Lição 3
09 a 15 de outubro
Aliança eterna
Sábado à tarde
Ano Bíblico: Mt 14-16
Verso para memorizar: “Estabelecerei uma aliança entre Mim e você e a sua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o seu Deus e o Deus da sua descendência” (Gn 17:7).
Leituras da semana: Gn 12:1-3; Rm 4:1-5; Êx 2:24; Dt 5:1-21; 26:16-19; 8:5; Mt 28:10

Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que habitam na Terra, e a cada nação, tribo, língua e povo” (Ap 14:6). Observe, o evangelho é eterno, no sentido de que sempre existiu, sempre esteve lá e foi prometido a nós em Cristo Jesus “antes dos tempos eternos” (Tt 1:2).

Portanto, não é de admirar que em outras passagens a Bíblia fale da “aliança eterna” (Gn 17:7; Is 24:5; Ez 16:60; Hb 13:20), porque a essência do evangelho é a aliança, e a essência da aliança é o evangelho: Deus, por meio de Sua graça e amor salvíficos, oferece a salvação que você não merece, nem pode obter; e você, em resposta, O ama “de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força” (Mc 12:30), amor manifestado pela obediência à lei: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos” (1Jo 5:3).

Nesta semana, examinaremos a ideia da aliança segundo Deuteronômio, livro em que são reveladas a aliança e todas as suas implicações.

Domingo, 10 de outubro
Ano Bíblico: Mt 17-20
A aliança e o evangelho

Na Bíblia, a aliança e o evangelho aparecem juntos. Embora a ideia de aliança existisse antes da nação de Israel (por exemplo, a aliança com Noé) e a promessa da aliança tenha sido feita antes do surgimento dessa nação, o pacto foi expresso de forma notável por meio da interação de Deus com Seu povo, começando com os patriarcas.

Desde o início, a verdade central da aliança foi o evangelho: a salvação somente pela graça mediante a fé.

1. Leia Gênesis 12:1-3; 15:5-18; Romanos 4:1-5. Qual foi a promessa da aliança feita a Abrão (depois chamado Abraão)? Como o evangelho é revelado nela?

Abraão creu em Deus, nas Suas promessas e, por isso, foi justificado diante do Senhor. Porém, isso não foi uma graça barata: Abraão procurou manter sua parte na aliança pela obediência, como visto em Gênesis 22, no Monte Moriá, embora “a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rm 4:5). Por essa razão, séculos depois, Paulo usou Abraão como exemplo do que é viver pelas promessas da aliança de Deus ao povo.

Esse tema ecoa por toda a Bíblia. Paulo citou em Gálatas 3:6 a passagem sobre a fé que Abraão teve e que lhe foi atribuída “para justiça” (Gn 15:6) e que remete à primeira promessa feita ao patriarca sobre todas as nações serem abençoadas nele (Gl 3:8, 9). As promessas da aliança são feitas a todos, judeus e gentios, “os que têm fé” (Gl 3:7) e, assim, são justificados pela fé sem as obras da lei – por mais que sejam obrigados, por causa da aliança, a obedecer à lei.

Mesmo quando Jeremias falou sobre a nova aliança, ele o fez no contexto da lei: “Porque esta é a aliança que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as Minhas leis, também no seu coração as inscreverei; Eu serei o Deus deles, e eles serão o Meu povo” (Jr 31:33), refletindo uma linguagem que remonta ao livro de Levítico: “Andarei entre vocês e serei o seu Deus, e vocês serão o Meu povo” (Lv 26:12).

Como a ideia de lei e evangelho juntos se ajusta perfeitamente às três mensagens angélicas de Apocalipse 14, a mensagem de advertência final de Deus ao mundo?
Segunda-feira, 11 de outubro
Ano Bíblico: Mt 21-23
A aliança e Israel

2. “Não é por causa da justiça de vocês, nem por causa da retidão do seu coração que vocês entrarão para possuir a terra dessas nações, mas o Senhor, o seu Deus, as expulsará de diante de vocês por causa da maldade delas e também para confirmar a palavra que o Senhor, o Seu Deus, jurou aos seus pais, Abraão, Isaque e Jacó” (Dt 9:5; ver também Dt 9:27). Como a realidade das promessas da aliança se manifesta nesse verso?

Nesse texto também aparece a aliança da graça: Deus trabalhou por eles – apesar dos erros constantes (e é assim que o evangelho opera no presente também). E foi por causa da promessa feita aos pais que a graça divina foi dada às gerações futuras.

No tratamento de Moisés com o povo, a quem as promessas da aliança foram dadas como um todo, ele com frequência se referia às promessas feitas aos patriarcas.

3. Leia Êxodo 2:24; 6:8; Levítico 26:42. Como atuam as promessas da aliança?

O êxodo do Egito, grande símbolo da divina graça salvífica, também teve sua base na aliança que o Senhor havia feito com os patriarcas. Ou seja, mesmo antes que os beneficiários da aliança tivessem nascido, as promessas foram feitas em favor deles. Sem nenhum mérito próprio (para dizer o mínimo), receberam a libertação prometida.

E ainda mais: eles foram do Egito para onde? Sim, para o Sinai, onde a aliança com eles foi “oficialmente” estabelecida (Êx 20). O ponto central dessa aliança era o evangelho e a lei, os Dez Mandamentos, aos quais foram chamados a obedecer, uma manifestação de seu relacionamento com o Senhor, que já os redimira (isso é o evangelho). Portanto, repetidas vezes em Deuteronômio, eles foram chamados a obedecer a essa lei como sua parte na aliança, confirmada no Sinai.

Que papel a lei desempenha na vida dos que foram salvos pela graça, e por que essa lei é tão crucial para nossa experiência com Deus?
Terça-feira, 12 de outubro
Ano Bíblico:
O livro da aliança

Embora a ideia de aliança (berit, em hebraico) para descrever o relacionamento de Deus com Seu povo esteja presente em toda a Bíblia, a palavra aparece com tanta frequência em Deuteronômio que esse livro foi chamado de “O Livro da Aliança”.

4. Veja Deuteronômio 5:1-21. O que acontece nessa passagem que ajuda a mostrar o quanto a ideia de aliança (berit ) é central nesse livro?

Não muito depois que os filhos de Israel foram resgatados do Egito, Deus estabeleceu a aliança com eles, no Sinai, quando estavam prestes a entrar na terra prometida. Então, após um desvio de 40 anos, novamente antes de tomarem posse da terra, parte central da promessa da aliança (ver Gn 12:7; Êx 12:25), o Senhor outra vez lhes deu, por meio do porta-voz Moisés, os Dez Mandamentos, considerando-os como uma maneira de enfatizar quão importante era que os israelitas renovassem seu compromisso.

O Senhor cumpriria Suas promessas da aliança; porém, eles deviam cumprir sua parte no acordo: “Então Ele anunciou a Sua aliança, que ordenou a vocês, os Dez Mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra” (Dt 4:13). Ele fez isso no Sinai, e fez em Moabe, antes de tomarem a terra prometida a eles e aos patriarcas séculos antes, uma manifestação da “aliança eterna” que precedeu a existência do mundo.

“Antes que os fundamentos da Terra fossem lançados, o Pai e o Filho Se uniram em aliança para redimir o ser humano, caso ele fosse vencido por Satanás. Deram as mãos, em um solene compromisso de que Cristo Se tornaria o Fiador da humanidade” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 834).

5. Leia Deuteronômio 5:3. Como podemos interpretar essa passagem?

O que Moisés estava dizendo? É provável que estivesse enfatizando o fato de que seus pais haviam morrido, e as maravilhosas promessas da aliança feitas aos pais estavam sendo passadas agora para eles. Pode ser que essa tenha sido a maneira de Moisés fazê-los saber que não deveriam falhar, como a geração anterior. As promessas (e obrigações) eram deles, que estavam vivos. 

Quarta-feira, 13 de outubro
Ano Bíblico: Mt 27, 28
Seu povo especial

Para nós, é difícil entender como era o mundo na época em que Israel vagava pelo deserto. Se impérios surgiram e desapareceram, restando apenas ruínas (ou nem isso), o que podemos saber das muitas nações pagãs menores que viviam na região de Israel?

Não muito, mas sabemos de uma coisa: essas pessoas estavam mergulhadas no paganismo, politeísmo e algumas práticas totalmente degradantes, que incluíam o sacrifício de crianças. Tente imaginar quão degradante e maligna seriam uma cultura e uma religião que faziam isso com seus próprios filhos, e em nome de algum deus!

Não é de admirar que, repetidamente, em toda a história do antigo Israel, o Senhor advertiu Seu povo contra as práticas das nações ao redor. “Quando vocês entrarem na terra que o Senhor, seu Deus, lhes der, não aprendam os costumes abomináveis daqueles povos” (Dt 18:9).

Foi por isso que o Senhor chamou essa nação para um propósito especial. Por ter entrado em aliança com Ele, deveria ser um povo diferente, uma testemunha ao mundo Daquele que criou o céu e a Terra – o único Deus.

6. Leia Deuteronômio 26:16-19. Como a relação de aliança entre Deus e Israel foi resumida nesses versos? Como sua fidelidade à aliança deveria ser manifestada no tipo de povo que precisariam ser? Que lições podemos tirar disso?

É extraordinário que Moisés tenha iniciado esses versos com a palavra “hoje”, indicando que naquele instante Deus lhes ordenava que fizessem daquela forma (ele repete a ideia no v. 17). É como se dissesse que deviam se comprometer naquele momento, novamente, a ser fiéis, santos e especiais, razão central de sua existência como a nação da aliança. Eles eram a única nação que conhecia o Deus verdadeiro, a verdade sobre esse Deus e a maneira de viver segundo Sua vontade. Não apenas tinham a “verdade presente”, mas deveriam incorporar essa verdade até que Jesus, a Verdade em Pessoa (Jo 14:6), viesse e confirmasse a aliança.

Por que a ideia de se comprometer “hoje” com Deus e com os requisitos de Sua aliança é relevante até mesmo para nós?
Quinta-feira, 14 de outubro
Ano Bíblico: Mc 1-3
Outras imagens

Pesquisas bíblicas há muito tempo reconheceram as semelhanças entre a aliança de Israel com Deus e outras alianças entre reinos. Esse paralelo não deve surpreender. O Senhor trabalhava com Seu povo em um contexto que ele pudesse entender.

Ao mesmo tempo, a ideia de uma aliança, um acordo legal entre duas partes, com regras, estipulações e regulamentos, pode parecer muito fria e formal. Embora esse elemento deva realmente existir (Deus é o Legislador), não é amplo o suficiente para abranger a profundidade e a amplitude do tipo de relacionamento que Deus desejava ter com Seu povo. Consequentemente, outras imagens são usadas em Deuteronômio para ajudar a retratar a mesma ideia da aliança entre Deus e Israel, apenas para dar-lhe dimensões adicionais.

7. Leia Deuteronômio 8:5; 14:1; 32:6, 18-20. Que tipo de imagem é usada, e como isso pode ajudar a revelar o relacionamento que Deus deseja ter com Seu povo?

8. Leia Deuteronômio 4:20 e 32:9. Que outra imagem é usada e como também ajuda a revelar o tipo de relacionamento que Deus deseja ter com Seu povo?

Em cada caso, existe a ideia de família, que deveria ser o vínculo mais próximo, estreito e amoroso. Deus sempre quis ter esse tipo de relacionamento com Seu povo. Embora esse povo tenha rejeitado Jesus, depois de ressuscitar Ele disse às mulheres: “Não tenham medo! Vão dizer aos Meus irmãos que se dirijam à Galileia e lá eles Me verão” (Mt 28:10). Mesmo como o Cristo ressurreto, Ele Se referiu aos discípulos como Seus irmãos, dando assim exemplo de amor e graça que fluem para aqueles que não merecem. É essencialmente assim que o relacionamento entre Deus e a humanidade sempre foi: graça e amor aos indignos.

Como aprofundar nosso vínculo com Deus, de modo a amar o Senhor e compreender o dever de obedecer à lei? Essas duas ideias são contraditórias ou se complementam?
Sexta-feira, 15 de outubro
Ano Bíblico: Mc 4-6
Estudo adicional

O espírito de escravidão é gerado por se procurar viver de acordo com a religião legal, pelo esforço de cumprir as reivindicações da lei em nossa própria força. Há esperança para nós apenas ao nos colocarmos sob a aliança abraâmica, que é a aliança da graça pela fé em Cristo. O evangelho pregado a Abraão, por meio do qual ele teve esperança, foi o mesmo que é pregado a nós hoje, por meio do qual temos esperança. Abraão olhou para Jesus, que é o Autor e Consumador da nossa fé” (Comentários de Ellen G. White, Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 6, p. 1199).

“Antes que os fundamentos da Terra fossem lançados, o Pai e o Filho Se uniram em aliança para redimir o ser humano, caso ele fosse vencido por Satanás. Deram as mãos, em um solene compromisso de que Cristo Se tornaria o Fiador da humanidade. Esse compromisso foi cumprido por Jesus. Quando sobre a cruz Ele soltou o brado: ‘Está consumado!’ (Jo 19:30), estava Se dirigindo ao Pai. O pacto foi plenamente satisfeito. E agora Ele declarou: ‘Pai, está consumado! Fiz, ó Meu Deus, a Tua vontade. Concluí a obra da redenção. Se a Tua justiça está satisfeita, ‘a Minha vontade é que onde Eu estou, estejam também comigo os que Me deste’” (Jo 17:24; Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 834).

Perguntas para consideração

1. Antes da fundação do mundo, “o Pai e o Filho Se uniram em aliança” para nos redimir, caso o ser humano caísse. Isso nos encoraja? Quanto Deus deseja nossa salvação?

2. Como podemos cumprir o papel que os antigos israelitas deveriam ter cumprido em seu tempo? Como evitar os erros que eles cometeram?

3. Por que as promessas do evangelho são centrais para a nova aliança? Quais textos bíblicos mostram que a lei não foi abolida no contexto da nova aliança?

Respostas e atividades da semana: 1. Os que creem no evangelho podem ter a salvação mediante a fé. 2. Deus não deixaria de cumprir a promessa feita aos patriarcas, embora o povo de Israel tivesse falhado. 3. As promessas da aliança se cumprem pela graça. 4. Deus relembra a lei, a parte do povo na aliança. 5. As promessas da aliança são para nós no presente, e devemos cumprir nossa parte. 6. O povo seria exaltado perante as nações se amasse a Deus e Lhe obedecesse. A nação seria exaltada. 7. A imagem do Pai. Deus deseja ter com Seu povo um relacionamento de Pai para filho. 8. A imagem da herança. Deus queria um relacionamento familiar. 

Resumo da Lição 3
Aliança eterna

TEXTO-CHAVE: Gn 17:7

FOCO DO ESTUDO: Gn 12:1-3; 15:6, 18; Êx 2:24; Dt 4–5; Rm 4:1-5

ESBOÇO

Conforme dito anteriormente, a estrutura do livro de Deuteronômio segue o modelo dos antigos tratados de aliança. Essa é uma indicação clara de que a principal intenção teológica da última lição de Moisés é sobre a aliança de Deus com Seu povo. Embora a noção de aliança seja antiga – a palavra berit, “aliança”, é usada pela primeira vez na narrativa de Noé para se referir à aliança universal de Deus com a humanidade (Gn 6:18; compare com 9:13) – somente com Abraão a palavra foi usada pela primeira vez para se referir à aliança particular de Deus com Seu povo (Gn 15:18). No livro de Deuteronômio, a palavra “aliança” aparece 27 vezes e é usada pela primeira vez no capítulo 4:13. Visto que Deus é eterno, a principal característica de Sua aliança é que ela é uma “aliança perpétua” (Gn 17:7). O estudo da “aliança” nesta semana nos ajudará a entender o relacionamento de Deus com Seu povo.

Temas da lição

• O Deus da vida. O Senhor estabeleceu Sua aliança com Israel, não por causa dos israelitas e de quem eles eram, mas por Si mesmo e de quem Ele é: o Deus da vida.

• O povo escolhido. Por causa da fidelidade de Deus aos patriarcas, Ele escolheu Israel para ser o povo da aliança.

• Um povo santo. Chamados pelo Deus da vida para ser o povo da aliança, os israelitas também deviam ser um povo santo.

COMENTÁRIO

Depois de relembrar ao povo os eventos vividos no deserto, Moisés passou a demonstrar que os israelitas seriam beneficiados em se apegar a Deus e permanecer fiel às cláusulas de sua aliança com Ele “hoje”. Para isso, Moisés usou dois argumentos. Primeiro: o povo devia permanecer fiel por causa de quem Deus é “hoje”, o Deus da vida. Em segundo lugar, o povo devia se manter leal a Deus por causa de quem é “hoje”, Seu povo escolhido e, portanto, Seu povo santo.

O Deus da vida

A aliança começa com Deus, Aquele que iniciou a aliança com Seu povo, não por causa de quem o povo era, não por causa de seu valor, mas por causa de quem Deus é. É por isso que a aliança é estabelecida principalmente com base nos atos divinos de salvação em favor do Seu povo: “Você viu tudo o que o Senhor, o Deus de vocês, tem feito” (Dt 3:21). É uma aliança da graça. Deus salvou Israel não por causa de obras que o povo fez – pois o povo era indigno e rebelde – mas por causa de Sua graça.

É interessante e significativo que a mesma frase seja usada novamente no capítulo seguinte (Dt 4:3) para lembrar Israel do que Deus fez contra aqueles que seguiram Baal-Peor (compare com Nm 25:1-9). A principal lição tirada dessas duas situações é que a única maneira de sobreviver é apegar-se somente a Deus e “ouvir” “ensinar” Suas instruções “para que vivam” (Dt 4:1). Esse princípio é explicitamente enunciado em Levítico 18:5: “Portanto, guardem os Meus estatutos e os Meus juízos. Aquele que os cumprir, por eles viverá. Eu sou o Senhor”. A implicação imediata desse princípio é evitar a idolatria, uma advertência que ocupa a maior parte do capítulo (Dt 4:15-40), pois a idolatria seria o próprio mecanismo pelo qual o povo de Deus se afastaria Dele e, portanto, da vida.

Moisés descreveu a idolatria como um processo que se origina em nós mesmos, pois a adoração de ídolos é a adoração do que fazemos, de quem somos. É por isso que Moisés aconselhou: “Tenham cuidado!” (Dt 4:15). Por isso, o primeiro mandamento, que deriva da afirmação do ato divino de salvação (Dt 5:6) é o que ordena o monoteísmo (Dt 5:7), que é seguido pelo mandamento que proíbe a idolatria (Dt 5:8). É também por isso que, no mesmo contexto, o mandamento do sábado é justificado pelo ato divino de salvação (Dt 5:15), e a repetição dos Dez Mandamentos é seguida pelo chamado para amar a Deus (Dt 6:1-9), o que implica a mesma relação de exclusividade (veja a próxima lição).

Perguntas para discussão e reflexão: Leia Provérbios 3:1, 2. Por que a lei de Deus é boa para nossa vida? De que forma a lei de Deus nos salva da morte? Por que o mandamento do sábado em Deuteronômio 5:15 se refere à salvação de Israel em lugar da criação do mundo (compare com Êx 20:11)?

O povo escolhido

O outro argumento de Moisés para convencer o povo a guardar os mandamentos de Deus diz respeito ao próprio povo, porque a nação foi escolhida pelo Senhor (Dt 7:6). Imediatamente, Moisés especificou que Deus escolheu o povo não porque ele era melhor do que os outros povos, mas simplesmente por causa da fidelidade do Senhor ao juramento que Ele fez a seus pais (Dt 7:8) e porque Ele o ama (Dt 7:8). Visto que o Senhor ama Seu povo, Ele é ciumento, zeloso (Dt 4:24; 6:15) e não tolerará que o coração de Seu povo fique dividido entre Ele e o amor a outros deuses. O “ciúme” em conexão com Deus pode ser chocante para alguns, pois “ciúme” é em geral associado com crime e pecaminosidade humana. Mas essa descrição de Deus como “ciumento” é paradoxalmente reconfortante. O autor bíblico se refere a essa qualidade humana para sugerir o amor apaixonado e exclusivo de Deus por Seu povo. Assim como Deus é descrito como “Um”, Único, Ele considera Seu povo como único, porque o ama.

Perguntas para discussão e reflexão: Por que foi necessário que Deus escolhesse apenas um povo em particular, Israel, para ser o depositário da verdade sobre a salvação universal e transmiti-la a todos? Por que o amor particular de Deus por um povo, Israel, não é incompatível com o amor particular de Deus por você? Qual é o perigo de pensar que Deus lhe ama mais do que a outros? E, contudo, até que ponto esse pensamento tem algo de correto?

O povo santo

Assim como Deus salvou o povo de Israel e o escolheu porque o amava, esperava-se que Israel respondesse e, também por amor, O escolhesse dentre todos os outros deuses. Como resultado, essa escolha envolvia lealdade apenas a Ele e ao modo de vida “diferente” que essa escolha acarretaria. É significativo que a definição de “povo escolhido” se relacione com a qualificação “povo santo” (Dt 7:6). A palavra hebraica qadosh, “santo”, significa ser “separado”, isto é, ser diferente, único, assim como Deus é único: “Sejam santos, porque Eu sou santo” (Lv 11:44; compare com Lv 11:45).

Ser “santo” não se refere a uma qualidade estática, ser perfeito como Deus é perfeito e ser um “santo”. Ao chamar Seu povo para ser qadosh, “santo”, Deus chama Israel para ser Seu povo, para ser separado dos outros povos para um relacionamento especial com Ele (compare Êx 19:6). A preposição hebraica le, que está ligada a Deus (leYHWH), expressa essa ideia de pertencer a Deus em particular. Ser “santo” significa estar separado para um relacionamento especial com Deus: “Vocês são povo santo para o Senhor [leYHWH], seu Deus” (Dt 7:6). E a razão para essa separação é que “o Senhor, seu Deus, os escolheu, para que, de todos os povos que há sobre a terra, vocês fossem o Seu próprio povo” (Dt 7:6). Ser “santo” é, portanto, um elemento importante na aliança. Essa não é uma qualidade estática, mas dinâmica, sempre presente e relevante. Ser “santo” não é algo que herdamos do passado por causa de nossos patriarcas ou pioneiros. Essa realidade da aliança é enfatizada na sua definição: “Não foi com nossos pais que o Senhor fez esta aliança, e sim conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos” (Dt 5:3). Ser “santo” é uma exigência que diz respeito ao presente, “hoje”.

Essa verdade presente é repetida muitas vezes no livro de Deuteronômio precisamente porque somos chamados a ser “hoje o Seu povo próprio” (Dt 26:17, 18). Outra passagem é ainda mais explícita e inclui na aliança pessoas que ainda não existiam: “Não é somente com vocês que faço esta aliança e este juramento, porém [...] com aquele que não está aqui, hoje, conosco” (Dt 29:14, 15). Algumas linhas depois, a passagem bíblica especifica que esta aliança se refere também “aos nossos filhos, para sempre” (Dt 29:29). Visto que essa aliança é sempre “verdade presente”, precisamos torná-la “presente”; e sempre “relembrá-la” e continuar ensinando-a (Dt 6:7; 8:2, 18; 9:7).

Perguntas para discussão e reflexão: Sendo pecadores, como podemos ser santos? Por que a exigência bíblica de sermos “santos” – isto é, diferentes e separados do mundo – nos ensina como devemos interagir com o mundo atual?

APLICAÇÃO PARA A VIDA

O filósofo judeu Abraham Heschel descreveu a resposta bíblica à pergunta “O que é viver?” como “o segredo de ser humano e santo” (Abraham Joshua Heschel, I Asked for Wonder  [Crossroad, 1983], p. 80). Considere exemplos bíblicos de pessoas “humanas” – isto é, estavam em contato com a realidade do mundo – e “santas”. Liste as qualidades dessas pessoas: o que as tornava humanas e o que as tornava santas? À luz desses modelos bíblicos, como aplicar o princípio de “ser humano e santo” nas várias situações que se seguem?

• Você foi convidado para a casa de uma amiga. Ela, que não é adventista, serve uma refeição com carne de porco que ela preparou. Como você pode ser “humano” – isto é, amoroso e respeitoso com sua hospitalidade – e ainda ser santo, não transgredindo a proibição de Deus contra alimentos impuros?

• Na igreja, um grupo de jovens atrás de você está rindo e conversando. Como você os ensina a ser reverentes e a respeitar o caráter sagrado do santuário (“ser santos”) de forma que ainda inspire um relacionamento positivo com eles?

• Como você pode explicar a verdade da profecia a um grupo de descrentes e ainda ser claro, interessante e relevante?

• Sua igreja está dividida em dois grupos. Um deles gosta de enfatizar a justiça social, o amor fraterno e a importância da graça, enquanto o outro enfatiza o juízo e a lei. Sendo líder, como você administra a tensão entre os dois grupos?

Conexão com o Céu

Nota: Peça que duas pessoas apresentem esta entrevista durante o momento do Informativo Mundial.

Narrador: Cathie e seu esposo, Brad, foram os primeiros missionários adventistas pós-comunistas que se mudaram para a Mongólia em 1991, através da Adventist Frontier Missions (Missão da Fronteira Adventistas), um ministério de apoio. Ela continua servindo a Deus nesse país. Conte-nos, Cathie, como é o processo de oração?

Cathie: Quando chegamos à Mongólia em 1991, senti que Deus me chamava para ser uma guerreira da oração. Mas eu argumentei com Deus: “Eu oro constantemente. Já sou uma guerreira de oração!” Meu primeiro esposo faleceu, casei novamente e nos mudamos para outro país asiático por algum tempo. Percebi que Deus me chamava novamente para ser guerreira de oração. Finalmente cedi e disse: “Tudo bem, colocarei na minha agenda três momentos diários de oração.”

Milagres começaram a acontecer enquanto meu marido, três filhas mais novas e eu orávamos três vezes ao dia. Durante meses, procuramos um local para morar por meses e Deus o providenciou. Meu esposo e eu perdemos nosso emprego como professores de inglês e Deus nos deu um novo emprego na área de educação em uma melhor posição.

Esse foi o primeiro passo pelo qual Deus me conduziu ao ministério da oração. O segundo passo foi quando comecei a refletir sobre as instruções repetidas de Jesus sobre “vigiar e orar” no Novo Testamento. Eu não sabia exatamente o que Ele desejava falar. Procurei nos escritos de Ellen White trechos que falassem sobre vigiar e orar e sintetizei em um texto. Aprendi que “vigiar” significava que precisamos observar nossas emoções, nossas palavras e se temos uma atitude indiferente.

Sempre que minhas filhas enfrentavam dificuldades no início da adolescência, eu perguntava: “Vocês já vigiaram e oraram?” Normalmente, elas reconheciam que não observavam seus atos e palavras. Reservamos uma sala de oração em nossa casa onde cada um de nós, três vezes por dia, confessávamos privadamente nossos pecados e debilidades, pedindo que Deus os substituíssem por um espirito humilde e amoroso. Isso ajudou a suavizar nosso relacionamento familiar.

Narrador: Como você lê a Bíblia?

Cathie: Depois de ler que o pioneiro da igreja, Guilherme Miller, estudava a Bíblia um verso por dia, decidi tentar fazer o mesmo. Foi emocionante comparar cada verso com o original hebreu ou grego. Atualmente, tento melhorar o idioma mongol através da leitura bíblica. Com um caderno ao lado, leio um verso em inglês e, em seguida, em mongol. É um processo muito lento, mas, tento estudar um capítulo por dia.

Ler em mongol me dá a perspectiva porque palavras diferentes são usadas. Certa manhã, li em Deuteronômio 33:1, que em inglês diz: “Moisés, o homem de Deus.” Mas em mongol a descrição é: “Moisés, a pessoa de Deus.” Então, analisei: “Posso falar, ‘Cathie, a pessoa de Deus?’” Isso é tudo que eu precisava para aquele dia.

Narrador: Como você testemunha?

Cathie: As leis em muitos países onde vivi dificultam aos estrangeiros testemunharem abertamente de sua fé. Mas, podemos criar oportunidades para que as pessoas façam perguntas, e é perfeitamente aceitável responder as perguntas. Como professora de inglês, eu anoto a frequência pedindo aos alunos para escreverem algo em uma folha de papel. Separo tempo para responder cada anotação. Alguns alunos abrem o coração. Frequentemente, só é necessário fazer amizade e convidar as pessoas para visitar nossa casa. As pessoas abrem o coração em uma simples conversa íntima. É por esse motivo que desejo melhorar minha fluência em mongol.

Minha oração diária ecoa as palavras de Saulo quando ele viu Jesus na estrada para Damasco. Ele perguntou: “Senhor, o que queres que eu faça?” Em cada situação, todos os dias, Deus revela Sua vontade quando perguntamos: “O que queres que façamos?”

As ofertas do trimestre ajudarão a abrir um Centro de Estilo Saudável Adventista em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

 

Informações adicionais

• Faça o download da folha de cartões “Watch and Pray” (Vigiar e orar) que Cathie usa para enriquecer sua vida de oração: bit.ly/watch-and-pray-list.

• A foto mostra Cathie, à direita, com um amigo mongol.

• Faça o download das fotos no Facebook: bit.ly/fb-mq.

• Para outras notícias sobre o Informativo Mundial e informações sobre a Divisão do Pacífico Norte-Asiático, acesse: bit.ly/nsd-2021.

 

 

Essa história ilustra os componentes seguintes do plano estratégico da !greja Adventista “I Will Go”: Objetivo de Crescimento Espiritual nº 1 – “reavivar o conceito de missão mundial e  sacrifício pela missão como um modo de vida que envolva não apenas os pastores, mas todos os membros da igreja, jovens e idosos, na alegria de testemunhar por Cristo e de fazer discípulos” através do “aumento do número de membros da igreja que participam em iniciativas evangelísticas pessoais e públicas com o objetivo de envolvimento total dos membros” (KPI 1.1).

Objetivo de Crescimento Espiritual nº 5 – “discipular indivíduos e familiares numa rotina espiritual” através do “aumento significativo dos membros na prática regular de oração, estudo da Bíblia, estudo da Lição da Escola Sabatina, escritos de Ellen White e outras formas de devoção pessoal” (KPI 5.1). Conheça mais sobre o plano estratégico em IWillGo2020.org.

 

Comentário da Lição da Escola Sabatina – 4º Trimestre de 2021

Tema Geral: Deuteronômio:

Lição 3 – 9 a 15 de Outubro de 2021

A aliança eterna

Autor: Sérgio H. S. Monteiro

Editoração: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br

Revisora: Josiéli Nóbrega

O estudo desta semana nos lembra de um dos mais importantes temas das Escrituras: a aliança. De fato, muitos estudiosos têm proposto que a aliança seja o tema central das Escrituras, servindo, inclusive como seu eixo organizador. Conquanto se possa questionar essa capacidade organizacional do tema, perguntando se ele é abarcante o suficiente para cobrir os diferentes aspectos da Teologia Bíblica, não se pode questionar o importante papel que a aliança desempenha na história da redenção.

Em Deuteronômio, o tema da aliança é, de fato, preeminente. Afinal de contas, o discurso final do livro é uma renovação da aliança com a nova geração dos israelitas, às portas da terra prometida. Não obstante, a aliança pode ser encontrada em inúmeras partes das Escrituras, como um fenômeno não apenas teológico, mas histórico. Nós terminamos um estudo abarcante da aliança na lição do segundo trimestre deste ano de 2021. Nesse estudo, pudemos visualizar, descobrir e mesmo relembrar os elementos essenciais da aliança e como essa aliança se descortina em cada evento da história da salvação, sendo ela mesma a base dessa história.

No estudo desta semana, portanto, não precisamos retomar todos os aspectos já tratados de maneira aprofundada no guia passado. Dessa forma, iremos aqui apenas relembrar alguns aspectos necessários para nossa interpretação das lições relacionadas ao livro de Deuteronômio.

Primeiro, é preciso relembrar que a aliança não é estabelecida em Deuteronômio. Ela é restabelecida ou renovada. E isso é extremamente importante para a leitura correta do texto. Não se trata de uma aliança diferente daquela encontrada em Êxodo e Levítico, mas uma apresentação dela a partir da perspectiva não legal, do ponto de vista da ação histórica, cujo objetivo é enfatizar os resultados da aliança na história de Israel e na construção de um relacionamento com Deus, enquanto era, por outro lado, a base desse mesmo relacionamento. Não é sem razão que Deuteronômio 9:5 fala que não havia nada em Israel, nem naquele povo, que causasse sua entrada na aliança ou mesmo que o colocasse em uma posição digna de ser aceitos nessa aliança. Ou seja, a aliança era uma demonstração da graça plena oferecida ao povo de Israel.

Segundo, como dito na introdução, é preciso observar que Deuteronômio é constituído por discursos de Moisés, sendo, portanto, uma interpretação em primeira mão das palavras ditas por Deus quando Ele propôs essa aliança a Seu povo. Por isso, é possível entender Deuteronômio como a resposta esperada por Deus em termos de compreensão da aliança. A mais importante lição que Moisés nos dá a respeito da aliança é justamente que ela pertence a Deus, não ao homem. Essa aliança não é o acordo entre dois estados, um submetido ao outro por razões de guerra. Tampouco a aliança é um contrato ou acordo comercial e nem mesmo um acordo matrimonial. Não há elementos propositivos por parte do povo, que recebe os princípios da aliança de maneira “passiva”. Seu único papel na aliança é ser fiel, obediente.

Essa característica unilateral da aliança bíblica a torna única e diferenciada das alianças dos povos vizinhos. Se é verdade que guardavam semelhanças, é igualmente verdade que havia diferenças irreconciliáveis. E esta é uma delas: a unilateralidade. Como essa unilateralidade é encontrada na Bíblia? Basicamente em dois aspectos: a nomenclatura e a garantia da aliança. A aliança é sempre chamada de MINHA aliança, por parte de Deus, ou “aliança do Senhor”, por parte do Moisés, como em Deuteronômio 29:12. E por quê? A razão principal é que a aliança é um ato da graça divina, manifesto no estabelecimento da história da salvação, ou plano da redenção, cuja origem é anterior à existência humana. E a garantia vai além do que o ser humano poderia oferecer.

Tipologicamente, essa unilateralidade é demonstrada no episódio da aliança com Abrão em Gênesis 15, no qual somente Deus passa no meio dos animais que foram cortados (karat) como garantia da fidelidade das partes à aliança. Isso é surpreendente! Somente Deus parece se comprometer com a aliança. De fato, o compromisso divino com a aliança é a sua manutenção, porque seu estabelecimento é anterior ao homem, sendo que o Cordeiro da aliança foi morto antes da “fundação do mundo” (1Pe 1:19, 20; Ap 13:8). Logo, a aliança não é um ato entre Deus e os homens, mas entre os membros da Divindade em benefício do universo criado, principalmente o ser humano, em decorrência de seu pecado.

Portanto, o homem é apenas beneficiário desse pacto divino. E como ele se beneficia? Através da provisão da graça (Êx 34:6; Ef 2:8), cuja primeira manifestação está na criação. A decisão divina de criar o ser humano foi precedida pela decisão de morrer pelo ser humano. E cada palavra proferida, cada ato efetuado na criação era a preparação do grande palco no qual a redenção ocorreria. Era a construção do reino da aliança no qual se entraria pela única porta aberta pelo próprio Deus: o corpo de Jesus Cristo (Hb 10:19, 20).

Por fim, a natureza da aliança e a compreensão de que os seres humanos são apenas seus beneficiários, enquanto a aliança é um pacto entre a Divindade para, em termos redentivos, resolver de uma vez por todas o problema do mal e do pecado no Universo em geral e em nosso mundo particular, nos ajuda a compreender porque a aliança não pode ser transitória, sendo eterna em sua constituição e alcance. Deus não pode mudar, Seu plano não pode ser frustrado e Seu Reino será estabelecido no fim. Também assim o meio pelo qual todas as coisas acontecerão é a aliança. Sendo um pacto entre Seres igualmente divinos, pares que Se entregam no plano da redenção, a aliança está protegida da volatilidade humana, da desobediência e da infidelidade. Essas apenas retiram do homem a capacidade de usufruir dos benefícios do pacto, mas não podem anular o pacto de fato, sendo que expressões como “quebrar” e “anular” quando aplicadas à aliança, possuem a conotação de quebrar a relação do pecador ou do povo impenitente com a aliança, não de anular a própria aliança.

É precisamente por isso que, mesmo apontando a apostasia futura daquela geração particular e do povo em geral, Moisés ainda assim o chama a participar da aliança de Deus. Ele havia compreendido que a aliança de Deus se manifestaria enquanto houvesse graça e que a graça era eterna, sendo também eterna a aliança.

Conheça o autor dos comentários para este trimestre: O Pr. Sérgio Monteiro é casado com Olga Bouchard de Monteiro. É pai de Natassjia Bouchard Monteiro e Marcos Bouchard Monteiro. É bacharel em Teologia, mestre em Teologia Bíblica, cursa doutorado em Bíblia Hebraica. É pastor na Escola do Pensar e no Instituto de Estudos Judaicos Feodor Meyer. É membro da Adventist Theological Society, International  Organization for the Study of the Old Testament, Society for Biblical Literature e Associação dos Biblistas Brasileiros.

 

Comentário da Lição da Escola Sabatina – 4º Trimestre de 2021

Tema Geral: Deuteronômio

Introdução a Deuteronômio

Autor: Sérgio H. S. Monteiro

Editoração: André Oliveira Santos: andre.oliveira@cpb.com.br

Revisora: Rosemara Santos

Nome do livro

O quinto livro das Escrituras, completando o chamado Pentateuco é “Deuteronômio”. O título do livro significa “Segunda Lei”, em português, e deriva do termo utilizado na Septuaginta (tradução grega da Bíblia hebraica, datada do 3º ou 4º século a.C.). O título original do livro, entretanto, como era comum nas Escrituras Hebraicas, deriva de suas primeiras palavras: “eleh hadevarim”, ou “estas são as palavras”. O título hebraico acentua a característica discursiva do texto, enfatizando o que é dito nele mesmo, segundo o qual, Deuteronômio se constitui em um discurso feito por Moisés, antes de sua morte (Dt 1:3). Já o título grego enfatiza o conteúdo legal do livro, com sua ampla repetição da Lei. Parece indicar, também, que os tradutores da Septuaginta viam o texto como sendo o texto encontrado pelos auxiliares do rei Josias, e que guiou suas reformas religiosas no 7º século a.C., como já sugerido pelos pais da igreja. Sendo isso um fato ou não, o título grego Deuteronômio se harmoniza de maneira perfeita com o conteúdo do livro, assim como o título hebraico se harmoniza com a forma dele (o que, diga-se de passagem, não aconteceu com outros livros cujo título grego causa apenas confusão, como “Números”, cujo título hebraico é Bamidbar: “no deserto”).

Essa dupla nomenclatura deverá ser mantida em nossa jornada nos próximos três meses, enquanto estudamos o guia da Lição da Escola Sabatina sobre Deuteronômio. Ele nos ajudará a compreender vários aspectos do livro, que podem ser perdidos de outra forma. Devemos, portanto, lembrar em cada leitura que estamos lidando com um discurso de Moisés, carregado do impacto de sua sabida despedida. Nesse discurso, ele relembra ao povo as experiências históricas que o levaram até aquele momento, dando-lhe, por seu turno, uma repetição da própria legislação que brotou de cada uma das experiências vividas.

Autoria e data

De longa data Deuteronômio foi reconhecido e recebido como um texto mosaico. Ele provinha da pena de Moisés e do período mosaico. Foi apenas com Baruch Spinoza, judeu espanhol do século 17, que dúvidas foram levantadas quanto à autoria mosaica do Pentateuco. Ele afirmou, por exemplo, que Moisés não poderia haver escrito sobre sua própria morte (Dt 34) e, portanto, o livro de Deuteronômio não era de sua autoria.

A principal teoria quanto à autoria do Pentateuco é que o texto é da época da reforma de Josias, por volta de 621 a.C., tendo sido produzido pelo palácio para dar validade a um projeto de poder que se centralizava em Jerusalém em torno do palácio, da figura real, do sacerdócio e do templo. Não obstante, evidências internas demonstram que o livro de Deuteronômio é anterior aos profetas literários, que são datados do 8º século a.C., é anterior ao período da monarquia dividida do 10º século a.C., e à conquista da terra por Josué, entre os séculos 15 e 14 a.C.

Quanto aos profetas, a expressão “O Eterno Deus dos seus pais”, que aparece em Deuteronômio, não é encontrada em nenhum dos profetas literários, mas está registrada três vezes em Êxodo (3:6; 15:12 e 18:4). Igualmente, a situação descrita em Deuteronômio 16 não condiz com o que conhecemos do tempo de Josias, no sétimo século a.C. A reforma de Josias tinha por objetivo especialmente três problemas: os Kemarim (sacerdotes idólatras), os bamot (lugares altos) e os cavalos de bronze para adoração ao deus sol. Nenhum desses itens é mencionado em Deuteronômio, criando uma tremenda dificuldade para os que enxergam uma data no 7º século a.C.

Evidência de que o texto tenha sido anterior à divisão do reino inclui a ausência de qualquer menção ou sugestão de que houvesse divisão entre Judá e Efraim e a frequência de expressões que entendem Israel como uma nação única (cf. Dt 1:13, 15, etc.). Igualmente, o relato demonstra que o livro foi ambientado em um período no qual Israel ainda não habitava em Canaã. Por exemplo, quando as fronteiras da terra são mencionadas, elas são descritas como “terra dos amorreus” e “Líbano” (1:7), e não como “de Dã até Berseba”, como em livros posteriores. A própria legislação de Deuteronômio pressupõe uma sociedade ainda em preparo para a entrada na terra, não uma que já estivesse ali estabelecida. Dos 346 versos dos capítulos 1–26, mais da metade é religioso e moral, enquanto 93 lidam com mandamentos sobre a iminente entrada na terra.

Em resumo, a melhor data para Deuteronômio é aquela apresentada no próprio texto: a iminente entrada na terra, quando Moisés ainda vivia, no fim dos 40 anos de peregrinação no deserto, por volta de 1405 a.C. No esteio da datação, faz todo sentido a autoria mosaica, estabelecida pelo texto de forma indireta e pelas referências posteriores a Deuteronômio como a Lei de Moisés.

Crítica textual

Como todos os livros da Bíblia, Deuteronômio possui também uma longa história textual. Os livros do Pentateuco, por sua vez, não têm uma história textual com variações muito importantes, uma vez que sempre foram considerados no pensamento judaico como ditados por Deus. Dessa forma, o processo de cópia respeitava – e respeita – estritas regras que visam impedir a corrupção do texto. Mas, com o decurso do tempo e principalmente com o surgimento de divisões internas no judaísmo, ainda que não tenha diminuído a importância e sacralidade da Torá/Pentateuco, surgiram tradições textuais diferentes, vistas no próprio texto, sendo as três principais o Pentateuco Samaritano, a Septuaginta e os Manuscritos do Mar Morto.

O texto padrão é conhecido como texto massorético por haver sido preservado por escribas especializados que preservaram a massorá, cujo significado é tradição, reconhecida como a que remontava até Moisés.

Os principais manuscritos massoréticos são o Códice de Alepo, datado de por volta de 920 a.C. e o Códice de Leningrado, datado em 1008 a.C. Esses dois manuscritos são a base do texto das Bíblias Hebraicas de hoje. Esses dois textos são comparados a outros manuscritos e, através de procedimentos próprios da crítica textual, o texto original é restaurado.

O Pentateuco Samaritano é o texto utilizado pelos samaritanos, escrito em alfabeto samaritano, que em poucas coisas se assemelha ao alfabeto hebraico que possuímos, mas que representa o alfabeto utilizado, provavelmente, por Israel antes do exílio da Babilônia. Ele possui não apenas uma língua diferente, mas também versos com versões alternativas, como a versão samaritana dos dez mandamentos, que conclama o povo a fazer um altar no monte Gerizim para adoração. No texto de Deuteronômio, encontramos duas interessantes mudanças também relacionadas com o lugar de adoração. No capítulo 27:2-8, o texto massorético emprega o futuro para indicar que Deus “escolherá” o lugar de adoração. Já no texto samaritano, o verbo utilizado está no passado, informando que ele já “escolheu” e essa escolha é o monte Gerizim, que, no Pentateuco Samaritano, toma o lugar do monte Ebal (v. 4).

A Septuaginta, ou a versão dos LXX, é a versão grega da Bíblia Hebraica, produzida por volta do 3º século a.C., com permissão do Sinédrio. De acordo com a tradição judaica, ela foi produzida por 72 sábios da Torá que, mesmo isolados, produziram um trabalho coerente. O que conhecemos como LXX, entretanto, tem em si mesmo uma história textual, que nos entregou versões, com a LXX propriamente dita e as versões de Teodócio, Símaco e Áquila. As alterações que a LXX preservou no texto de Deuteronômio são de tal importância que geraram toda uma disciplina de estudos. Os resultados desses estudos mostraram que, em algum momento, houve o surgimento de uma tradição textual que divergia do texto hebraico e tinha sido preservada pela LXX. O caminho dessa tradição textual foi no sentido de aproximar Deus do ser humano, focalizando mais em Sua imanência do que em Sua transcendência. Além disso, é clara a influência helenística na tradução da LXX.

A descoberta dos manuscritos do Mar Morto, em 1947, deu novo impulso à pesquisa do texto original dos livros bíblicos. Em relação a Deuteronômio, foram encontrados manuscritos em quase todas as cavernas, sendo a caverna quatro a principal, com 22 manuscritos encontrados. Alguns desses manuscritos concordam com o texto massorético do 9º século a.C., enquanto outros preservam uma leitura próxima da leitura da LXX.

Em suma, hoje possuímos como nunca, uma variedade de manuscritos de Deuteronômio que nos permite, por meio de análises textuais, nos aproximar muito, ou mesmo tocar, os textos como saíram das mãos de Moisés.

Estrutura

O livro de Deuteronômio consiste basicamente em discursos de despedida de Moisés. Reconhecem-se três discursos principais com apêndices curtos lidando com aspectos da aliança. A estrutura abaixo é um resumo da descrição apresentada por Gleason Archer em Merece Confiança o Antigo Testamento, p. 170, 171:

I. Primeiro Discurso: Revisão Histórica, cap. 11–4:43

II. Segundo Discurso: Leis Pelas Quais Israel Deve Viver, 4:44–26:19

III. Terceiro Discurso: Advertência e Predição, 27:1–30:20

IV. Lei Escrita Entregue aos Líderes, 31:1-30

V. O Cântico de Moisés: A Responsabilidade de Israel Diante da Aliança, 32:1-43

VI. Despedida e Recomendações Finais, 32:44–33:29

VII. A Morte de Moisés, 34:1-12

Tematicamente, é possível perceber uma estrutura circular, tendo o código da aliança, nos capítulos 12–26 como centro e duas molduras: uma interna (capítulos 4–11 e 27–30) e outra externa (capítulos 1–3 e 31–34). Essa estrutura demonstra o papel central da aliança no pensamento apresentado no livro.

Temas

São três os temas centrais do livro de Deuteronômio: Deus, Israel e Aliança.

Deus

Ele é o centro do livro, além de ser o centro das Escrituras. No Pentateuco, e em Deuteronômio em particular, Deus é apresentado por meio das lentes da revelação histórica, mais do que da natureza. Aliás, essa é uma das contribuições e polêmicas da Bíblia Hebraica: Deus é melhor conhecido por meio da Sua ação histórica. A história é o palco da revelação divina e a natureza apenas demonstra Seu poder criador, mas não Sua vontade redentora!

Israel

É o povo escolhido de Deus. Na Torá isso se torna explícito e claro. Em Deuteronômio, somos constantemente relembrados disso. Essa escolha, totalmente fundamentada em um ato livre da graça divina, não se baseia em nada que Israel houvesse apresentado para atrair a Divindade. Ao contrário, Israel havia sido infiel e desobediente e seguiria assim. Entretanto, por ser fiel à Sua aliança, o Eterno Se manteria ligado a esse povo.

Aliança

É o centro do relacionamento entre o Eterno e Israel. Embora nosso conceito de aliança precise ser revisto para perceber como a aliança é puramente divina, feita entre os membros da Divindade para benefício da ordem criada em geral e dos seres humanos em particular, não resta dúvida de que a aliança é o que liga o Céu à Terra, funcionando como um reino no qual os seres criados, perdidos e redimidos são convidados a entrar e viver. O coração de Deuteronômio pulsa com a aliança. No seu próprio centro, nos capítulos 12–26, encontramos o código de conduta dessa aliança, repetida por Moisés, que conclamou os israelitas a entrar nesse compromisso com o Senhor.

Lendo Deuteronômio

Moisés, em seus discursos carregados de emoção, inicia com a lembrança resumida de que eles ali chegaram porque, um dia, Deus prometeu aos seus pais a terra como herança, e isso não foi em decorrência de qualquer ação dos pais, mas pela livre graça amorosa de Deus. Essa é a lembrança fundamental que irá permear a caminhada de Israel, ou que deveria fazê-lo: o único antídoto para a apostasia e fundamento da esperança é a compreensão de que a origem de Israel é o chamado histórico de Deus. Embora Moisés não se preocupe em traçar as origens do povo até a criação, não resta dúvida de que na figura dos “pais” a história primordial está incluída, porque na visão bíblica, os patriarcas, como todos os seres humanos, são resultado dos primeiros 11 capítulos de Gênesis.

Por isso, um método sadio de interpretar e entender Deuteronômio deve levar em consideração alguns aspectos essenciais:

1. O texto é narrativo e apresenta um discurso de despedida de Moisés;

2. Grande parte do discurso apresenta palavras de Moisés e não de Deus.

3. O texto de Deuteronômio serve com um fechamento apropriado para a história iniciada em Gênesis, permitindo perceber várias nuances do amor de Deus individualizado.

O primeiro item deve nos levar a compreender o peso de cada palavra do texto. Os cinco discursos de Moisés que compõem o livro, mais a narrativa de sua morte, quando lidos a partir da perspectiva de um discurso de despedida, trazem uma visão diferente de cada tema apresentado. Não estão ali apenas palavras éticas de um grande professor, ou a narrativa histórica distante de um historiador, nem mesmo as palavras bem equilibradas de um poeta, mas a viva expressão da certeza de sua partida, temperada com a vívida fé histórica, moldada não pelas experiências de outrem, mas dele mesmo, como testemunho para aquela geração que descendia da geração que tinha morrido no deserto, mas também para futuras eras. A emoção é sensível nas palavras de repetição da legislação para aqueles jovens.

E por serem carregadas do tempo de vivência e da emoção do fim, as narrativas históricas de Deuteronômio são pintadas com a tinta da reflexão, e as pinceladas legislativas não são apenas repetidas menções de artigos do código levítico, mas vívidas interpretações daquele código. E aqui somos agraciados com uma oportunidade única: podemos ver Moisés, não como o mediador da entrega da Lei, mas como um intérprete. É possível, e isso é único, pensar nas palavras repetidas da Lei como a maneira pela qual o próprio Moisés entendeu a legislação dada a Ele por Deus e, por meio dele, ao povo! E precisamos permitir que essa realidade, a de que estamos escutando e lendo o que Moisés (certamente guiado pelo Espírito Santo) compreendeu da legislação que Deus lhe havia entregue, quando lermos os textos legais, apareça e faça parte do modelo de intepretação e restrinja nossa vontade de ser independentes em demasia.

Por fim, se mantivermos os dois primeiros artigos de nosso método em foco, aliados ao terceiro, quando estudarmos cada lição durante este trimestre, poderemos perceber que Deuteronômio trata precisamente da história como revelação, usando a expressão tão precisa de Wolfhart Pannemberg. Sim, a história sempre foi vista como um dos meios pelos quais Deus Se revela de forma geral, mas o fato, percebido por Pannemberg em Deuteronômio, é que a história é o palco por excelência da revelação especial, ou do plano da salvação. Por isso, podemos, e mais do que isso, devemos ler Deuteronômio como uma franca declaração histórica de um Deus que não legisla no vácuo, mas fundamenta Suas leis na Sua autorrevelação, contínua e constante, que se dá no palco da história. Ele quer ser não apenas o Autor distante da história, mas parte dela, interagindo com o ser humano e se relacionando com o mundo criado. Nessa verdade impressionante e transformadora apresentada na Torá (Pentateuco) e emocionalmente declarada e repetida nas palavras de Moisés, encontramos o foco do próprio Deuteronômio.

Conheça o autor dos comentários para este trimestre: O Pr. Sérgio Monteiro é casado com Olga Bouchard de Monteiro. É pai de Natassjia Bouchard Monteiro e Marcos Bouchard Monteiro. É Bacharel em Teologia, Mestre em Teologia Bíblica, cursa doutorado em Bíblia Hebraica. É Pastor na Escola do Pensar e no Instituto de Estudos Judaicos Feodor Meyer. É membro da Adventist Theological Society, International Organization for the Study of the Old Testament, Society for Biblical Literature e Associação dos Biblistas Brasileiros.