:40 _______________________________

Jo 19:36 ________________________________

Jo 3:14, 15 ______________________________

Rm 5:14 ________________________________

Jo 1:29 ________________________________

Em cada um desses casos, Jesus e os escritores do Novo Testamento aplicaram a interpretação de tipo e antítipo que permite que o significado profético se destaque. Dessa maneira, eles apontam para um cumprimento maior da realidade histórica.

Pense no serviço do santuário terrestre, que funcionava como tipo do plano da salvação. O que isso ensina sobre a importância da mensagem do santuário para nós hoje?
Peça que o Senhor lhe dê um coração puro.
Sexta-feira, 12 de junho
Ano Bíblico: Jó 32-34
Estudo adicional

Leia, de Clifford Goldstein, 1844: Uma explicação simples das principais profecias de Daniel (Casa Publicadora Brasileira) e encontre mais informações sobre a profecia dos 2.300 dias. Veja também http://1844madesimple.org. Estude o quadro abaixo:

Daniel 7

Daniel 8

Babilônia (leão)

------

Média-Pérsia (urso)

Média-Pérsia (carneiro)

Grécia (leopardo)

Grécia (bode)

Roma pagã (quarto animal)

Roma pagã (o chifre se move horizontalmente)

Roma papal (chifre pequeno)

Roma papal (o chifre se move verticalmente)

Juízo no Céu

Purificação do santuário celestial

É crucial que a cena do juízo (Dn 7), que ocorre após 1.260 anos de perseguição (Dn 7:25), representa o mesmo que a purificação do santuário
(Dn 8:14). E essa cena de juízo no Céu leva, em última análise, ao estabelecimento do reino de Deus. Por isso, temos uma evidência bíblica da importância que a Bíblia dá a Daniel 8:14 e ao evento que esse texto anuncia.

Perguntas para consideração

1. O método historicista é revelado em Daniel 2: uma sequência ininterrupta de impérios começa na Antiguidade e termina com o reino de Deus. O Senhor nos deu a chave para interpretar as profecias. Poucos usam o método historicista. O que isso mostra sobre a condição do cristianismo? Por que esse fato confirma a relevância da mensagem adventista?

2. Você entende as 2.300 tardes e manhãs? Se não, deseja estudá-la para compartilhar? Surpreenda-se com a solidez da nossa interpretação profética.

3. Leia Daniel 7:18, 21, 22, 25, 27. O que o poder do chifre pequeno faz com os santos? O que o Senhor faz por eles? Quais são as boas-novas para os santos em relação ao juízo?

 

Respostas e atividades da semana: 1. A sequência ininterrupta de poderes mundiais após a cabeça de ouro, Babilônia, simbolizada na inteireza do corpo da estátua em que não há intervalos. A interpretação das profecias apocalípticas deve ter uma sequência histórica contínua. 2. A. 3. Cada dia em que os homens haviam espiado a terra seria considerado um ano. 4. Ele representa um poder; blasfema contra o Altíssimo; persegue os santos de Deus; seu poder dura até o tempo do fim; ele é destruído de maneira sobrenatural. Esse poder é Roma papal. 5. A. 6. Ao Êxodo, quando os israelitas estavam no deserto rumo a Canaã. Lições que aprendemos: confiança em Deus, o fato de que não devemos cobiçar as coisas desta Terra, etc. 7. Mateus 12:40: Jonas permaneceu três dias e três noites no grande peixe; Jesus esteve morto por três dias; João 19:36: os ossos de Jesus não seriam quebrados; João 3:14, 15: Jesus seria levantado assim como Moisés havia levantado a serpente no deserto; Romanos 5:14: Adão prefigurava Aquele que havia de vir; João 1:29: João Batista identificou Jesus como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Resumo da Lição 11
A Bíblia e as profecias

RESUMO DA LIÇÃO 11

A Bíblia e as profecias

Textos-chave: Dn 2:27-45; Jo 14:29; Nm 14:34; Dn 7:1-25; 8:14; 1Co 10:1-13

ESBOÇO

A renovação da Reforma Protestante foi resultado direto do estudo das emocionantes profecias de Daniel e Apocalipse e da redescoberta do método historicista de interpretação, derivado do princípio Sola Scriptura. De fato, a maneira como Daniel e João interpretaram as profecias se tornou a chave para o estudo bíblico protestante. O método historicista vê o cumprimento da profecia como algo progressivo e contínuo ao longo do tempo. Essa visão levou homens como Wycliffe, Lutero, Zuínglio, Knox e outros a identificarem o chifre pequeno em Daniel 7 e 8 e a besta que emerge do mar, conforme retratada em Apocalipse 13, como a Igreja Católica Romana, o poder papal. A onda de reformas teve uma enorme influência na Europa, à medida que o povo saía da Idade das Trevas. Em seguida aconteceram a Inquisição e a perseguição maciça. Muitos dos reformadores fugiram para as pacíficas costas do Novo Mundo, onde puderam adorar a Deus em espírito e em verdade (ver Ap 12:13-17).

A Bíblia continua sendo singular quando comparada com outras literaturas religiosas do mundo, pois 30% de seu conteúdo são de natureza profética. A profecia bíblica apresenta um mecanismo interno e externo para confirmar a precisão da Palavra de Deus. A profecia que aponta para a esperança do Messias vindouro, a segunda vinda de Cristo, mantém a igreja em ansiosa expectativa. Ela provoca um senso e uma urgência de missão, pois se Jesus voltará em breve, isso chama os crentes a prepararem o mundo para o Seu grande advento. Nesta semana, estudaremos os pilares da interpretação profética historicista que oferece a identidade e a missão da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

COMENTÁRIO

Ilustração

Longe dos inquisidores da Europa, os protestantes americanos estabeleceram as primeiras grandes universidades: Harvard, Yale e Princeton para educar seus ministros. Por mais de um século e meio, os presidentes e professores dessas instituições produziram grandes obras descrevendo as profecias de Daniel e Apocalipse a partir de uma perspectiva historicista. Mas Roma não estava ociosa. Os estudiosos católicos da Contrarreforma reagiram aos protestantes com novas interpretações que tiravam os olhares do papado.

O preterismo foi desenvolvido pelo jesuíta espanhol Luis de Alcazar (1554-1613), que interpretou as profecias bíblicas como relatos que simplesmente comunicavam eventos que aconteceram no passado. Os preteristas negaram amplamente a possibilidade de profecia preditiva. Alcazar projetou o poder do anticristo no passado, identificando-o com o imperador romano Nero.

Outro jesuíta espanhol, Francisco Ribera (1537-1591), publicou um comentário de 500 páginas sobre o livro do Apocalipse ensinando que a maioria das profecias deveria se cumprir no final dos tempos em um breve período de três anos e meio. O Futurismo foi na direção oposta à de Alcazar, colocando a ênfase da profecia no futuro e deixando a igreja papal da Idade Média completamente fora do período profético.

No início, nenhuma dessas visões teve muita influência, porém, dois acontecimentos mudaram esse fato favorável. A abordagem histórico-crítica das Escrituras, no século 18, alegava remover a possibilidade de profecia preditiva, adotando alguns princípios da posição preterista. Essa visão é a que prevalece no presente, amplamente adotada por estudiosos da alta crítica, tanto católicos quanto protestantes. Enquanto isso, cristãos mais conservadores foram fortemente influenciados pela Bíblia de Referência de Scofield (1906), levando uma grande maioria a aceitar a visão futurista (dispensacionalista) que prevê o arrebatamento secreto, a reconstrução do templo em Jerusalém e um milênio antes da segunda vinda de Cristo. Apenas os Adventistas do Sétimo Dia permanecem como remanescente entre os protestantes para defender o método historicista. Como os profetas das Escrituras usaram esse método?

Escrituras

Daniel interpretou a imagem do sonho de Nabucodonosor no capítulo 2 e os símbolos dos capítulos 7 e 8 como uma série de impérios que aparecem um após o outro em uma sequência contínua. Ele disse especificamente a Nabucodonosor que ele, representante de Babilônia, era a cabeça de ouro (Dn 2:38). Os três reinos seguintes surgem em sequência, como partes do corpo conectadas umas às outras, compostas de diferentes metais que os distinguem, mas que são conectados pela imagem em ordem decrescente. O segundo e o terceiro reinos depois de Babilônia são especificamente identificados pelo anjo Gabriel como “os reis da Média e da Pérsia” (Dn 8:20) e o “rei da Grécia” (Dn 8:21). Claramente, as pernas de ferro, que vêm a seguir, devem ser identificadas com Roma, como demonstrou o curso da História. A continuação do ferro nos dedos dos pés, embora misturado com barro, indica a continuidade do poder romano. Cada visão sucessiva expande com mais detalhes o que há de ser “nos últimos dias” (Dn 2:28). Daniel 7 e 8 enfatizam o poder do chifre pequeno. A recapitulação, expansão e ampliação dos detalhes continua em Daniel 11, onde o papado se torna o ponto predominante. Esse foco no papado é apropriado quando se observa que a maior força a ser reconhecida na profecia dos 1.260 dias/anos deve ser, e só pode ser, o papado até a ferida mortal em 1798 e além. Essa interpretação nos conecta com os poderes dos quais João falou profeticamente em Apocalipse 12, 13 e 17.

Em Apocalipse 13, o poder da besta que emerge do mar reflete as ações do chifre pequeno de Daniel 7 e 8. Ele reina pelo mesmo período de quarenta e dois meses (Ap 13:5) ou 1.260 anos, blasfema o nome de Deus e Seu tabernáculo (Ap 13:6), mata pela espada e faz guerra com os santos (Ap 13:10), é adorado (Ap 13:8). Essas descrições se cumprem no papado. Mas Deus protegeu a mulher, Sua igreja, do poder da besta que emerge do mar, instigada pela serpente, e a terra “engoliu o rio” (Ap 12:16).

O preterismo altera a data do profeta Daniel para o segundo século a.C., depois que Babilônia, Media-Pérsia e Grécia entram em cena. Além disso, o preterismo reinterpreta o poder do chifre pequeno como um rei selêucida, Antíoco IV Epifânio, que governou a Síria entre 175 a 164 a.C. (O futurismo também tende a interpretar o chifre pequeno como Antíoco IV, mas sugere que um anticristo aparecerá no fim dos tempos.) Porém, essa identificação não se encaixa com a realidade por várias razões: (1) A origem do chifre pequeno. Este surgiu “de um dos chifres” (Dn 8:9). Os preteristas argumentam que ele saiu de um dos quatro chifres (os generais Lisímaco, Cassandro, Ptolomeu, Seleuco e seus sucessores como chefes dos quatro reinos da Macedônia, nos quais o império de Alexandre foi dividido). Mas a evidência gramatical, contextual e sintática aponta para a conclusão de que o chifre saiu de um dos “quatro ventos” ou pontos cardeais, uma expressão que precede imediatamente à frase. (2) A progressão do poder nos reinos. O carneiro medo-persa “se engrandecia” (Dn 8:4), o bode grego “se engrandeceu sobremaneira” (Dn 8:8), o chifre pequeno “engrandeceu-se até ao príncipe do exército” (Dn 8:10, 11). Mas essa ampliação de poder não pode ser atribuída a um único governante fraco como Antíoco IV. (3) A disposição da ordem. Antíoco IV governou na metade da dinastia selêucida, o sétimo de uma série de vinte e sete reis. O poder do chifre pequeno surge “no fim do seu reinado” (Dn 8:23). Roma aparece na última parte do império grego, mas Antíoco IV não. (4) A direção da conquista. O poder do chifre pequeno devia conquistar em direção ao leste, sul e em direção à “terra gloriosa” (Dn 8:9); isto é, na direção do oeste. Mas Antíoco IV foi responsável por perder a Judeia, a “terra gloriosa”, e teve apenas êxito limitado no sul (Egito). (5) A transgressão assoladora. Os estudiosos acreditam que Antíoco IV causou a desolação do santuário, mas Jesus, citando Daniel, refere-se a essa desolação como ainda no futuro em Seus dias (Mt 24:15), e Antíoco IV já havia morrido há dois séculos. (6) As tardes e manhãs. As 2.300 tardes e manhãs são interpretadas como os sacrifícios que cessaram durante a profanação do templo por Antíoco IV. Assim, para acomodar a interpretação de Antíoco, o número é reduzido para 1.150 dias literais. Mas a expressão ‘ereb b?qer [tarde e manhã] é muito semelhante à designação usada em Gênesis 1 para se referir ao dia de 24 horas. Os sacrifícios da manhã e da tarde associados ao santuário terrestre são mencionados em uma ordem diferente; assim, a transgressão mencionada em Daniel 8:13 não se refere à interrupção dos serviços do santuário terrestre durante o tempo de Antíoco. (7) A conclusão da previsão profética. A estreita relação entre Daniel 2 e 7 indica que há uma conclusão gloriosa da profecia. Mas se Judas Macabeu, o judeu, derrotou Antíoco IV, como Judas vem nas nuvens do céu, como o Filho do Homem (Dn 7:13), e como é eterno o seu reino (Dn 7:14)? (Norman R. Gulley, Systematic Theology: The Church and the Last Things [Teologia Sistemática: A Igreja e os Últimos Acontecimentos]. Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2016, p. 713-17). Nem a interpretação preterista nem a futurista correspondem aos critérios do texto ou do testemunho de Jesus. Assim, por essas e outras razões, a interpretação de Antíoco para Daniel 8 é insustentável. Apenas a interpretação historicista da profecia identifica com precisão os últimos 2.600 anos da História em perspectiva profética e sequencial.

Aplicação para a vida

Por que esses detalhes são importantes para nós no século 21? Ao examinar alguns dos desafios colocados ao modelo historicista de interpretação profética, devemos admitir que, quando usamos as Escrituras para interpretar as Escrituras e permitimos que os profetas Daniel e João falem sobre esses assuntos, devemos concluir como os reformadores que o poder do chifre pequeno surgiu do quarto animal (Daniel 7) da direção ocidental dos quatro ventos (Daniel 8) e governou por 1.260 anos, período que terminou pouco antes de Cristo entrar no lugar santíssimo do santuário celestial. João se refere a esse mesmo poder como a besta que emerge do mar (Ap 13:1-10). Existe apenas uma entidade que se encaixa nos critérios das Escrituras e da história: Roma papal. Também devemos reconhecer que os outros dois métodos principais de interpretação, preterismo e futurismo, se originaram em Roma com o objetivo primordial de rejeitar a interpretação protestante durante a Contrarreforma. Esse fato levanta sérias questões sobre as principais igrejas protestantes atuais que adotaram esses modelos católicos. Certamente, essa situação aponta para o cumprimento de nossa missão e a proclamação das três mensagens angélicas, chamando o povo de Deus a sair da confusão de Babilônia enquanto ainda há tempo na História da Terra. Faça as seguintes perguntas à classe:

1. Como as igrejas protestantes têm mudado atualmente? De que maneira a posição historicista as havia protegido dos erros ensinados pela Igreja Católica e como essa proteção foi efetivamente removida?

2. De que forma você pode compartilhar a mensagem singular do “evangelho eterno” incorporada nas três mensagens angélicas “a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (Ap 14:6, 7)?

O CEGO ESPIRITUAL

Dois homens apresentaram sermões na Noruega. O primeiro pregador estava muito bem vestido e, de acordo com a avaliação feita por um agricultor que usava roupas de trabalho no fundo da sala, um pouco arrogante. Ao abrir um livro, o pregador leu uma declaração da co-fundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ellen White. Pegando outro livro, ele leu outra declaração de Ellen White. Todo o seu sermão consistiu em declarações de Ellen White. Porém, isso não incomodou Oystein [Is-tein] Hogganvik, o mencionado agricultor.

Então, o segundo homem se levantou para pregar. Ele também estava bem vestido, mas o terno era velho e tinha sido reformado várias vezes. Calçava sapatos bem engraxados; porém, estavam bem gastos. Ele não leu nenhum livro. Em vez disso, pregou com o coração. A sinceridade do pregador tocou o coração do agricultor, mas, curiosamente, ele discordou veementemente do assunto. Na verdade, sentiu-se completamente ofendido. 

O pregador percebeu isso e, após o sermão, aproximou-se de Oystein, cumprimentou-o e, educadamente, perguntou seu nome. Também  perguntou sobre o trabalho e família. E não fez nenhum comentário sobre o sermão. Após alguns minutos, o pregador pediu permissão para orar por Oystein que aceitou, mas, enquanto oravam, um conflito cruel surgiu em sua mente: “Como você permitiu que um homem orasse por você depois de discordar desse sermão?”, pensou. Imediatamente, Oystein percebeu que o Senhor lhe dizia: “Você precisa confiar em Mim.”

De volta ao campo, Oystein decidiu provar que o pregador estava errado. Para isso, passou horas lendo a Bíblia. Ele comprou gravações de sermões sobre o assunto que lhe ofendeu e encontrou uma variedade de pontos de vista de pregadores adventistas. Ele sentiu como se Jesus o estivesse abandonando. Um ano passou e ele se sentia completamente confuso. Certo dia, Oystein releu a história sobre como Jesus devolveu a visão ao cego Bartimeu em Marcos 10:46-52. Enquanto lia, percebeu que espiritualmente ele era como Bartimeu. Embora tivesse uma visão excelente, estava espiritualmente cego e precisava pedir a Jesus para lhe abrir os olhos.

Oystein abriu a boca e clamou: “Dê-me uma visão espiritual!” Imediatamente, sentiu-se impressionado ao ler em sua Bíblia a história dos dois discípulos que, sem saber, caminharam com Jesus no caminho para Emaús (Lucas 24). No caminho, Jesus lhes deu um estudo bíblico completo sobre Si mesmo, porém, os homens não O reconheceram. Seus olhos foram abertos somente quando, em casa, Jesus orou pelo alimento. Oystein também se lembrou de que os 12 discípulos haviam estado com Jesus por mais de três anos, mas permaneceram cegos espirituais sobre a missão e a cruz do Mestre.

Ele percebeu que ele, um adventista de quinta geração, estivera com Jesus a vida toda, mas era espiritualmente cego porque se apegara a seu próprio entendimento, em vez de pedir ao Espírito Santo que abrisse os olhos. Jesus não o estava deixando, mas ele mesmo estava em perigo de deixar Jesus por causa de seu apego à verdade que ele mesmo estabelecia.

No ano em que tentou refutar o pregador, ele não orou para que o Senhor abrisse os olhos. Apenas queria provar que o pregador estava errado. Então, pela primeira vez, Oystein fechou os olhos e orou para que seus olhos fossem abertos. "A partir desse dia, a Bíblia se tornou viva para mim", disse ele em entrevista. “Toda história nos evangelhos não era mais sobre pessoas que viviam na época de Jesus. Eram histórias com as quais posso relacionar comigo e que tinham algo para mim.” Os relatos da Bíblia e dos livros de Ellen White ganharam nova vida, enquanto ele trabalhava longas horas na fazenda. Seu coração mudou e o conhecimento intelectual tornou-se realidade prática e viva.

Um ano depois, Oystein começou a compartilhar sua história em igrejas na Noruega. Depois de algum tempo, os líderes da igreja na Associação Leste da Noruega pediram que ele trabalhasse como pastor. Agora com 61 anos, Øystein ainda possui uma fazenda, mas usa seu tempo e energia para semear o evangelho. Ele trabalhou como pastor em tempo integral nos últimos nove anos e hoje lidera duas congregações em Oslo e Jessheim. 

Øystein cresceu na primeira fila da igreja, ouvindo sua mãe tocar órgão e seu avô pregar. Ele foi batizado aos 17 anos. Ele sempre foi adventista e sempre quis ser adventista. Mas, como ele mesmo fala, era espiritualmente cego até pedir que Deus lhe abrisse os olhos. “Desde então, a Bíblia e os livros de Ellen White têm sido minha vida”, disse ele.

Muito obrigado pelas ofertas do trimestre de 2017 que ajudaram a transformar o porão da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Betel, em Oslo, em um centro comunitário de influência para jovens.

Dicas da História

• Assista ao vídeo sobre Øystein [Is-tein] no YouTube: bit.ly/Oystein-Hogganvik.
• Faça o download das fotos no Facebook (bit.ly/fb-mq) ou banco de dados ADAMS (bit.ly/preaching-to-blind).
• Faça o download dos projetos do trimestre: bit.ly/ted-13th-projects.

Comentário da Lição da Escola Sabatina – 2º Trimestre de 2020
Tema Geral: Como interpretar as Escrituras
Lição 11 – 6 a 13 de junho

A Bíblia e as profecias

Autor: Isaac Malheiros
Editor: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br
Revisora: Rosemara Santos

O historicismo não chegou ao fim

O historicismo adotado pelos adventistas foi o principal método usado por estudantes das profecias bíblicas até o século 19 (especialmente entre os protestantes). A partir do século 19, ele foi sendo substituído por interpretações alternativas, como o futurismo e o preterismo. Esses métodos de interpretação tiveram origem na Contrarreforma católica para combater a interpretação historicista feita pelos reformadores protestantes, que identificavam o anticristo com o papado.

Ironicamente, o futurismo e o preterismo ganharam a adesão de protestantes a partir do século 19. Hoje, muitos cristãos evangélicos que se consideram teologicamente conservadores têm inadvertidamente seguido essas teorias católicas que diminuem ou negam a inspiração divina. O fato de os adventistas serem um dos últimos grupos cristãos defensores do historicismo hoje torna a mensagem adventista peculiar e extremamente relevante.

O futurismo e o preterismo apresentam sérios problemas de cronologia e exegese. Para fazer caber eventos históricos nos períodos proféticos, fazem arredondamentos, aproximações e alguns “malabarismos” arbitrários. Por exemplo, alguns intérpretes acreditam que as 70 semanas de Daniel 9 vão de 538 a.C. (decreto de Ciro) até 164 a.C. (fim da “desolação” por Antíoco Epifânio), o que dá bem menos que 490 anos. Para tais intérpretes, as 70 semanas não representam um número exato, mas apenas um número aproximado.

Por isso, o historicismo continua sendo uma leitura possível e muito útil. Com dificuldades, claro (como todas as outras interpretações), mas com grande coerência e respeito ao texto bíblico e à história.

O “princípio do dia-ano” é coerente com os dados bíblicos

Precisamos admitir que ver tempo simbólico em profecias apocalípticas não é exclusividade dos adventistas. A diferença é que temos um critério (o “princípio do dia-ano”), e os intérpretes de outras escolas arbitrariamente veem tempo simbólico onde convém, sem um critério claro. Talvez seja possível interpretar algumas profecias de Daniel e Apocalipse sem usar explicitamente o “princípio do dia-ano” e chegar basicamente às mesmas conclusões. Alguns intérpretes apelam apenas para o bom senso de ver tempo simbólico nessas profecias. No entanto, tal opção precisa de um critério com base nas Escrituras.

O “princípio do dia-ano” está firmado em uma estrutura argumentativa muito plausível:

Simbolismo em miniatura – o princípio do dia-ano é aplicável quando uma entidade é representada em miniatura. Ou seja, uma nação, ou uma entidade maior, pode ser representada simbolicamente por um animal ou uma pessoa. Nesse caso, o tempo envolvido na profecia também deve estar em miniatura.

Profecias simbólicas – quando as profecias são amplamente simbólicas, os períodos de tempo devem ser vistos igualmente como simbólicos.

Períodos de tempo envolvendo vários séculos – algumas profecias claramente descrevem a ascensão e queda de impérios na história, o que indica que os períodos de tempo devem abranger séculos.

Linguagem peculiar para descrever o tempo – as profecias simbólicas nas quais o “princípio do dia-ano” está presente usam uma linguagem não convencional para indicar o tempo: as expressões “um tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25; Ap 12:14), “quarenta e dois meses” (Ap 11:2; 13:5), e “mil duzentos e sessenta dias” (Ap 11:3; 12:6) poderiam ser escritas como “três anos e seis meses” (como em Lc 4:25 e Tg 5:17) caso fossem literais (comparar com a linguagem literal de “um ano e seis meses” [At 18:11] e “sete anos e seis meses” [2Sm 2:11]). Ou seja, a linguagem para tempo literal é bem diferente da linguagem para tempo simbólico.

A linguagem de tempo simbólico exclui a linguagem padrão usada na Bíblia para descrever períodos de tempo literal. É um padrão bíblico claro, lógico e muito coerente, que só terá sentido se houver um “princípio do dia-ano”. Daniel e Apocalipse usam as expressões “dias”, “semanas” e “meses” em suas profecias, mas jamais usam “ano”. Isso sugere que essas expressões sejam símbolos de “anos”.

Uma objeção comum ao “princípio do dia-ano” é que Números 14 e Ezequiel 4 – textos em que Deus declara que um dia equivale a um ano – não são textos apocalípticos. No entanto, há simbolismo em miniatura nesses textos (coisas “pequenas” simbolizam coisas “grandes”: uma pessoa, ou um grupo de pessoas simbolizam uma nação, e os dias simbolizam anos), e o “princípio do dia-ano” é usado como uma ferramenta didática. Ao contrário dos textos apocalípticos (nos quais o “princípio do dia-ano” é subentendido), nesses dois casos o princípio é abertamente declarado.

O “dia-ano” nas 70 semanas de Daniel 9:24

Os historicistas sempre entenderam que as 70 semanas de Daniel 9:24 representassem 490 anos. Lutero acreditava que eram 490 anos. Praticamente todos os intérpretes ainda hoje consideram que as 70 semanas equivalem a 490 anos. Esse consenso pode ser aproveitado ao expormos as profecias de Daniel.

Porém, há um detalhe: todos concordam, mas não pelos mesmos motivos. Alguns entendem que a palavra hebraica shavu‘a (“semana”) possa ser traduzida como “semana de anos” (sem o “princípio do dia-ano”). Outros entendem que shavu‘a deva ser traduzida apenas como “semana”, e só usando o “princípio do dia-ano” seria possível interpretar como “semana de anos”. Afinal, precisamos aplicar o “dia-ano” em Dn 9:24 ou não? A esse respeito, há divergência até entre os historicistas.

Uma pergunta a ser feita é: tirando Daniel 9:24, onde podemos encontrar “semana” (shavu‘a) sendo usada como “semanas de anos” no Antigo Testamento? Parece que em lugar nenhum. No Antigo Testamento, “semana” (shavu‘a) é sempre semana mesmo. À luz do uso de shavu‘a na Bíblia, não parece correto dizer que o termo signifique “setes” (apesar de ser possível encontrar esse sentido em literatura extra-bíblica), ou que possa se aplicar a várias coisas, pois sempre se aplica a uma semana ou a semanas.

No próprio livro de Daniel, o plural shavu’im é usado para descrever três semanas: “Naqueles dias, eu, Daniel, fiquei de luto por três semanas [shavu‘im yamim]. Não comi nada [...], até que passaram as três semanas [shavu‘im yamim]” (Dn 10:2, 3). A expressão “de dias” (yamim) significa tempo completo, inteiro, por exemplo: “meses de dias” = meses inteiros (Gn 29:14; Nm 11:19-20), “anos de dias” = anos inteiros (Gn 41:1). Assim, shavu‘im yamim em Daniel 10:2, 3 significa “semanas inteiras”, e não é uma chave linguística para diferenciar essas semanas das semanas de Daniel 9:24.

Em suma: tanto Daniel 9:24 quanto 10:2, 3 falam de semanas mesmo, não de “semanas de anos”. Chegamos às “semanas de anos” em 9:24 usando o “princípio do dia-ano” – é uma questão de interpretação, não de tradução. Traduzir Daniel 9:24 como “semanas de anos” seria inconsistente com o hebraico bíblico, pois shavu‘a na Bíblia é sempre “semana”, e jamais “semana de anos”. Mais uma vez, o argumento historicista em favor do “princípio do dia-ano” tem por base a evidência bíblica.

Sobre a aplicabilidade do “princípio do dia-ano” em Daniel 9:24, ver Alberto Timm: <http://circle.adventist.org/files/unaspress/parousia2004023310.pdf >; Gerhard Pfandl: < http://estudosadventistas.com.br/em-defesa-do-principio-dia-ano/ >; William Shea (Estudos selecionados em interpretação profética, p. 73-116).

Conheça o autor dos comentários para este trimestre: Isaac Malheiros é pastor, casado com a professora Vanessa Meira, e pai da pequena Nina Meira, de 8 anos. Tem atuado por 16 anos como pastor na área educacional, como capelão e professor, e ama ensinar a ler e interpretar a Bíblia. Atualmente, é pastor dos universitários e professor do Instituto Adventista Paranaense (IAP). É doutor em teologia (Novo Testamento), mestre em teologia (Estudos de texto e contexto bíblicos) e especialista em Ensino Religioso e Teologia Comparada.