Lição 12
13 a 19 de junho
Lidando com passagens bíblicas difíceis
Sábado à tarde
Ano Bíblico: Jó 35-37
Verso para memorizar: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles” (2Pe 3:15, 16).
Leituras da semana: 2Tm 2:10-15; 1Cr 29:17; Tg 4:6-10; Gl 6:9; At 17:11

Ao discutir as cartas do apóstolo Paulo, Pedro escreveu que nelas e em algumas outras partes das Escrituras existem “certas coisas difíceis de entender” (2Pe 3:16). Essas palavras são deturpadas ou modificadas por pessoas “ignorantes e instáveis [...] para a própria destruição” (2Pe 3:16). Pedro não disse que todas as coisas são difíceis de entender, mas que apenas algumas são.

E sabemos disso, não é mesmo? Qual leitor sincero da Bíblia já não se deparou com textos que parecem estranhos e difíceis de entender? Certamente, em algum momento, todos já tivemos essa experiência.

Por isso, examinaremos nesta semana, não tanto textos difíceis em si, mas quais podem ser as razões para esses desafios e de que maneira, como fiéis investigadores da verdade da Palavra de Deus, podemos solucioná-los. Algumas dessas declarações desafiadoras podem nunca ser esclarecidas aqui na Terra. Ao mesmo tempo, a maioria dos textos da Bíblia não apresenta dificuldade, e não devemos permitir que um pequeno número de textos difíceis enfraqueça nossa confiança na fidedignidade e autoridade da Palavra de Deus como um todo.

Domingo, 14 de junho
Ano Bíblico: Jó 38-42
Possíveis razões para aparentes contradições

1. Leia 2 Timóteo 2:10-15. Paulo admoestou Timóteo a ser diligente e a manejar “bem a palavra da verdade”. Qual é a mensagem importante para nós nesse texto? Assinale a alternativa correta:

A. (  ) Não precisamos estudar muito a Bíblia, pois é fácil entendê-la.

B. (  ) Devemos conhecer a Palavra e usá-la corretamente.

Nenhum estudioso honesto das Escrituras negará o fato de que existem na Bíblia assuntos difíceis de entender. Isso não deve nos perturbar. De certa maneira, essas dificuldades devem ser esperadas. Afinal, somos seres imperfeitos e finitos, e não temos um conhecimento abrangente de todas as áreas do aprendizado, muito menos das verdades divinas. Portanto, quando o ser humano finito tenta entender a sabedoria infinita das Escrituras, haverá algum impedimento. Essa dificuldade, contudo, não prova de maneira nenhuma que as declarações da Bíblia sejam falsas.

Os que rejeitam o ensinamento bíblico da revelação e da inspiração divinas muitas vezes declaram que essas dificuldades são contradições e erros. Visto que, para eles, a Bíblia é mais ou menos um livro humano, eles acreditam que ela deve conter imperfeições e erros. Com essa mentalidade, muitas vezes não há tentativas sérias de procurar uma explicação que leve em consideração a unidade e confiabilidade das Escrituras como resultado de sua inspiração divina. As pessoas que começam a questionar as primeiras páginas das Escrituras (o relato da criação, por exemplo) podem em breve também ser levadas a colocar em dúvida e incerteza grande parte do restante das Escrituras.

Algumas discrepâncias nas Escrituras podem se dar devido a pequenos erros de copistas ou tradutores. Ellen G. White afirmou: “Alguns nos olham seriamente e dizem: ‘Não acha que deve ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?’ Tudo isso é provável, e a mente que for tão estreita que hesite e tropece nessa possibilidade ou probabilidade estaria igualmente pronta a tropeçar nos mistérios da Palavra Inspirada, porque sua mente fraca não pode ver através dos desígnios de Deus. Sim, com a mesma facilidade tropeçariam em fatos simples, que a mente comum aceita e em que discerne o Divino, e para quem as declarações de Deus são simples e belas, cheias de essência e riqueza. Mesmo todos os erros não causarão dificuldade a alguém, nem farão tropeçar os pés daquele que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 16).

Por que é tão importante nos aproximarmos da Bíblia com humildade e submissão?
Segunda-feira, 15 de junho
Ano Bíblico: Sl 1-9
Abordagem sincera e cuidadosa

Você já encontrou um texto ou conjunto de textos que achou difíceis de serem harmonizados com outros textos ou com a realidade em geral? É difícil imaginar que, em um momento ou outro, você não tenha enfrentado esse problema. A questão é: como você reagiu? Ou, ainda mais importante, como você deve reagir?

2. Leia 1 Crônicas 29:17; Provérbios 2:7; 1 Timóteo 4:16. Como devemos lidar com passagens difíceis? Assinale a alternativa correta:

A. ( ) De modo sincero, honesto e cuidadoso.
B. ( ) Defendendo de forma tendenciosa as nossas ideias.

Somente quando somos sinceros podemos enfrentar as dificuldades de maneira adequada. A sinceridade nos resguarda de fugir de quaisquer dificuldades ou de tentar ocultá-las. A honestidade também nos impede de dar respostas superficiais, que realmente não suportam a um exame minucioso. Deus Se agrada da sinceridade e da integridade. Portanto, devemos imitar Seu caráter em tudo o que fazemos, mesmo no estudo da Bíblia.

As pessoas sinceras lidam com as dificuldades da Bíblia de tal maneira que são cuidadosas em não apresentar informações fora do contexto, distorcer a verdade com linguagem tendenciosa nem enganar os outros por meio da manipulação de evidências. É muito melhor aguardar uma resposta sustentável para uma dificuldade do que tentar apresentar uma solução evasiva ou insatisfatória. Um efeito colateral positivo da sinceridade no estudo da Bíblia é que isso gera confiança, e a confiança está no cerne de todos os relacionamentos pessoais saudáveis. Ela convence as pessoas muito mais do que as respostas frágeis. É melhor afirmar não saber como responder à pergunta ou explicar com precisão o assunto do que tentar forçar o texto a dizer o que se quer que ele diga, o que leva a conclusões equivocadas.

Pessoas cuidadosas desejam sinceramente conhecer a verdade da Palavra de Deus e, portanto, constantemente se certificam de que não chegaram a conclusões precipitadas com base em conhecimento limitado ou evidência frágil. Pessoas atenciosas decidem não negligenciar nenhum aspecto ou detalhe importante. Elas não são apressadas em seu raciocínio, mas meticulosas e diligentes em seu estudo da Palavra de Deus e de todas as informações relacionadas.

O que você deve fazer em situações em que não entende completamente certo texto bíblico ou quando o assunto parece não se encaixar na sua compreensão da verdade?
Terça-feira, 16 de junho
Ano Bíblico: Sl 10-17
Abordagem humilde

3. Leia Tiago 4:6-10; 2 Crônicas 7:14; e Sofonias 3:12. Por que a humildade é importante quando tentamos entender passagens difíceis das Escrituras?

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Muitas pessoas chegaram à maravilhosa compreensão e humilhante percepção de que são dependentes de algo e de alguém além de si mesmas. Elas percebem que não são o padrão de todas as coisas. Essas pessoas valorizam mais a verdade do que a necessidade do ego de estar certas e estão cientes de que a verdade não é criada por elas mesmas, mas é aquilo que as confronta. Talvez a maior verdade compreendida por essas pessoas seja quanto elas realmente sabem pouco da verdade. Como Paulo descreveu, tais indivíduos sabem que veem “como em espelho, obscuramente” (1Co 13:12).

Os benefícios dessa humildade de pensamento são múltiplos: o hábito da investigação humilde é a base de todo crescimento no conhecimento, pois gera uma liberdade que naturalmente produz um espírito ensinável. Isso não significa que as pessoas humildes frequentemente estejam necessariamente equivocadas, nem que elas sempre mudem de ideia e nunca tenham uma convicção firme. Significa apenas que são submissas à verdade bíblica. Elas estão cientes das limitações de seu conhecimento e, portanto, são capazes de expandi-lo e de aumentar sua compreensão da Palavra de Deus de uma forma que a pessoa intelectual, arrogante e orgulhosa não fará.

“Todos os que forem à Palavra de Deus em busca de orientação, com mente humilde e inquiridora, determinados a conhecer os conceitos da salvação, compreenderão o que dizem as Escrituras. Mas os que trazem para a investigação da Palavra um espírito que ela não aprova, levarão da busca um espírito que ela não transmitiu. O Senhor não falará a uma mente indiferente. Ele não desperdiça Sua instrução com quem é voluntariamente irreverente ou impuro. Mas o tentador educa toda mente que se entrega às suas sugestões e está disposta a tornar sem nenhum efeito a santa Lei de Deus.

“Precisamos humilhar nosso coração e, com sinceridade e reverência, buscar a Palavra da vida; pois apenas a mente humilde e contrita pode ver a luz” (Ellen G. White, The Advent Review and Sabbath Herald, 22 de agosto de 1907).

Como equilibrar corretamente a humildade e a certeza? Por exemplo, como você responderia à acusação: “Como os adventistas do sétimo dia podem ter tanta certeza de que estão certos sobre o sábado e que a maioria das pessoas está errada”?
Quarta-feira, 17 de junho
Ano Bíblico: Sl 18-22
Determinação e paciência

4. Em Gálatas 6:9, Paulo falou sobre a persistência em fazer o bem aos outros. Essa mesma atitude é necessária para lidar com questões difíceis? Por que a determinação e a paciência são importantes na solução de problemas?

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A verdadeira realização requer sempre tenacidade. Geralmente não damos o devido valor ao que obtemos com demasiada facilidade. As dificuldades na Bíblia nos dão a oportunidade de colocar nosso cérebro para funcionar, e a determinação e persistência com que buscamos uma solução revela quanto aquela questão é importante para nós. É bem gasto todo o tempo que passamos estudando a Bíblia para descobrir mais sobre o seu significado e sua mensagem. Talvez a experiência de pesquisar diligentemente as Escrituras em busca de uma resposta, mesmo que por um longo tempo, seja uma bênção maior do que a própria solução para o problema, se, por fim, a encontrarmos. Afinal, quando encontramos uma solução para um problema inquietante, a Palavra de Deus se torna muito preciosa a nós.

A demora para resolver uma dificuldade não prova que ela não possa ser solucionada. Frequentemente desconsideramos esse fato evidente. Muitos, quando encontram uma dificuldade na Bíblia, pensam um pouco e não conseguem encontrar uma solução. Então concluem que o problema não pode ser resolvido. Alguns questionam a confiabilidade da Bíblia.
Mas não devemos nos esquecer de que pode haver uma solução fácil, mesmo que em nossa limitada sabedoria, ou ignorância, não a percebamos. O que pensaríamos de um iniciante em álgebra que, tendo tentado em vão por meia hora resolver um problema difícil, declara que não há solução possível para o problema, porque ele não a encontrou? A mesma coisa vale para nós no estudo da Bíblia.

Quando algumas dificuldades desafiam até mesmo seus mais fortes esforços para resolvê-las, deixe-as de lado por algum tempo e, enquanto isso, pratique o que Deus lhe mostrou claramente. Algumas percepções espirituais são obtidas somente depois que estamos dispostos a seguir o que Deus já nos disse para fazer. Portanto, seja persistente e paciente em seu estudo da Bíblia. Afinal, a paciência é uma virtude dos cristãos (veja Ap 14:12).

O que aprendemos com pessoas que estudaram com diligência e paciência passagens desafiadoras da Bíblia? Como incentivar os outros a não desistir da busca da verdade? Por que não precisamos ter medo quando nos deparamos com uma passagem difícil nas Escrituras?
Compartilhe um livro ou um vídeo missionário com alguém hoje.
Quinta-feira, 18 de junho
Ano Bíblico: Sl 23-30
Abordagem bíblica e com espírito de oração

5. Leia Atos 17:11; 8:35; 15:15, 16. O que os apóstolos e os membros da igreja primitiva fizeram quando foram confrontados com questões difíceis? Por que as Escrituras ainda são a melhor fonte para sua própria interpretação?

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A melhor solução para as dificuldades da Bíblia ainda se encontra na própria Bíblia. Lidamos melhor com os problemas bíblicos quando os estudamos à luz de todas as Escrituras, em vez de apenas lidarmos com um único texto isoladamente dos outros ou de toda a Palavra. Devemos, de fato, usar a Bíblia para compreender a própria Bíblia. Aprender a escavar as grandes verdades encontradas nas Escrituras é uma das coisas mais importantes que podemos fazer.

Se você não entende uma passagem das Escrituras, tente reunir algum conhecimento de outras passagens bíblicas que tratam do mesmo assunto. Sempre busque encontrar declarações claras das Escrituras para esclarecer as passagens que são menos claras. Também é muito importante nunca obscurecer declarações inequívocas das Escrituras, trazendo a elas passagens difíceis de entender. Em vez de usar fontes extrabíblicas, a filosofia ou a ciência para explicar o significado da Bíblia, devemos permitir que o próprio texto das Escrituras nos revele seu significado.

Dizem que, quando estamos ajoelhados, literalmente olhamos para as dificuldades de uma nova perspectiva, pois, em oração, sinalizamos que precisamos de ajuda divina para interpretar e compreender as Escrituras. Em oração, buscamos a iluminação de nossa mente por meio do mesmo Espírito Santo que inspirou os escritores bíblicos a escrever o que escreveram.

Em oração, nossos motivos são revelados e podemos dizer a Deus por que desejamos entender o que lemos. Em oração, pedimos ao Senhor que abra nossos olhos para a Sua Palavra e nos dê um espírito disposto a seguir e praticar a Sua verdade (isso é fundamental!). Quando Deus nos guia mediante Seu Espírito Santo em resposta às nossas orações, Ele não contradiz o que revelou na Bíblia. Deus sempre estará em harmonia com a Bíblia. O Senhor confirmará o que Ele mesmo inspirou os escritores bíblicos a nos comunicar e edificará com base nesses escritos.

Como a oração ajuda você a ter a atitude correta para compreender mais e obedecer à Palavra?
Peça a Deus a capacidade de ser fiel com alegria e generosidade.
Sexta-feira, 19 de junho
Ano Bíblico: Sl 31-35
Estudo adicional

Texto de Ellen G. White: Caminho a Cristo, p. 105-113 (“A Certeza da Vitória”); seção 8 do documento “Métodos de Estudo da Bíblia”, que pode ser encontrado em http://www.centrowhite.org.br/metodos-de-estudo-da-biblia.

Na Bíblia, há muitos mistérios que o ser humano finito julga difíceis de compreender e que são muito profundos para explicarmos plenamente. Por isso, precisamos de humildade e disposição para aprender das Escrituras em espírito de oração. A fidelidade às Escrituras permite ao texto bíblico, mesmo que seu significado vá contra nossa natureza, dizer o que realmente diz. A fidelidade às Escrituras respeitará o texto em vez de alterá-lo, como alguns fazem, ou evitar seu verdadeiro significado.

“Quando a Palavra de Deus é aberta sem reverência e oração, quando os pensamentos e as afeições não estão centralizados em Deus nem em harmonia com Sua vontade, a mente fica obscurecida pelas dúvidas. O próprio estudo da Bíblia fortalece o ceticismo. O inimigo apodera-se dos pensamentos e sugere interpretações incorretas. Sempre que os homens não buscam, por palavras e atos, estar em harmonia com Deus, por mais preparados que sejam, estão sujeitos a errar em sua compreensão das Escrituras. Não é seguro confiar em suas explicações. Os que abrem as Escrituras para encontrar discrepâncias não têm conhecimento espiritual. Com visão distorcida, verão muitas razões para dúvida e descrença em coisas que são realmente claras e simples” (Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 111).

Perguntas para consideração

1. Por que as atitudes em relação à Bíblia são tão essenciais para uma compreensão adequada das Escrituras? Quais atitudes são cruciais para entendermos a Palavra?

2. Por que não deveríamos nos surpreender ao encontrar na Bíblia assuntos difíceis de explicar e entender? Afinal, quantos temas do mundo natural são difíceis de entender? Até hoje, por exemplo, a água está repleta de mistérios.

3. Como podemos responder à questão de Lucas 23:43, na qual (segundo a maioria das traduções) Jesus teria dito ao ladrão que ele estaria no Céu com o Senhor naquele dia? Quais são as maneiras sinceras de explicar esse texto? Textos como João 20:17, Eclesiastes 9:5 e 1 Coríntios 15:16-20 nos ajudam a entender o que está em questão aqui?

Respostas e atividades da semana: 1. B. 2. A. 3. Porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graças aos humildes. 4. Sim, pois ela não permite que a pessoa desista de seus objetivos até que as dúvidas sejam resolvidas. Somente aquele que persiste consegue chegar ao resultado desejado. 5. Eles buscavam conferir nas Escrituras acerca do que ouviam. Buscar as próprias Escrituras é a melhor maneira de interpretá-las, pois elas lançam luz sobre si mesmas.

Resumo da Lição 12
Lidando com passagens bíblicas difíceis

Lidando com passagens bíblicas difíceis

Textos-chave: 2Pd 3:15, 16; 2Tm 2:15; 1Tm 4:16; 1Cr 29:17; Pv 2:7; Tg 4:6; Gl 6:9

Esboço

Em algum momento, todo estudante da Bíblia encontra algumas passagens das Escrituras que são difíceis de entender. Essa dificuldade não deve nos surpreender. Qualquer um que se depare com outra cultura e visão de mundo sabe que, inevitavelmente, haverá coisas que não serão compreendidas de imediato, pois não são familiares. O mesmo se dá no caso da cosmovisão das Escrituras. Se entendêssemos tudo que está na Bíblia, não haveria necessidade de se obter mais compreensão e haveria menos incentivo para crescer no conhecimento espiritual. Nossa maneira de abordar passagens difíceis não apenas revela muito sobre nossa atitude em relação às Escrituras, mas mostra se temos seriedade na busca de respostas. A quantidade de tempo e energia mental que investimos para lidar com as dificuldades, tentando encontrar soluções fiéis às Escrituras revela quanto elas são importantes para nós e quanto é importante encontrar as respostas. Passagens difíceis não apenas nos desafiam, mas também oferecem uma oportunidade única de nos aprofundarmos no conhecimento e pesquisarmos mais detidamente as Escrituras, para que possamos entender ainda mais os escritores da Bíblia e a mensagem de Deus. Não precisamos ter medo de encontrar passagens que não entendemos. Em vez disso, devemos ser gratos até mesmo pelas passagens desafiadoras e difíceis da Bíblia, pois oferecem uma oportunidade de crescer em nosso entendimento. A presença de algumas atitudes importantes tornarão essas dificuldades uma bênção para nós, enquanto sua ausência farão desses desafios uma maldição.

COMENTÁRIO

Possíveis razões para dificuldades e aparentes contradições

Muitos estudiosos que não acreditam na inspiração divina das Escrituras supõem que elas são contraditórias e cheias de erros, pois, em sua opinião, ser humano significa ser falível e imperfeito. Embora seja verdade que os seres humanos são falhos e nem sempre são verdadeiros, também é fato que mesmo pessoas imperfeitas são totalmente capazes de discernir e falar a verdade. Se até seres falíveis são capazes de comunicar a verdade fielmente, quanto mais devemos esperar que Deus, que não pode mentir (Hb 6:18), foi capaz de impedir que os escritores da Bíblia se enganassem no que escreveram.

Quando abordam a Palavra divina com dúvida, alguns aceitam sua veracidade somente se houver indubitável evidência e prova. Em vez de conceder às Escrituras o benefício da dúvida quando não têm todas as informações disponíveis, muitos estudiosos críticos aceitam essas passagens como confiáveis e verdadeiras apenas onde a razão humana demonstra sua veracidade ou onde evidências externas revelam claramente que as Escrituras estão em harmonia com descobertas arqueológicas ou científicas. Quando esses critérios externos são a norma final para o que é aceitável, e as Escrituras às vezes não os cumprem, esses intérpretes acreditam que encontraram contradições.

Ao lidar com as afirmações bíblicas, precisamos nos lembrar de que os escritores da Bíblia costumavam usar linguagem comum e cotidiana, e um estilo não técnico. Por exemplo, ao falarem do nascer do Sol (Nm 2:3; Js 19:12) e do pôr do Sol (Dt 11:30; Dn 6:14) não usaram a linguagem científica. Eles simplesmente descreviam as coisas do modo como as viam acontecer. Além disso, não se deve confundir uma convenção social com uma afirmação científica. A necessidade de precisão técnica varia de acordo com a situação em que uma declaração é feita. Portanto, imprecisão não é o mesmo que inverdade.

Pode ser que algumas discrepâncias tenham ocorrido devido a pequenas variações e erros causados por copistas e tradutores da Bíblia. A maioria desses erros de transmissão são mudanças não intencionais, em que copistas confundiram letras semelhantes ou, ao copiar um texto, eles acidentalmente “pularam para outra palavra ou linha com a mesma palavra ou letra. Essa tendência é agravada quando não há espaços entre vocábulos ou sinais de pontuação, o que certamente foi o caso dos textos gregos e também pode ter acontecido no hebraico” (Paul D. Wegner, A Student’s Guide to Textual Criticism of the Bible [Guia do Estudante de Crítica Textual da Bíblia. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2006, p. 46). Às vezes, ocorre uma inversão na ordem de duas letras ou palavras. Por exemplo, em João 1:42, o nome “João” [I?annou], como é encontrado em vários manuscritos, é lido “Jonas” [I?na] em alguns outros manuscritos (ver Wegner, A Student’s Guide to Textual Criticism of the Bible, p. 48, para esse e outros exemplos). Tais problemas não devem nos perturbar. Antes de mais nada, os manuscritos bíblicos são de longe os mais confiáveis e mais bem preservados do mundo antigo. Nenhuma outra literatura é transmitida em tantos manuscritos e copiada tão meticulosamente em relação à composição original quanto os manuscritos bíblicos. Segundo, essas pequenas alterações podem ser corrigidas à luz de outras evidências disponíveis. Elas não afetam nenhuma doutrina ou ensino importante da Bíblia. Embora os copistas e tradutores em geral tenham sido extremamente cuidadosos em seus trabalhos, eles não foram inspirados como os autores bíblicos originais. Ellen G. White estava ciente de que “pode ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores. Mas, para ela, “todos os erros não causarão dificuldade a uma alma, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 16).

Lide com as dificuldades de forma honesta e cuidadosa

Deus Se agrada da honestidade (1Cr 29:17). Se buscarmos honestamente a verdade, a encontraremos. A honestidade vencerá a longo prazo. Lidar honestamente com as dificuldades significa que não as negamos nem distorcemos as evidências, mas lidamos com elas de maneira imparcial. É muito melhor admitir honestamente que não temos uma resposta satisfatória para uma dificuldade do que distorcer as evidências para torná-las mais ajustáveis à nossa opinião. Respostas superficiais não resistirão ao teste do escrutínio e lançarão uma sombra sobre nossa credibilidade. Uma mentira piedosa é talvez a mais destrutiva de todas, porque lança uma sombra de dúvida sobre o caráter de Deus e Sua Palavra e põe em cheque até a nossa própria integridade. Se ignorarmos a honestidade na busca por respostas, mataremos nossa consciência e colocaremos em risco nossa vida espiritual. Por fim, estaremos em perigo de não valorizar a verdade, a ponto, talvez, de até sermos incapazes de distinguir a verdade da falsidade. Mas a honestidade traz consigo uma bênção: estabelece confiança com as próprias pessoas a quem queremos conquistar pela verdade da Bíblia. A honestidade é a base de todo relacionamento pessoal saudável. A honestidade deve ser associada ao cuidado. Ela espera e não se apressa em tirar conclusões precipitadas, com base em informações limitadas. A honestidade fará tudo que for necessário para avaliar cuidadosamente as evidências disponíveis.

Pense em exemplos de respostas desonestas sobre a Bíblia e o impacto negativo (a longo prazo) que elas tiveram sobre os outros. Você pode citar alguma situação em que respostas honestas a perguntas bíblicas tiveram um impacto positivo (a longo prazo) sobre quem as ouviu?

Lide com dificuldades humildemente

Humildade é o oposto de orgulho. O orgulho nos impede de apreciar as ideias e realizações dos outros. A pessoa que tem essa atitude não sente necessidade de aprender, porque pensa que já sabe tudo. Aquele que é humilde, por outro lado, reconhece que a verdade não é algo de sua autoria, mas é inspirada por Deus (ver 2Tm 3:16). As pessoas humildes têm disposição para aprender e não afirmam ter todas as respostas. Elas podem expandir seu conhecimento da Palavra de Deus de uma maneira que os arrogantes e orgulhosos são incapazes de fazer. Visto que o orgulho está tão profundamente arraigado em nós e a humildade vai contra a lógica de nossa cultura e sociedade, uma postura humilde é talvez a posição mais difícil de se assumir ao se estudar a Bíblia.

Você conhece alguém que tem um caráter intelectual genuinamente humilde? Quem é? O que mais o impressiona sobre a vida e a erudição dessa pessoa?

Reflita sobre a seguinte declaração de Ellen G. White sobre esse assunto: “Os que querem duvidar têm suficiente oportunidade para isso. Deus não Se propõe fazer desaparecer toda ocasião para a incredulidade. Apresenta evidências que precisam ser cuidadosamente investigadas, com espírito humilde e susceptível ao ensino; e todos devem julgar pela força dessas mesmas evidências” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 290)

Lide com as dificuldades com determinação e paciência

Algumas dificuldades desafiam respostas fáceis e rápidas, uma vez que exigem determinação e paciência. Durante séculos, os estudiosos ficaram intrigados com uma das discrepâncias mais desconcertantes das Escrituras: os números diferentes dos reinados dos reis hebreus no Antigo Testamento. A Bíblia apresenta muitas informações sobre esses reis, mas quando elas são reunidas, parecem contraditórias. Teria sido fácil para o estudioso adventista Edwin Thiele aceitar essa discrepância não resolvida, mas como ele acreditava na veracidade e confiabilidade das Escrituras, estava determinado a não desistir e, durante anos (!) estudou todas as evidências. Ao estudar com atenção os dados bíblicos e compará-los com fontes extrabíblicas, finalmente conseguiu mostrar que métodos diferentes foram usados para contar os anos dos reinados dos reis hebreus. Sua solução é coerente com o registro das Escrituras e os registros de outras nações do mundo antigo. Seu livro The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings [Os Misteriosos Números dos Reis Hebreus] (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1983), tornou-se uma obra de referência, amplamente reconhecida nos círculos acadêmicos, muito além das fronteiras da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Part 3: Aplicação para a vida

Muitos dos chamados erros não são resultado da revelação de Deus, mas das nossas interpretações erradas. Eles surgem não de alguma obscuridade da Bíblia, mas da cegueira e preconceito do intérprete. No entanto, existem algumas dificuldades bíblicas que desafiam soluções rápidas, visto que são difíceis de entender, mesmo para a pessoa mais honesta e determinada. Mas apenas porque não foi possível encontrar uma solução para um problema específico não significa que não exista nenhuma resposta. É bem provável que outros cuidadosos pesquisadores das Escrituras tenham lutado com a mesma dificuldade muito antes de mim, e provavelmente haja uma resposta, mesmo que eu não esteja ciente disso.

Mas também podemos agir como Daniel quando confrontado com passagens das Escrituras que ele não entendeu. O profeta orou intensamente (ver Dn 8:27 a 9:27). Quando nos ajoelhamos podemos obter uma perspectiva completamente nova sobre alguns problemas.

Em quais situações a oração fez diferença na sua vida ao lidar com perguntas difíceis? Compartilhe sua experiência.

Para obter mais princípios e exemplos específicos sobre como lidar com passagens difíceis, consulte Gerhard Pfandl (ed.), Interpreting Scripture: Bible Questions and Answers [Interpretando as Escrituras: Perguntas e Respostas da Bíblia], Biblical Research Institute Studies 2 [Estudos do Instituto de Pesquisa Bíblica 2] (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2010).

LIÇÕES EM MEIO AO SOFRIMENTO

Sou Axel Domingues e tive uma irmã que cometeu suicídio aos 14 anos de idade. Após o período de luto, minha mãe decidiu ter outro bebê, uma menina. Para seu desapontamento, deu à luz a mim, um menino. Fui criado por minha mãe em Faro, cidade localizada na região sul de Portugal, com um irmão de nove anos mais velho, enquanto nosso pai vivia no Oriente Médio,  trabalhando na construção. 

Minha mãe estava sempre triste. Essa tristeza ficou mais profunda quando papai pediu divórcio e levou meu irmão com ele. Então, ela foi hospitalizada com câncer e eu, que estava com onze anos, foi morar com parentes. Mamãe nunca frequentou uma igreja, mas os familiares com quem passei a morar me levavam todos os domingos. Enquanto aprendia sobre Deus, orava pela cura de minha mãe. Após dois anos, ela faleceu. Aquilo não fazia nenhum sentido para mim. Conclui que Deus era uma fábula. Deixei de ir à igreja e, quando meu pai voltou à Portugal, mudei para sua casa com a nova família.

A vida saiu do controle quando entrei na universidade. Passei a beber e usar drogas. Envolvime com músicas de péssima qualidade e pratiquei satanismo. Os encontros com os espíritos me amedrontaram e percebi que um reino espiritual existia além do que as pessoas podiam ver a olho nu. Aos 20 anos, comecei a sofrer as consequências das más escolhas. Eu vivia em constante temor dos maus espíritos. Queria deixar de fumar e usar drogas, mas não conseguia.

Então, soube que um de meus amigos, um ateu viciado em drogas, foi batizado. “Qual o seu problema?”, eu perguntei. “Por que você foi batizado?” Ele respondeu: “Li a Bíblia e comecei a acreditar nela.” Por algum motivo, desabafei sobre meus medos dos maus espíritos. Ele ouviu atentamente e sugeriu: “Por que você não lê a Bíblia?” Aquela foi uma boa pergunta. Deus não parecia mais uma fábula. Eu sabia que os maus espíritos existiam e senti que eram contidos por um poder superior. Então, comecei a ler a Bíblia e orar.

Enquanto lia, percebi uma voz interior que dizia: “Abandone seus vícios.” Eu não queria abandonar tudo e pensei: “Posso continuar desfrutando de alguns vícios.” Então, percebi que nunca tentara deixar meus vícios de uma só vez; por que não desistir de tudo de uma vez? Naquele momento, uma voz maligna veio à minha mente, como que perguntando: “O que você está fazendo?” Quando ouvi aquela voz, entendi que algo muito sério estava acontecendo. Foi ali que renunciei imediatamente aos meus vícios.

A Bíblia era uma leitura feliz. Gênesis 3 me mostrou que, quando o ser humano caiu, Deus não o abandonou o homem. Ao contrário, tinha estabelecido um plano de salvação. Vi que as profecias de Deus para os israelitas se cumpriram. Minha fé aumentou e vi que a Bíblia não era um livro fictício. Os meses passaram, eu me formei e mudei para Dublin, Irlanda, para trabalhar como engenheiro de software.

Certo dia, meu amigo ex-ateu me enviou um sermão sobre a origem do pecado que encontrara no YouTube. Eu gostei do pregador, um evangelista adventista, e procurei mais pregações dele. Mas, quando ele falou sobre o sétimo dia rejeitei a mensagem por ser muito estranha. Apesar disso, esse sermão sobre o sábado permaneceu na minha mente. A palavra “Saturday” no meu idioma português, significa “sábado”. Para mim, pareceu que deveria ter uma explicação bíblica para que a maioria dos cristãos guardasse o domingo e decidi procurar na Bíblia. Mas não encontrei nenhum verso que mostrasse a mudança do sábado para o domingo.

Voltei a procurar os vídeos do evangelista adventista no YouTube. Seus sermões sobre o sábado e o fim dos tempos eram coerentes e aceitei a igreja adventista como a igreja de Deus.

Descobri online o endereço de uma igreja adventista, passei a frequentar os cultos e, mais tarde, fiz estudos bíblicos. Entendi porque passei por tantos sofrimentos na minha infância. Não era culpa de Deus. Era por causa do pecado e das más escolhas que eu e outras pessoas na minha vida fizemos. Assim como David diz em Salmos 16:4: “Grande será o sofrimento dos que correm atrás de outros deuses.” Eu fui batizado aos 26 anos de idade. 

Hoje, tenho um casamento feliz com Joana, uma enfermeira brasileira, que conheci na igreja, em Dublin. Ela também foi batizada na Irlanda. Trabalhamos, oferecemos estudos bíblicos e ajudamos na igreja. Oramos para que Deus nos mostre o que Ele deseja que façamos a seguir. Estamos muito agradecidos pelas ofertas de 2017 que ajudaram a construir uma igreja e um centro comunitário em Dublin, Irlanda.

 

Dicas da história

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Lição 12 – Lidando com passagens bíblicas difíceis

Isaac Malheiros

A dificuldade começa no coração, não na mente

Todo estudante da Bíblia concorda que nela há “certas coisas difíceis de entender” (2Pe 3:16). No entanto, sejamos sinceros, nosso maior problema não são os textos bíblicos que não entendemos, mas os que entendemos muito bem e não conseguimos praticar! Na maioria dos casos, o problema não é de interpretação, mas de aplicação. Em vez de moldarmos nossa vida para que se ajuste à Bíblia, distorcemos a Bíblia para encaixá-la em nossa vida. Por isso, Pedro continuou o alerta dizendo que “ignorantes e instáveis” distorcem textos bíblicos “para a própria destruição” (2Pe 3:16).

Portanto, antes de examinar os textos difíceis da Bíblia, é preciso examinar o coração, pois um grande conhecimento teórico sem submissão não garante uma espiritualidade saudável, como é o caso de Satanás e seus anjos (Mt 4:6; Tg 2:19).

A maioria dos textos difíceis possuem explicação satisfatória, e há farto material sobre isso (como, Interpretando as Escrituras, de Gerhard Pfandl; disponível em https://www.cpb.com.br/produto/detalhe/12543/interpretando-as-escrituras). Porém, pode ser que encontremos sérias dificuldades para entender algum texto bíblico. Mesmo assim, esse não é motivo para perder a confiança na Bíblia. Aqueles que gostam de comer peixe já se depararam com o problema das espinhas dos peixes. O que fazer? Jogar tudo fora? Ou apenas separar as espinhas e continuar saboreando?

Portanto, uma decisão precisa ser tomada: no estudo das Escrituras, temos apenas um interesse intelectual, ou temos a disposição de submeter nossa mente e coração à Palavra? Se você espera eliminar absolutamente todas as dúvidas sobre todos os detalhes da Bíblia antes de se submeter a Deus, esse dia pode nunca chegar. Como alertou Ellen White: “Ao mesmo tempo em que Deus deu prova ampla para a fé, nunca removeu toda desculpa para a descrença. Todos os que buscam ganchos em que pendurar suas dúvidas, haverão de encontrá-los. E todos os que se recusam a aceitar a Palavra de Deus e lhe obedecer antes que toda objeção tenha sido removida, e não mais haja lugar para a dúvida, jamais virão à luz” (O Grande Conflito, p. 527).

O que fazer com as supostas contradições e erros?

Apesar de ser “uma corporação protestante e conservadora de cristãos evangélicos”, cuja fé está “embasada na Bíblia e centralizada em Cristo” (Tratado de teologia adventista, p. 1), a IASD não crê na inspiração verbal, nem na inerrância absoluta da Bíblia. Cremos que a Bíblia é absolutamente inerrante em sua mensagem, mas não em todos os detalhes textuais, cronologia, números etc.

Assim, apesar de rejeitar o liberalismo teológico, não cremos na inerrância exatamente como a maioria dos evangélicos. Nosso conceito é um pouco diferente pois nosso conceito de inspiração é ligeiramente diferente do conceito predominante entre os evangélicos. Para uma visão adventista da inerrância, leia o artigo A Bíblia e a inerrância, do Dr. Amin Rodor (https://revistas.unasp.edu.br/kerygma/article/view/349).

Dito isso, é preciso dizer que a maioria das “contradições” identificadas por críticos da Bíblia é apenas uma questão de desconhecimento, leitura desatenta, ou grotesca distorção. Sobre isso, também há muito material disponível (como Manual popular de dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia, de Norman Geisler).

Quatro princípios fundamentais

A Bíblia não é para ser apenas lida, é para ser estudada. Para “apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade” 2Tm 2:15), é preciso pesquisar, investigar, examinar. A partir da Bíblia, é possível deduzir alguns princípios fundamentais de estudo.

O Tratado de Teologia Adventista traz quatro princípios fundamentais de interpretação bíblica: 1) “A Bíblia e a Bíblia Somente” (Sola Scriptura); 2) “A Totalidade da Escritura” (Tota Scriptura); 3) “A Analogia da Escritura” (Analogia Scripturae); e 4) “Coisas Espirituais se Discernem Espiritualmente” (Spiritalia Spiritaliter Examinatur)

1) A Bíblia e a Bíblia Somente: Já estudamos uma lição exclusivamente sobre esse princípio. A Bíblia é a única fonte de doutrinas. É nossa única regra de fé e prática. Portanto, no estudo bíblico, nenhuma autoridade se iguala à das Escrituras.

2) A Totalidade da Escritura: A Bíblia é a Palavra de Deus (e não apenas contém a Palavra de Deus). Toda ela, o Antigo e o Novo Testamento (Jo 1:1-3; 17:17; 2Pe 3:15-16). “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3:16), não apenas uma parte dela. Todas as declarações da Bíblia devem ser avaliadas quando a estudamos (Lc 24:27; At 17:11; Jo 5:39). Além disso, tempo e lugar de cada texto devem ser levados em conta. Existem as questões relacionadas aos contextos históricos, literários e gramaticais: figuras de linguagem, expressões idiomáticas, questões culturais e outras.

3) A Analogia da Escritura: Esse princípio estabelece que “a Bíblia é sua própria intérprete”, e que há “unidade nas Escrituras” (ou seja, ela não se contradiz). Por isso, é um erro limitar-se a um único versículo isolado. Jesus deu um estudo bíblico sobre o Messias para os discípulos no caminho de Emaús, e usou toda a Bíblia: “começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito Dele em todas as Escrituras” (Lc 24:27), “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24:44).

É preciso verificar o que a Bíblia toda diz sobre um assunto, comparando os textos. E uma regra básica da hermenêutica é: um texto claro interpreta um texto difícil ou ambíguo. Precisamos evitar aqui o “método texto-prova”, que é a prática de selecionar textos isolados para comprovar uma ideia preestabelecida. O “método texto-prova” apresenta somente versos favoráveis à conclusão a que se quer chegar e omite textos que falam sobre o assunto, mas trarão dificuldade.  As pessoas fazem afirmações e depois recorrem à Bíblia em busca de apoio para suas próprias conclusões.

4) “Coisas Espirituais se Discernem Espiritualmente”: Estudar a Bíblia é uma atividade que requer a guia do Espírito Santo. Existem mistérios que só Deus pode esclarecer. Deus não nos revelou tudo o que existe, mas Ele revelou o suficiente (Dt 29:29).

Além disso, é preciso uma disposição humilde e submissa, pois “Deus resiste aos soberbos” (Tg 4:6): “Quando a Palavra de Deus é aberta sem reverência e oração, quando os pensamentos e as afeições não estão centralizados em Deus nem em harmonia com Sua vontade, a mente fica obscurecida pelas dúvidas. O próprio estudo da Bíblia fortalece o ceticismo. O inimigo se apodera dos pensamentos e sugere interpretações incorretas” (Caminho a Cristo, p. 73).

No entanto, ver o estudo da Bíblia como uma atividade guiada pelo Espírito Santo não abre espaço para subjetividades e misticismos. Não nega o princípio hermenêutico de que a Bíblia deve ser tomada em seu sentido literal, a não ser que haja um claro e óbvio sentido figurado. Quando dissociamos o Espírito da metodologia de pesquisa bíblica, surgem espiritualizações exageradas, sentidos alegóricos, e aplicações homiléticas estranhas ao texto – “torturamos” a Bíblia, fazendo-a confessar o que queremos.

A pregação é um dos grandes alvos da pesquisa bíblica. De acordo com Grant Osborne, “a Escritura não deve apenas ser aprendida; ela deve ser crida e depois proclamada”. Dessa forma, devemos estudar a Bíblia buscando nela a vida eterna, não apenas informações.