Bernardo de Claraval foi um monge e pregador do século 11. Ele pregou uma série de 86 sermões sobre o Cântico dos Cânticos de Salomão. Em um deles, dedicou uma mensagem inteira para explicar o significado dos “dentes” de Cântico dos Cânticos 4:2. Ele disse mais ou menos o seguinte:
“Assim como os dentes são mais brancos do que o restante do corpo, os religiosos são os membros mais puros da igreja. Assim como os dentes estão enclausurados nos lábios, os religiosos estão enclausurados nas paredes do monastério. Os dentes não desfrutam das coisas deliciosas que mastigam; da mesma forma, os religiosos não recebem reconhecimento pelo bem que fazem. […] Os dentes estão dispostos e fixados em ordem, e, assim, em nenhum outro lugar há mais ordem do que em um monastério. Existem dentes superiores e inferiores; da mesma forma, o monastério possui dignitários e membros subordinados, unidos em um esforço harmonioso. Quando os dentes inferiores se movem, os superiores permanecem tranquilos, denotando a calma com que os superiores devem governar, mesmo diante de agitações nos níveis inferiores da comunidade. Os dentes da noiva são comparados a ovelhas tosquiadas, e a tosquia refere-se às meditações inocentes que cortam os desejos mundanos, como o amor pelo mundo e a busca pela sabedoria terrena.”
Muita imaginação a de Bernardo de Claraval, não é? Ele interpretou o Cântico dos Cânticos como uma alegoria, atribuindo um significado simbólico a cada palavra. Dessa forma, ele seguia uma antiga tradição de muitos estudiosos judeus. Um deles, Saadia ben Yosef Gaon, no século 10, resumiu todo um milênio de interpretações ao iniciar seu próprio comentário: “Você encontrará grandes diferenças de interpretação do Cântico dos Cânticos. Na verdade, elas existem porque o Cântico é como uma fechadura cuja chave foi perdida.”
Certamente, o livro de Cântico dos Cânticos tem significados profundos, como toda palavra que sai da boca de Deus. Um dos mais evidentes é o retrato da beleza que o marido vê em sua esposa. Gosto de imaginar que Deus também nos vê assim. Não é isso verdadeiramente admirável?