A experiência de Clive Wearing em decorrência da encefalite, que vimos nos últimos textos, pode ser comparada a uma estreita plataforma de apenas 10 segundos. De um lado, o abismo da amnésia profunda do passado; do outro, o vazio de um futuro que lhe escapa. Preso nesse curto intervalo de tempo, ele é como um náufrago à deriva, cercado por rostos e lugares que, a cada instante, parecem totalmente desconhecidos.
No meio desse mar angustiante de vazio da memória, Clive só consegue se lembrar de sua esposa, Débora, a quem continua amando profundamente, mesmo após mais de duas décadas de doença, e de seus filhos. Quando Clive ouve a voz de Débora, corre para a porta e a abraça com um fervor apaixonado, quase desesperado. Ele não tem ideia de quanto tempo passou desde a última vez que a viu. Tudo o que está fora de seu campo de percepção se apaga em poucos segundos. De fato, embora Débora o visite com frequência, cada reencontro é um milagre – como se ela também estivesse perdida no abismo do tempo e finalmente tivesse retornado.
Existem muitos tipos de memória, mas a emocional é a mais profunda. Mesmo quando tudo se apaga, muitas vezes nos lembramos das pessoas que amamos. É por isso que Deus não deseja apenas nossa obediência. Ele não Se satisfaz com uma submissão mecânica, ainda que servir-Lhe seja o melhor que podemos fazer. Acima de tudo, Ele deseja que O amemos e que O tenhamos como um selo sobre nosso coração.
Portanto, ainda que a vida nos faça esquecer muitas coisas, há uma verdade que nunca pode se apagar: ninguém jamais o amou tanto quanto Jesus. Seu amor não depende do tempo, das circunstâncias ou das nossas limitações. Ele nos aceita como somos e permanece sempre presente, pronto para nos envolver com Sua graça. Se essa verdade estiver gravada como um selo em seu coração, nem mesmo os desafios da vida poderão apagar a alegria e a segurança de pertencer a Ele.