Lição 7
09 a 15 de maio
Idioma, texto e contexto
Sábado à tarde
Ano Bíblico: 1Cr 28, 29
Verso para memorizar: “Tomai este Livro da Lei e ponde-o ao lado da arca da Aliança do Senhor, vosso Deus, para que ali esteja por testemunha contra ti” (Dt 31:26).
Leituras da semana: Dt 32:46, 47; 1Rs 3:6; Nm 6:24-26; Gn 1:26, 27; 2:15-23; 15:1-5

Mais de 6 mil línguas são faladas entre os bilhões de habitantes do mundo. A Bíblia completa foi traduzida para mais de 600 idiomas, tendo o Novo Testamento ou algumas partes dele sido traduzidos também para mais de 2.500 outros idiomas. Certamente são muitas línguas. Mas, ao mesmo tempo, ainda é menos da metade dos idiomas conhecidos do mundo.

Estima-se que 1,5 bilhão de pessoas não tenham nenhuma parte das Escrituras traduzida em sua língua materna. Embora ainda haja muito trabalho a ser feito, os esforços das sociedades bíblicas garantem que 6 bilhões de pessoas possam ler as Escrituras.

E que bênção é estarmos entre aqueles que têm a Bíblia em seu idioma! Muitas vezes, não damos o devido valor a esse fato, esquecendo-nos de que não apenas muitos não têm a Bíblia, mas também que, durante séculos, na Europa, a Bíblia foi intencionalmente mantida longe das multidões. Graças à invenção da imprensa e à Reforma, esse não é mais o caso. Os que têm acesso à Bíblia e a estudam com oração, recebem a plenitude do Espírito Santo e conhecem o Senhor revelado em suas páginas.

Domingo, 10 de maio
Ano Bíblico: 2Cr 1-4
Compreensão das Escrituras

1. Leia 2 Timóteo 3:16, 17. Para quais propósitos a Bíblia nos foi dada?

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A Bíblia foi escrita como um testemunho do plano divino de redimir a humanidade caída e da obra de Deus na História. Ela foi dada para nos instruir nos caminhos da justiça. O Senhor escolheu fazer isso em linguagem humana, tornando Seus pensamentos e ideias visíveis mediante palavras que entendemos. Ao redimir Israel do Egito, Deus escolheu uma nação específica para transmitir Sua mensagem a todos os povos. Ele permitiu que essa nação comunicasse Sua Palavra por meio de seu idioma, o hebraico (e algumas porções em aramaico, língua relacionada ao hebraico).

A ascensão da cultura grega trouxe uma nova oportunidade, permitindo que o Novo Testamento fosse transmitido por meio do idioma universal, o grego, que era amplamente falado naquela parte do mundo nesse período. (Além disso, houve até uma tradução grega do Antigo Testamento, a
Septuaginta.) Após a morte de Cristo, essa linguagem universal habilitou os apóstolos e a igreja primitiva a espalhar a mensagem por toda parte com um novo zelo missionário. Posteriormente, o apóstolo João “atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu” (Ap 1:2). Dessa maneira, a Bíblia demonstra a continuidade desse inspirado “testemunho” desde o primeiro escritor das Escrituras até o último.

2. Leia Deuteronômio 32:46, 47. Por que era tão importante que os filhos de Israel cumprissem “todas as palavras desta Lei” (Dt 32:46), a Torá ou “instrução”? Como a Palavra de Deus “prolonga” nossos dias? O que isso significa em nosso contexto hoje?

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Algumas pessoas não apenas têm a Bíblia traduzida em seu idioma nativo, mas possuem até mesmo várias versões dela em sua língua. Outros têm apenas uma versão e, em alguns casos, nem isso. Contudo, independentemente da versão disponível, o ponto essencial é estimá-la como a Palavra de Deus e, mais importante, obedecer ao que ela ensina.

Por que nunca é “coisa vã” (Dt 32:47) obedecer à Palavra de Deus e ensiná-la aos seus filhos?
Peça a Deus que torne você um sábio administrador dos recursos que Ele lhe confiou.
Segunda-feira, 11 de maio
Ano Bíblico: 2Cr 5-7
Palavras e seus significados

Em todas as línguas, há palavras tão ricas e profundas em significado que são difíceis de traduzir adequadamente em uma única palavra para outro idioma. Essas palavras exigem um amplo estudo de seu uso na Bíblia para a compreensão da amplitude de seu significado.

3. Leia 1 Reis 3:6; Salmo 57:3; 66:20; 143:8; Miqueias 7:20. Como a misericórdia e a bondade de Deus se estendem às Suas criaturas? Assinale a alternativa correta:

A.( ) O Senhor é misericordioso para com os que aceitam a Sua salvação e Seu perdão.

B.( ) O Senhor mantém a graça para com os que rejeitam a salvação.

A palavra hebraica chesed (“misericórdia”) é uma das mais ricas e profundas do Antigo Testamento. Ela descreve o amor de Deus, Sua bondade, misericórdia e o propósito da aliança em relação ao Seu povo. Nessas poucas passagens, O vemos demonstrando “grande benevolência (chesed) [...] para com [Seu] servo Davi” e “[mantendo-lhe] esta grande benevolência (chesed)” (1Rs 3:6). “Deus enviará a Sua misericórdia (chesed) e a Sua verdade” (Sl 57:3; ARC). Em relação a Israel, Ele mostrou “a Jacó a fidelidade e a Abraão, a misericórdia (chesed)” (Mq 7:20). Livros inteiros foram escritos sobre a palavra chesed, tentando captar a profundidade da misericórdia e do amor de Deus para conosco.

4. Leia Números 6:24-26; Jó 3:26; Salmo 29:11; Isaías 9:6; 32:17. O que é a “paz” (ou shalom) mencionada nessas passagens?

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A palavra hebraica shalom é muitas vezes traduzida como “paz”. Mas seu significado é muito mais profundo e amplo do que esse termo. Ela pode ser traduzida como “plenitude, inteireza e bem-estar”. A bênção e a bondade de Deus nos mantêm em estado de shalom, que é um dom de Deus (Nm 6:24-26). Em contrapartida, a experiência de aflição de Jó produziu uma situação em que ele não tinha “descanso” nem “sossego”, pois lhe faltava shalom. Neste mundo agitado, é uma bênção profunda receber o sábado com as palavras Shabbat shalom, pois nossa comunhão com Deus proporciona paz e plenitude.

Mesmo que não conheçamos o significado original dessas palavras, como podemos viver a realidade da sua essência mediante a boa compreensão e dedicação no estudo das Escrituras?
Terça-feira, 12 de maio
Ano Bíblico: 2Cr 8, 9
Repetição, padrões de palavras e significado

No pensamento hebraico, existem diversas maneiras de expressar ideias que reforçam o significado e enfatizam a importância de conceitos. Ao contrário das línguas europeias, o hebraico não possui sinais de pontuação no idioma original. Por isso, na estrutura do idioma foram desenvolvidas outras formas de comunicar essas ideias.

5. Quais palavras foram repetidas em Gênesis 1:26, 27 e Isaías 6:1-3? Como essas palavras são realçadas por diferentes conceitos introduzidos por meio da repetição?

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Uma das maneiras pelas quais o escritor hebraico podia enfatizar certo atributo de Deus era repeti-lo três vezes. À medida que o relato da criação chega ao ápice da divina obra criativa, o texto enfatiza a importância singular da humanidade criada. O termo bara (“criar”) sempre tem apenas Deus como sujeito. Ou seja, somente Deus tem o poder de criar sem depender de matéria pré-existente. O texto descreve a criação do homem: “Criou Deus, pois, o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:27). Observe a tripla repetição do verbo “criar”. Portanto, Moisés enfatizou que o ser humano foi criado por Deus e que também foi criado à Sua imagem. Essas verdades eram a sua ênfase.

Na visão e chamado de Isaías, os serafins repetiram as palavras “santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6:3). A ênfase está na santidade de um Deus maravilhoso, cuja presença enche o templo. Também vemos essa santidade mediante as palavras de Isaías, quando ele estava na presença do Todo-Poderoso: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6:5). Mesmo o profeta Isaías, confrontado com a santidade e o caráter de Deus, encolheu-se ante a sua indignidade. Vemos assim, muito antes da exposição de Paulo sobre a pecaminosidade humana e a necessidade de um Salvador (Rm 1-3), a Bíblia expressando a natureza decaída da humanidade, mesmo em uma pessoa “boa” como Isaías.

Em Daniel 3, há uma repetição (com variações) da expressão “imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado” (Dn 3:1-3, 5, 7, 12, 14, 15, 18). Essa expressão, ou variações dela, é repetida dez vezes no capítulo para contrastar a ação de Nabucodonosor em desafio à imagem que Deus lhe havia revelado por meio de Daniel (Dn 2:31-45). A ênfase nesse caso está na tentativa do ser humano de se tornar um deus a ser adorado, em contraste com o único Deus verdadeiro, o único digno de adoração.

Quarta-feira, 13 de maio
Ano Bíblico: 2Cr 10-13
Textos e contextos

Nas Escrituras, as palavras sempre ocorrem em um contexto. Elas não estão isoladas. Uma palavra tem seu contexto imediato dentro de uma frase; e essa unidade precisa ser compreendida primeiramente. Depois, há o contexto mais amplo da unidade geral em que a frase ocorre. Essa pode ser uma seção do texto, um capítulo ou uma série de capítulos. É essencial entender tão bem quanto possível o contexto das palavras e frases para não chegar a conclusões equivocadas.

6. Compare Gênesis 1:27 com 2:7. Em seguida, leia Gênesis 2:15-23. Como podemos entender, a partir dessas diferentes passagens e contextos, a definição de adam, a palavra hebraica para “homem”?

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Já vimos que a repetição do termo bara em Gênesis 1:27 indica uma ênfase na criação do homem. Agora vemos que o homem é definido no contexto desse verso como “homem e mulher”. Isso significa que o termo hebraico adam deve ser entendido nessa passagem como uma referência genérica à humanidade.

Contudo, em Gênesis 2:7, o mesmo termo adam é usado para se referir à formação de Adão do pó da “terra” (em hebraico, adamah – observe o jogo de palavras). Aqui há apenas a referência ao homem Adão (masculino), pois Eva só foi criada posteriormente e de maneira completamente diferente. Portanto, em cada passagem, mesmo no contexto de dois capítulos, vemos uma diferenciação entre a definição de adam como “humanidade” (Gn 1:27) e o homem Adão (Gn 2:7). O fato de Adão ser uma pessoa é posteriormente confirmado nas genealogias (Gn 5:1-5; 1Cr 1:1; Lc 3:38) e em relação com Jesus, que Se tornou o “segundo Adão” (Rm 5:12-14).

Assim como a palavra Adão ocorre em um texto específico, o contexto da criação de Adão e Eva é encontrado no relato mais amplo da criação, visto em Gênesis 1 e 2. É isso que se pretende dizer com unidade maior. A unidade informa ao intérprete temas, ideias e desenvolvimentos adicionais. Gênesis 2:4-25 por vezes tem sido chamado de “segundo relato da criação”, mas na verdade há apenas uma diferença na ênfase (veja o estudo da próxima semana). Contudo, em ambos os relatos, vemos as origens definitivas da humanidade.

De acordo com a Bíblia, homem e mulher são criações diretas de Deus. Por que a “sabedoria do mundo” é louca (1Co 1:20) ao afirmar que surgimos do mero acaso?
Peça a Deus que faça você compreender o que significa orar “sem cessar” (1Ts 5:17) .
Quinta-feira, 14 de maio
Ano Bíblico: 2Cr 14-16
Livros e sua mensagem

As maiores unidades nas Escrituras são os livros da Bíblia. Os livros bíblicos foram escritos para diferentes propósitos e em diferentes contextos. Alguns serviram como mensagens proféticas; outros foram compilações, como os Salmos. Existem livros históricos como 1 e 2 Reis, e há cartas para várias igrejas, como as escritas por Paulo e outros autores.

Ao buscarmos entender o significado e a mensagem de um livro, é importante começar com a autoria e o contexto. São atribuídos autores a muitos livros da Bíblia. Os primeiros cinco livros do Antigo Testamento são identificados como tendo sido escritos por Moisés (Js 8:31, 32; 1Rs 2:3; 2Rs 14:6; 21:8; Ed 6:18; Ne 13:1; Dn 9:11-13; Ml 4:4). Isso foi confirmado por Jesus (Mc 12:26; Jo 5:46, 47; Jo 7:19) e pelos apóstolos (At 3:22; Rm 10:5). Em outros casos, alguns autores bíblicos não foram identificados. (Por exemplo, os autores dos livros Ester e Rute, bem como os autores de muitos livros históricos como Samuel e Crônicas, não são identificados.)

7. Leia Gênesis 15:1-5; 22:17, 18. Qual é a importância do fato de que Moisés escreveu o livro de Gênesis? Assinale a alternativa correta:

A.( ) Moisés escreveu sobre a origem de tudo e o plano da salvação.

B.( ) Ele escreveu em linguagem simbólica sobre a origem da vida.

Êxodo, Levítico e Deuteronômio foram escritos por Moisés, depois do Êxodo. Mas, visto que Gênesis é fundamental como histórico das ações de Deus da criação ao período patriarcal, esse livro foi escrito antes do Êxodo.

“Enquanto os anos se passavam e ele vagava com seus rebanhos nos lugares isolados, refletindo sobre a opressão sofrida por seu povo, relembrava a maneira pela qual Deus havia lidado com seus antepassados e as promessas que eram a herança da nação escolhida; e suas orações por Israel subiam ao Céu de dia e de noite. Anjos celestiais derramavam sua luz em redor dele. Ali, sob a inspiração do Espírito Santo, ele escreveu o livro de Gênesis” (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 251).

No livro de Gênesis, somos informados não apenas sobre nossas origens, mas sobre o plano da salvação, ou o meio pelo qual Deus redimirá a humanidade caída. Esse plano se tornou ainda mais claro com a aliança que Deus fez com Abraão, a qual envolvia Sua promessa de estabelecer por meio dele uma grande nação, a ser formada por uma “descendência como as estrelas dos céus e como a areia na praia” (Gn 22:17).

Quais outras grandes verdades o livro de Gênesis nos ensina, verdades sobre as quais, de outra forma, não saberíamos? Por que a Palavra de Deus é importante para nossa fé?
Sexta-feira, 15 de maio
Ano Bíblico: 2Cr 17-20
Estudo adicional

Textos de Ellen G. White: O Grande Conflito, p. 79-96 (“Arautos de uma Era Melhor”) e p. 145-170 (“O Poder Triunfante da Verdade”). Leia também a seção 4 (a–j) do documento “Métodos de Estudo da Bíblia”, que pode ser encontrado no seguinte link: http://www.centrowhite.org.br/metodos-de-estudo-da-biblia.

“Entretanto, o fato de que Deus revelou Sua vontade aos homens por meio de Sua Palavra não tornou desnecessária a contínua presença e direção do Espírito Santo. Ao contrário, o Espírito foi prometido pelo nosso Salvador para esclarecer a Palavra a Seus servos, iluminando e aplicando seus ensinos. E, considerando que foi o Espírito de Deus que inspirou as Sagradas Escrituras, é impossível que o ensino do Espírito seja contrário ao da Palavra” (Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 9).

Perguntas para consideração

1. Independentemente de quantas traduções da Bíblia existam em sua língua, o que você pode fazer para aproveitar ao máximo as versões disponíveis? Como apreciar a Bíblia como a Palavra de Deus e buscar, pela fé, obedecer aos seus ensinamentos?

2. Pense na diferença entre o que a Palavra de Deus ensina sobre as origens humanas (que fomos criados por Deus no sexto dia da criação) e o que muitos afirmam, sob o manto da “ciência”, ao alegar que evoluímos ao longo de bilhões de anos. Por que é importante se ater ao que a Bíblia diz? Até que ponto a humanidade pode chegar quando se afasta das declarações claras da Palavra de Deus?

3. Quais ferramentas podem nos ajudar a entender melhor a Bíblia? E mesmo não tendo ferramentas extras, como aplicar as lições desta semana sobre interpretação bíblica?

4. Os filhos de Israel receberam a orientação de que deveriam ensinar aos seus filhos as verdades dadas a eles e recontar as histórias sobre a direção de Deus em sua vida (Dt 4:9). Além do benefício evidente de transmitir a fé, por que a instrução e a narração de histórias sobre a direção de Deus em nossa vida aumentam a nossa própria fé? Isto é, por que compartilhar a verdade bíblica também é benéfico para nós?

Respostas a atividades da semana: 1. Ensino, repreensão, correção e educação na justiça, para que sejamos habilitados a fazer boas obras. 2. Porque assim seriam poupados dos sofrimentos causados pela desobediência. Sua Palavra é vida e, portanto, pode prolongar nossa vida, visto que seus princípios são vivificantes. 3. A. 4. A palavra shalom, traduzida comumente por “paz”, não significa apenas ausência de guerra, mas descanso, plenitude e inteireza. 5. Em Gênesis 1:26, 27, o verbo “criar” é repetido três vezes; em Isaías 6:1-3, a palavra “santo” é repetida três vezes também. As repetições servem para enfatizar uma verdade importante. 6. Adam [“homem”] foi utilizada em dois contextos diferentes: na primeira passagem, refere-se à origem do ser humano, sem a ênfase no sexo masculino; na segunda passagem, essa palavra designou o primeiro homem, Adão. 7. A.

Resumo da Lição 7
Idioma, texto e contexto

Textos-chave: Dt 32:46, 47; 1Rs 3:6; Nm 6:24-26; Gn 1:26, 27; 2:15-23; 15:1-5

Esboço

As palavras têm poder. Elas podem erguer um povo da opressão da escravidão para uma vida fiel de libertação. Josué exortou o povo: “Escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24:15). As palavras também podem ser devastadoras se forem usadas para destruir e enganar. Quando Satanás tentou Eva no Jardim do Éden, ele insinuou a dúvida: “É assim que Deus disse: ‘Não comereis de toda árvore do jardim?’” (Gn 3:1). As palavras podem ser acusatórias e condenatórias, e podem ser calmantes e gentis, trazendo cura à alma.

Deus escolheu comunicar a história de Sua criação, a queda, o plano da redenção, a promessa de restauração e a segunda vinda ao mundo por meio de profetas e escritores. Eles escreveram em hebraico, aramaico e grego, idiomas bastante diferentes dos que aprendemos na infância. A Bíblia inteira foi traduzida para pelo menos 636 idiomas e o Novo Testamento para outros 3.223 idiomas ou mais, para que 95% da população da Terra possa ler a Palavra de Deus. Na lição desta semana, examinaremos como a interpretação das palavras, frases e narrativas das Escrituras em seus contextos originais nos ajuda a entender melhor a mensagem divina para nós.

Comentário

Escrituras

É importante entender que o significado deriva das menores partes da língua, da própria palavra isolada, e se expande para o contexto de uma frase, de uma narrativa e, finalmente, de um livro. A palavra dabar, em hebraico, é muito rica em significado, pois pode significar uma “palavra”, “coisa” ou mesmo “profecia”. Por esse motivo, é importante estudar o contexto maior das palavras e como elas podem ser usadas na Bíblia. As palavras hebraicas chesed (misericórdia) e shalom (paz) são exemplos dos tipos de palavras que têm ampla extensão semântica e podem ser entendidas mais profundamente se estudadas em todo o contexto das Escrituras. Em outros casos, existem ensinamentos bíblicos (doutrinas) ou ideias que são melhor compreendidos pelo estudo de um conjunto de palavras com significados semelhantes que, juntas, proporcionam ampla gama de entendimento. Um desses ensinamentos que se beneficia de uma abordagem como essa é o conceito bíblico de remanescente.

Ilustração

A Igreja Adventista do Sétimo Dia se identifica como a igreja remanescente da profecia bíblica, chamada como um movimento no tempo do fim para proclamar com clareza as três mensagens angélicas. A igreja remanescente proclama o sábado como o selo que distinguirá aqueles que guardam os mandamentos e têm a fé de Jesus (Ap 14:12). Sua capacidade de observar os mandamentos vem dos méritos e poder de Cristo, como mostra Seu exemplo de vencer e herdar a coroa da vida (Jo 16:32, 33; 1Jo 4:4; 5:4, 5; Ap 2:7; 11, 17, 26; Ap 3:5,12, 21). Contudo, a reivindicação de ser o remanescente parece bastante exclusivista e arrogante no contexto moderno. Como podemos saber que Deus tem um remanescente?

Esse conceito se encontra em toda a Escritura. Uma das palavras para “remanescente” é she’?r, que, em suas várias derivações, ocorre 226 vezes no Antigo Testamento. A forma substantiva de she’?r pode designar o “restante” de Israel (Is 10:20) ou “o restante do seu povo” (Is 11:11, 16; 28:5). Nesse caso, o texto indica que esse é um remanescente escolhido por Deus. Isaías 4:2-6 e Isaías 6:13 descrevem ainda um remanescente que passou por um fogo purificador do juízo divino e emergiu como um povo santo. Outras palavras hebraicas que descrevem o remanescente também podem ser estudadas e incluem termos como p?lat, m?lat, y?thar, s?rid e ’a?arît, os quais também devem ser estudados em seus contextos. Qualquer pessoa pode fazer isso com uma boa concordância. Um estudo desse tipo revela que a Bíblia descreve o conceito de “remanescente” de várias maneiras: (1) O “remanescente histórico” é como o de Isaías 1:4-9, que são os sobreviventes de uma catástrofe. (2) O “remanescente fiel” são aqueles que permanecem fiéis a Deus e que cumprem todas as promessas de Seu povo. (3) Finalmente, o “remanescente escatológico” são aqueles que passam pelas tribulações do tempo do fim e saem vitoriosos no grande dia do Senhor para receber Seu reino. Em Apocalipse, o dragão fica furioso com a mulher e faz guerra com o “os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). “A natureza rica de cada um desses termos em seus contextos se soma aos outros até que, dentro de todo o contexto da Bíblia, o conceito emerge com clareza, e o estudante começa a entender a totalidade da ideia de ‘remanescente’” (Gerhard F. Hasel, Understanding the Living Word of God [Entendendo a Palavra Viva de Deus. Mountain View, Califórnia: Pacific Press, 1980, p. 113-116).

Ilustração

Duas descobertas ou avanços nos últimos tempos nos ajudam a entender a origem da Bíblia. A língua egípcia, escrita em hieróglifos, foi decifrada em 1822 por Jean Champollion. Essa descoberta desvendou os segredos perdidos de uma das civilizações mais antigas e nos permitiu comparar os textos egípcios antigos com o texto bíblico. Várias contribuições interessantes surgiram ao longo do tempo: (1) Muitos dos lugares geográficos mencionados na Bíblia foram registrados pelos egípcios que regularmente negociavam com Canaã. Encontrou-se muita correspondência e exatidão entre os nomes e locais mencionados no Egito e na Bíblia. (2) Havia numerosas palavras emprestadas dos egípcios encontradas particularmente nos livros do Pentateuco. Os estudiosos documentaram várias palavras-chave, como tevah, a palavra “arca”, que deriva da palavra egípcia que significa “caixa”, “baú” ou “cofre”. Essa palavra é usada tanto para a arca de Noé quanto para o cesto em que Moisés foi colocado quando era bebê. O nome Egito usado na Bíblia é Mitzraim. Esse nome é uma palavra dupla em hebraico que vem do egípcio msr, a palavra para Egito. O final duplo indica as “duas terras” do Alto e Baixo Egito. Expressões do idioma egípcio também são usadas. A expressão “braço estendido”, usada para descrever a proteção divina, é uma expressão egípcia comum de força. Títulos egípcios, bem como maneiras e expressões idiomáticas, foram usados pelo autor e aparecem vários nomes próprios egípcios. Todas essas descobertas apontam para a conclusão de que os primeiros livros da Bíblia foram escritos durante a geração do Êxodo e que o autor estava intimamente familiarizado com o Egito, seus costumes e sua história. Moisés certamente tinha a instrução e os antecedentes necessários para escrever os livros de Gênesis a Deuteronômio, como a Bíblia costuma afirmar.

Outra descoberta está relacionada ao fato de Moisés ser o primeiro escritor da Bíblia. A invenção do alfabeto, derivado dos hieróglifos egípcios, ocorreu na península do Sinai cerca de um século antes do Êxodo. Esse grande avanço na comunicação simplificou a escrita e possibilitou a alfabetização das pessoas comuns. Moisés, então, poderia ter escrito não em hieróglifos egípcios complicados, mas no alfabeto proto-cananeu simplificado que acabaria por se transformar no hebraico. O tempo de Deus é sempre perfeito para colocar Sua mensagem nas mãos do Seu povo.

Escrituras

Outros conceitos e palavras na Bíblia são inteiramente únicos. No relato da criação, há mais ênfase na criação da humanidade do que em qualquer outro elemento ou criatura. A humanidade é colocada no ápice da criação. É o trabalho da trindade divina conforme Eles proclamam Sua intenção: “Façamos o homem à Nossa imagem” (Gn 1:26). A ênfase tríplice desse verso no verbo bara’, “criar”, reitera a intenção de Deus de criar unicamente homem e mulher à Sua imagem e semelhança. O contexto imediato de Gênesis 1 indica que Elohim, “Deus”, em Sua majestosa pluralidade, e ruach Elohim, “o Espírito de Deus”, estão envolvidos na obra de criação (Gn 1:1, 2). João 1:1-3 deixa claro que Jesus era o Agente da criação, pois “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez”. Ao permitir que as Escrituras interpretem a si mesmas, aprendemos que o pronome “nossa”, em Gênesis 1:26, incluía todos os três membros da Divindade. Sendo assim, a humanidade foi criada em relacionamento para relacionamento, a fim de que pudessem realizar o plano de Deus: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a Terra” (Gn 1:28). Homem e mulher foram criados para comungar com Deus no sábado que Ele criou para eles (Gn 2:1-3, Êx 20:8-11). O desejo divino de habitar entre Seu povo continuará sendo Seu propósito por toda a eternidade.

Aplicação para a vida

Seria possível estudar a Bíblia profundamente sem entender as línguas bíblicas originais? Temos ferramentas como as concordâncias de Strong ou Young, disponíveis na internet e fisicamente, que estão mais acessíveis hoje do que nunca. Podemos estudar como as palavras são usadas nas frases, nos livros e ao longo das Escrituras. Os fundadores de nossa igreja não tinham todas as ferramentas que temos disponíveis no presente. Eles tinham suas Bíblias e concordâncias e seguiam cuidadosamente os princípios protestantes de interpretação bíblica e, sob a iluminação do Espírito Santo, puderam conhecer o plano da salvação e as verdades ensinadas pelos profetas e por Jesus. Abaixo estão algumas perguntas para consideração que você pode usar com sua classe de Escola Sabatina:

1. Saber que Moisés escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia nos ajuda a aceitar as Escrituras como uma fonte confiável? Relembre sua classe das palavras de advertência que Moisés deu ao povo no momento de sua morte (Dt 32:46, 47). Discuta como podemos praticar esse princípio em nossa família.

2. O que significa permitir que as Escrituras interpretem as Escrituras? Por que é importante entender o significado do que a própria Bíblia diz, em vez de importar para ela nossas próprias ideias?

3. Como o entendimento de uma palavra e sua profundidade de significado nos ajuda a ver o propósito divino para nossa vida? Que tipo de poder certas palavras têm no Antigo Testamento (por exemplo: justiça, misericórdia e esperança)? Como essas palavras afetam nosso conhecimento do caráter de Deus?

O ATEU EVANGELISTA

Esko estava com 63 anos e doente, quando apareceu na Igreja Adventista de Piikkiö, no sudoeste da Finlândia. “Não preciso de comida”, disse à diretora do armazém de alimentos Riita-Liisa Peltonen, enquanto pegava verduras, carne e pão. “É para meus amigos.” Riita-Liisa olhou com ternura para o homem obeso. O odor de suor e roupas sujas estava impregnado nele. Ele sofria de problemas sérios no fígado, devido a anos de alcoolismo. Seus olhos eram gentis. “Você é cristão?”, Riita-Liisa perguntou. Esko desviou os olhos. “Bem”, ele respondeu. “Tenho minha própria religião.” Riita-Liisa entendeu que ele era ateu como muitas pessoas na Finlândia, um país altamente secularizado. Com uma população de 5,5 milhões de habitantes, somente 4.800 são adventistas.

Esko voltou todas as semanas à igreja em Piikkiö, uma cidade com 7.500 habitantes, para arrecadar mantimentos para seus amigos, um casal chamado Pasi e Krista. Riitta-Liisa soube que Pasi possuía uma empresa de telhados na vizinha cidade portuária de Turku, mas os negócios haviam passado por dificuldades durante uma recessão econômica. Para lidar com isso, Pasi e Krista recorreram ao álcool.

O casal ficou surpreso quando Esko chegou em sua primeira visita a sua casa com os alimentos. “Onde você conseguiu estes alimentos?”, Krista perguntou. “Venha e veja,” ele respondeu. Mas, o casal não foi. Então, o único companheiro de Esko, um amado cachorro, faleceu. O homem ficou tão desanimado que não conseguia ficar sozinho em casa. Ele decidiu passar a noite na casa de Pasi e Krista. Para a surpresa de Krista, ele orou antes do jantar. “Como assim? Um ateu orando?”, ela perguntou. Ela nunca tinha visto isso antes!

Curiosa sobre as ações de Esko, ela decidiu verificar a igreja por si mesma e convidou o marido para acompanhá-la. Mas, para adquirir mais coragem, ela e Pasi beberam muito. Eles mal podiam ficar de pé enquanto esperavam na fila para conseguir comida na igreja. O casal voltou na semana seguinte e na outra. Depois de algum tempo, Krista se interessou pelas canções cristãs e pelas mensagens espirituais compartilhadas pelos membros da igreja enquanto as pessoas recolhiam comida. Ela começou a assistir aos cultos de sábado.

Esko notou seu interesse e sorriu. “Agora minha missão foi completa”, ele disse para ela. Pouco tempo depois, no final de 2017, ele morreu. Enquanto isso, Krista deixou de beber e foi batizada. Pasi notou as transformações da esposa e também entregou o coração a Jesus. “Eu encontrei a fé”, disse, e organizou o batismo no acampamento de verão adventista de 2018.

O casal se tornou ativo na igreja e participou de reuniões de oração. Pasi cozinhava na cozinha da igreja para as pessoas que iam à despensa. A enorme mudança nele era evidente para todos. Uma noite seu rosto brilhava de alegria enquanto ele cozinhava. Porém, na manhã seguinte, Krista o encontrou morto na cozinha de sua casa. Ele tinha 51 anos. O funeral foi realizado na igreja adventista e o culto deixou uma grande impressão à família que compareceu no culto.

Hoje Krista, com 40 anos, é ativa na igreja e a mãe começou a assistir aos cultos de sábado. Ao todo, dez pessoas foram batizadas nestes cinco anos desde que o armazém foi criado. Riitta-Liisa agradece a Deus por todos os batismos, mas provavelmente ela se sente mais impressionada sobre Esko. “Ele foi um ateu que levou os amigos a Cristo”, ela disse, “e ficou muito feliz quando seus amigos começaram a frequentar a igreja. Ele levou alguém a melhorar de vida.” 

Dicas da história

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Comentário da Lição da Escola Sabatina – 2º Trimestre de 2020
Tema Geral: Como interpretar as Escrituras
Lição 7 – 9 a 16 de maio

Idioma, texto e contexto

Autor: Isaac Malheiros
Editor: André Oliveira Santos
Revisora: Rosemara Santos

Isaac Malheiros

A importância de saber o contexto pode ser percebida lendo esse texto de maneira isolada: “E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram” (1Co 15:18). Afinal, quem morreu acreditando em Jesus está perdido?

Não. Basta ver o texto anterior para perceber que o apóstolo está argumentando de maneira hipotética: “Se Cristo não ressuscitou, é vã [...] a vossa fé” (1Co 15:17). Ou seja, apenas se Jesus não tivesse ressuscitado, então, os que morreram acreditando Nele estariam perdidos.

Outro exemplo: um evento de jovens adotou como lema a frase “Um ao outro ajudou, e ao seu irmão disse: Esforça-te” (Is 41:6, ACF). A ideia era exaltar o companheirismo e a amizade. O problema é que, no contexto, esse texto está falando das nações idólatras se unindo para deter o avanço do Libertador que Deus levantou.

Finalmente, outro exemplo: um pregador ensina que adorar a Deus tem recompensas, usando o texto: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (Mt 4:9). Aqui, o problema é óbvio: isso foi dito pelo diabo, ao tentar Jesus no deserto!

Uma palavra ou verso bíblico só podem ser entendidos corretamente dentro de seu contexto imediato, dentro do contexto do livro inteiro, e dentro do contexto da Bíblia inteira. Tudo isso deve ser levado em conta no estudo da Bíblia. Nesta semana, veremos a importância de conhecer as palavras bíblicas, bem como os textos e contextos em que são utilizadas.

1. A importância das palavras-chave

A Bíblia foi escrita em hebraico bíblico (o Antigo Testamento, com alguns pequenos trechos em aramaico), e em grego koinê (o Novo Testamento). Ao escrever a Bíblia, os escritores inspirados utilizaram palavras cuidadosamente escolhidas para expressar os conceitos e ideias. Portanto, estudar os sentidos de expressões bíblicas em hebraico e grego (e algumas em aramaico) pode levar o intérprete para mais perto do sentido original pretendido pelos escritores bíblicos.

Todo texto estudado possui palavras-chave (ou frases-chave) no contexto. O intérprete da Bíblia precisa identificar essas palavras e frases, e estudá-las. Hoje, é possível encontrar dicionários e léxicos das línguas bíblicas disponíveis on-line e em aplicativos gratuitos ou bem acessíveis. Geralmente, esses léxicos mostram a etimologia, o significado da raiz da palavra e estatísticas a respeito de suas ocorrências nas Escrituras.

No caminho de Emaús, Jesus mostrou que tudo o que a Escritura diz sobre um assunto deve ser levado em conta na interpretação (Lc 24:27-45). Isso não deve ser feito sem levar em conta o contexto de cada texto, assim obteremos todos os aspectos do tema.

Com uma boa concordância analítica, é possível consultar todas as ocorrências de uma palavra na língua original, e estudar as diferentes formas como tal palavra foi usada. No entanto, é bom lembrar novamente que o que determina o significado de uma palavra num texto é o contexto imediato e o contexto mais amplo.

Por exemplo, no Antigo Testamento, o título “o anjo do Senhor” pode referir-se a um anjo criado ou ao Filho de Deus pré-encarnado (Gn 16:7-13; 22:11-18; Êx 3:2-6; Jz 13:3-22). O contexto vai mostrar qual dos dois sentidos está em vista. Outro exemplo: o leão é um símbolo de Jesus ou do diabo (1Pe 5:8; Ap 5:5), bem como a serpente (Ap 20:2; Jo 3:14). É o contexto que vai definir.

2. A importância de usar boas versões

Para aproveitarmos a riqueza literária da Bíblia (e encontrar palavras e frases-chave), é importante usar boas traduções. No tempo de Jesus já existia uma versão grega do Antigo Testamento, conhecida como “Septuaginta” (também chamada de “LXX”), que foi utilizada pelos escritores do Novo Testamento. Portanto, uma tradução fiel é um elemento importante no estudo, compreensão e ensino das Escrituras (At 8:30-35).

A tradução é uma tarefa difícil, pois o tradutor tem que preencher lacunas e transpor barreiras culturais para expressar em português as ideias escritas em hebraico, aramaico e grego. Por isso, devemos ser cautelosos na escolha das versões.

Uma versão bíblica preparada por uma única denominação pode ser tendenciosa ou até mesmo distorcida para apoiar certas doutrinas (os adventistas nunca produziram uma “Bíblia adventista”, e nem precisam disso). É mais prudente dar preferência às versões produzidas por comissões editoriais, com a participação de tradutores e especialistas de diferentes pontos de vista, em vez de um único tradutor. Também é preciso ter cuidado com as Bíblias comentadas, e ter plena consciência da corrente teológica seguida pelo(s) comentarista(s).

Algumas traduções para a linguagem de hoje e paráfrases (como a Bíblia “A Mensagem”) são muito interpretativas, e correm o risco de distorcer temas bíblicos importantes. Essas Bíblias podem ser úteis para leituras devocionais, mas devem ser comparadas com versões mais formais.

Por fim, mesmo que não saiba hebraico/aramaico e grego, o estudante da Bíblia pode comparar as versões em português com o texto original usando Bíblias Interlineares (português-grego ou português-hebraico) impressas, ou encontradas on-line, em softwares e aplicativos gratuitos. Interpretar a Escritura é tarefa de toda a igreja, e não apenas de uns poucos especialistas (At 17:11; Ef 3:18, 19; 5:10, 17).

3. Cuidado com a alegorização e a aplicação descontextualizada

Alegorizar é dar significado mais profundo a palavras e detalhes periféricos de uma história bíblica (como, por exemplo, afirmar que cada pedra utilizada por Davi contra Golias simboliza uma virtude cristã). A alegorização não tem limites, fica à mercê da criatividade de cada leitor, e pode distorcer completamente as palavras de um texto. Por isso, devemos sempre preferir o significado literal.

Em geral, a Bíblia possui um sentido literal definido, e não múltiplos significados subjetivos. O estudante da Bíblia não precisa procurar algum significado místico, secreto ou alegórico, escondido no sentido literal. Historicamente, os adventistas têm priorizado a busca pelo sentido literal, rejeitando leituras místicas e a busca de sentidos ocultos no texto bíblico.

Apesar dos autores inspirados nem sempre compreenderem plenamente o que escreveram (1Pe 1:11, 12), Ellen White alerta contra os falsos mestres que “ensinam que as Escrituras têm um sentido místico, secreto, espiritual, que não transparece na linguagem empregada” (O Grande Conflito, p. 344, 598). A linguagem da Bíblia deve ser explicada de acordo com o seu óbvio sentido, a menos que seja empregado um símbolo ou uma figura (O Grande Conflito, p. 599).

Outro problema é o da aplicação descontextualizada: a aplicação de um texto não é um passe-livre para fazermos a Bíblia assinar embaixo de nossas próprias ideias. A aplicação deve estar sempre em harmonia com o sentido e a intenção original do texto, em seu devido contexto. É comum usarmos, por exemplo, Lucas 6:38 (“Dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante”) para falar de dízimos e ofertas. Mas uma simples leitura do contexto imediato revela que o assunto ali não é esse.

Atentos a esses princípios, alcançaremos o objetivo estabelecido por Paulo a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2:15).

Conheça o autor dos comentários para este trimestre: Isaac Malheiros é pastor, casado com a professora Vanessa Meira, e pai da pequena Nina Meira, de 8 anos. Tem atuado por 16 anos como pastor na área educacional, como capelão e professor, e ama ensinar a ler e interpretar a Bíblia. Atualmente, é pastor dos universitários e professor do Instituto Adventista Paranaense (IAP). É doutor em teologia (Novo Testamento), mestre em teologia (Estudos de texto e contexto bíblicos) e especialista em Ensino Religioso e Teologia Comparada.