Se você costuma observar a vida selvagem, sabe que muitos animais vivem em bandos, manadas ou grupos de vários tamanhos. De lobos a golfinhos e até algumas espécies de formigas carnívoras, esses animais costumam andar juntos. Os chimpanzés, por exemplo, formam laços sociais muito fortes e vivem em grupos de 15 a 150 indivíduos. Mesmo assim, nem sempre a convivência é tranquila; às vezes, surgem brigas entre eles.
Com os seres humanos não é tão diferente. Além de vivermos em comunidade, também enfrentamos conflitos dentro dos nossos grupos. E isso acontece até nas igrejas. Formam-se grupos, muitas vezes em torno de um líder carismático. E, pior ainda, pode acontecer de um desses grupos não se dar bem com os demais. Você já viu algo assim na sua igreja?
Se sim, você tem uma ideia do desafio que Paulo encontrou em Corinto. Nesta semana, estudaremos 1 Coríntios 1 a 4, em que o apóstolo aborda as contendas na igreja e ensina como superá-las: por meio da unidade em Cristo.
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Paulo exortou: “Não haja divisões entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito” (1Co 1:10). Esse apelo predomina nos quatro capítulos iniciais de 1 Coríntios. De fato, a maioria dos estudiosos entende que a unidade é o tema que conecta todas as partes da carta.
1. Leia 1 Coríntios 1:12-17. Como esse trecho mostra o absurdo que é formar “panelinhas” em torno de líderes locais? Qual é a solução proposta por Paulo?
Paulo empregou palavras fortes para retratar a falta de unidade entre os membros da igreja de Corinto. Ele usou os termos gregos schisma (“divisões”; 1Co 1:10) e eris (“brigas”; 1Co 1:11). O substantivo schisma (assim como o verbo schizo, “separar”) aparece em outros textos do Novo Testamento para indicar diferenças de opiniões que resultaram em divisão. Já eris surge com frequência em listas de comportamentos que não devem ser praticados por cristãos.
2. Leia Romanos 1:29; 13:13; 1 Coríntios 3:3; 2 Coríntios 12:20; e Gálatas 5:20. Quais outros pecados são listados juntamente com eris (“brigas”, “discórdias”)? O que isso revela sobre a gravidade desse mal?
Em Corinto, as desavenças vieram à tona – a ponto de irmãos processarem uns aos outros (1Co 6:1-3). Diante dessa realidade, Paulo escreveu: “Digo isso para a vergonha de vocês” (1Co 6:5). As diferenças não eram deixadas de lado nem na celebração da Ceia do Senhor (1Co 11:17-22).
O problema da falta de unidade entre os membros da igreja era tão grande, e Paulo estava tão preocupado com isso, que esse foi o primeiro assunto tratado nessa carta aos coríntios.
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3. Leia 1 Coríntios 1:10. O que Paulo quis dizer com a orientação: “Sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito”?
A formação de “panelinhas” negava, na prática, a lealdade a Cristo (1Co 1:10). Deus nos chamou para a “comunhão de Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1Co 1:9). Nosso Senhor é Cristo; é Nele que precisamos estar centrados. Diante disso, Paulo fez três perguntas retóricas: “Será que Cristo está dividido? Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?” (1Co 1:13). A resposta é taxativa: “Não!” Cristo não está dividido. Ele é que foi crucificado por nós. E fomos batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28:19).
Paulo afirma que somos “corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo” (1Co 12:27, ênfase acrescentada). Embora o corpo tenha muitos membros – cada qual com sua função –, continua sendo um só. Para que o corpo funcione bem, cada membro deve desempenhar seu papel conforme suas capacidades. Essa metáfora mostra que Paulo buscava unidade na diversidade – mais do que isso, buscava unidade apesar da diversidade.
No entanto, todo pensamento e toda opinião precisam ser submetidos a Cristo, nosso Senhor. O senhorio de Jesus era tão central para Paulo que ele recorreu a esse tema várias vezes na abertura de 1 Coríntios (1Co 1:2, 7, 8, 9, 10). Antes de tratar diretamente dos grupos em torno de líderes, ele ressaltou que todos temos Jesus como Senhor. A igreja não gira em torno de líderes humanos; os cristãos são centrados em Jesus.
Essa ênfase no senhorio de Cristo nos versos iniciais de 1 Coríntios nos ajuda a entender o que Paulo quis dizer com: “Sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito” (1Co 1:10). O termo grego traduzido por “unidos” vem do verbo katartizo, que indica restaurar algo à condição correta. Quando surgem “panelinhas” em torno de líderes humanos, os relacionamentos na igreja precisam ser restaurados – e isso acontece por meio da unidade em Cristo e da negação do eu que ela implica.
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Em geral, “panelinhas” nascem de uma visão exagerada de líderes humanos. Isso ameaça a unidade da igreja e a saúde espiritual dos membros, pois uma compreensão distorcida do ministério cristão pode levar a dar importância excessiva a certos líderes em detrimento de outros. O resultado é uma atmosfera de competição, que pode rachar a igreja. Mais do que isso: se fizermos de líderes humanos o centro da nossa identidade cristã, correremos o risco de tirar Cristo do lugar que Lhe cabe em nossa vida.
4. Leia 1 Coríntios 3:1-4. Como Paulo descreveu a imaturidade espiritual dos coríntios?
Paulo deixa claro que a maturidade espiritual leva o crente a apreciar a sabedoria de Deus (1Co 2:6, 7), comunicada pelo Espírito Santo (1Co 2:13) e em contraste com a “sabedoria” deste mundo (1Co 2:6), que é a sabedoria humana (1Co 2:13). A sabedoria de Deus se revela na cruz de Cristo (1Co 2:1-4) – mais especificamente, nos sofrimentos, na morte e na ressurreição de Jesus. Assim, antes de retomar o apelo à unidade (1Co 3:1-17), Paulo desejava que os leitores reconhecessem a necessidade de verdadeira sabedoria e maturidade em Cristo.
Cristãos sábios e maduros são espirituais, não “carnais”; não são como “crianças” (1Co 3:1). Eles comparam “coisas espirituais com espirituais”, porque as “coisas do Espírito de Deus [...] se discernem espiritualmente” (1Co 2:13, 14). Cristãos sábios e maduros se alimentam de “comida sólida”, não de “leite” (1Co 3:2; veja Hb 5:12): “Quem se alimenta de leite ainda é criança e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal” (Hb 5:13, 14, NVI). Cristãos sábios e maduros não dizem: “Eu sou de Paulo” ou “Eu sou de Apolo” (1Co 3:4), referindo-se a outras pessoas.
Afinal, essas pessoas são, como eles, “cooperadores de Deus” (1Co 3:9). Somos, como igreja, lavoura, edifício e santuário de Deus (1Co 3:9, 16, 17). Todos pertencemos a Deus por meio de Cristo (1Co 3:11).
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5. Leia 1 Coríntios 4:1, 2. Que visão correta devemos ter a respeito de líderes humanos?
Em 1 Coríntios 3:1 a 4, Paulo indica que “panelinhas” revelam imaturidade espiritual. Antes de abordar esse assunto, ele afirma: “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Co 2:16). Essa expressão provavelmente se refira ao modo de pensar e agir do próprio Cristo. Ou seja, o crente tem a “mente de Cristo” quando pensa e age como Ele. Colocar isso em prática em todas as áreas da vida não é tão fácil assim, não é? No mundo greco-romano, havia acirrada competição entre figuras políticas, filósofos, pensadores e líderes religiosos. Aparentemente, a busca por aprovação cultural levou a igreja de Corinto a seguir padrões seculares – perigo real para a igreja de hoje também.
6. Leia Filipenses 2:5-8. Como esse texto nos ajuda a entender o que é a “mente de Cristo” (1Co 2:16)?
Assim como em Corinto, também havia divisões em Filipos (Fp 2:1-4), talvez em menor grau. Filipenses 2:1 a 8 nos ensina que servir como Cristo exige negar o eu e ambições egoístas, buscando abençoar o próximo acima de nós mesmos – como Jesus fez.
Foi isso que Paulo quis dizer com “servos de Cristo” (1Co 4:1, NVI). Essa expressão pode trazer a ideia de que eles servem a Cristo como auxiliares ou subordinados. Fica claro que a visão correta sobre líderes humanos se baseia no modelo de liderança de Cristo. Esses servos também são apresentados como mordomos, “encarregados” (1Co 4:1, 2). Um encarregado é alguém a quem foi confiada a administração da propriedade de outra pessoa. Tudo o que temos, afinal, pertence a Cristo.
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Não formar “panelinhas”, especialmente em torno de líderes humanos, não significa que não devamos apoiar nossos líderes. Somos chamados a valorizar e ajudar aqueles que conduzem a obra da igreja. Deus designa pessoas para realizar Seu ministério na Terra. Líderes cujo estilo de vida expressa a submissão da cruz são dignos de ser ouvidos e seguidos.
Isso porque somente a cruz tem poder para reverter qualquer forma manipuladora de controle em favor da submissão à Palavra de Deus. Líderes semelhantes a Cristo atribuem o êxito de seu ministério unicamente a Deus. Em Seu ministério terreno, até mesmo Jesus, como homem, atribuiu a glória ao Pai (Jo 17:4).
De acordo com Paulo, o ministério cristão deve estar alicerçado no que podemos chamar de “teologia da cruz”. A cruz revela a sabedoria e o poder de Deus para salvar e, ao mesmo tempo, expõe a “sabedoria” humana como loucura. Em 1 Coríntios 4:1 a 13, Paulo mostra como essa teologia se traduz na prática. Primeiro, afirma que é Deus quem estabelece o padrão da liderança cristã (1Co 4:1-5). Em segundo lugar, indica que o sofrimento é a marca do autêntico ministério cristão (1Co 4:9, 11-13). Esse segundo aspecto merece ser aprofundado mais à frente.
7. Leia Coríntios 11:23-28 e Colossenses 1:24. O que esses textos ensinam sobre o significado de sofrer por amor a Cristo?
Líderes cristãos seguem os passos de Jesus ao se disporem a sofrer pelos irmãos – e, se necessário, até a morrer por causa do seu ministério. Paulo refere-se a si mesmo e a Apolo como “condenados à morte” (1Co 4:9). Eles são retratados sofrendo “fome, sede e nudez”, sendo “maltratados” e não tendo “morada certa” (1Co 4:11). Além disso, eram insultados, perseguidos e caluniados, chegando a ser “considerados lixo do mundo, escória de todos” (1Co 4:12, 13). Mais ainda: ao chamar ironicamente os coríntios de ricos, reis, sábios e honrados (1Co 4:8, 10), Paulo demonstra que o orgulho não deve ter lugar na verdadeira liderança cristã, pois é a raiz das divisões na igreja (1Co 4:6).
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Leia, de Ellen G. White, Atos dos Apóstolos [CPB, 2021], “O preparo dos Doze” (p. 12-16).
“A unidade do povo remanescente de Deus produz no mundo poderosa convicção de que eles possuem a verdade e que são o povo peculiar, escolhido por Deus. Essa unidade desconcerta o inimigo, por isso ele está determinado a fazer com que ela não exista. A verdade presente, crida no coração e exemplificada na vida, torna o povo de Deus unido e lhe concede poderosa influência” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja [CPB, 2021], v. 1, p. 296).
“Deus está conduzindo um povo para ficar em perfeita unidade sobre a plataforma da verdade eterna. Cristo Se deu ao mundo a fim de poder ‘purificar, para Si mesmo, um povo exclusivamente Seu, zeloso de boas obras’ (Tt 2:14). Esse processo de purificação visa limpar a igreja de toda injustiça e do espírito de desavença e disputa, de modo que seus membros possam construir em vez de destruir, e concentrar as energias na grande obra que está diante deles. É plano de Deus que todo o Seu povo chegue à unidade da fé. A oração de Cristo pouco antes de Sua crucifixão foi para que Seus discípulos fossem um, assim como Ele era um com o Pai, para que o mundo cresse que o Pai O tinha enviado. Essa tocante e maravilhosa oração vem através dos séculos até nossos dias, pois Suas palavras foram: ‘Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em Mim, por intermédio da Sua palavra’” (Jo 17:20; Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja [CPB, 2021], v. 4, p. 17).
Perguntas para consideração
1. Leia 1 Coríntios 4:9 a 13 e observe como os apóstolos são retratados. Em que esse retrato contrasta com as características de liderança valorizadas em nosso mundo? O que esse texto ensina sobre o quanto os padrões de Deus podem diferir dos padrões do mundo?
2. Em 1 Coríntios 4:16, Paulo exorta os coríntios a imitá-lo. Você imitaria líderes humanos? Em que imitar um líder difere de exaltá-lo indevidamente – e até perigosamente?
Respostas às perguntas da semana: 1. “Panelinhas” dividem o corpo de Cristo, e Paulo aponta como solução voltar o foco exclusivamente a Cristo e ao evangelho. 2. Inveja, ciúmes, ira e imoralidades; revelando que é um mal tão grave quanto outros comportamentos claramente pecaminosos. 3. Os cristãos devem ter harmonia doutrinária e trabalhar juntos com um propósito comum em Cristo. 4. Eram espiritualmente imaturos porque viviam em ciúmes, contendas e comportamentos carnais, como crianças na fé. 5. Devemos ver líderes humanos apenas como servos e administradores de Deus, responsáveis por serem fiéis ao que receberam. 6. A “mente de Cristo” é marcada por humildade, serviço e obediência sacrificial. 7. Significa suportar dificuldades e sacrifícios com alegria e propósito, participando da missão de Cristo e do bem do Seu povo.
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TEXTO-CHAVE: 1Co 1:10
FOCO DO ESTUDO: 1Co 1:10-17; 3:18-23; Fp 2:1-8
ESBOÇO
Introdução: Em uma pequena cidade, um grupo de voluntários se reuniu para reconstruir um centro comunitário depois de uma tempestade. A fundação era sólida, e os materiais eram bons. Eles tinham tijolos, argamassa, ferramentas, tudo de que precisavam.
No entanto, quando o trabalho começou, surgiram desentendimentos. Uma equipe insistia: “Os tijolos devem ser empilhados deste jeito, é mais eficiente”. Outra retrucava: “Não, sempre fizemos deste outro jeito!” Alguns trabalhadores se recusavam a receber instruções de outros, dizendo: “Nós seguimos apenas a liderança do nosso chefe da equipe”. Alguns até abandonaram a obra, afirmando: “Se aquele grupo estiver envolvido, não queremos participar deste trabalho”.
No fim do dia, o que deveria ter sido uma parede sólida tornou-se uma bagunça remendada, alguns tijolos desalinhados, outros faltando e toda a estrutura instável. Um empurrãozinho poderia derrubá-la. Um velho pedreiro passou por ali, balançou a cabeça e disse: “Um tijolo sozinho não passa de uma pedra. Mas tijolos encaixados entre si, com a argamassa que os mantém no lugar, formam uma parede. Isso é solidez”.
Assim como aqueles tijolos, a igreja em Corinto – e também a de hoje – só pode permanecer firme quando está unida em Cristo, o alicerce. A divisão enfraquece o corpo. Contudo, quando deixamos o orgulho de lado e seguimos o modelo servidor de Cristo, nos tornamos inabaláveis.
Temas da lição: Na igreja apostólica, uma das maiores ameaças à unidade não era a perseguição, era o orgulho. Dois temas principais relacionados a essa questão podem ser encontrados nas passagens desta semana. Eles podem ser resumidos da seguinte forma:
1. A ameaça dos cultos à personalidade. Em 1 Coríntios, Paulo aborda como os crentes estavam se dividindo com base na lealdade a diferentes líderes, formando cultos de personalidade em torno de Paulo, Apolo e Cefas. Esses grupos transformavam a talentosa liderança em fonte de divisão, desviando a igreja de seu verdadeiro fundamento: Cristo.
2. O poder do serviço à semelhança de Cristo. Todavia, Filipenses 2:1 a 8 apresenta o antídoto: a humildade de Cristo. Paulo exorta os crentes a deixarem de lado a ambição egoísta e a não olharem para os próprios interesses, mas para os interesses dos outros. Ele aponta para Jesus, que, embora fosse igual ao Pai, assumiu a forma de servo, humilhou-Se e tornou-Se obediente até a morte. Esse é o verdadeiro modelo de unidade: o amor sacrificial.
Juntas, essas passagens conclamam a igreja a rejeitar o orgulho e as disputas de poder e, em vez disso, buscar a unidade por meio da humildade servidora, seguindo o exemplo de Cristo.
COMENTÁRIO
1. Contexto
A escravidão foi uma triste realidade no mundo do Novo Testamento. A terminologia grega usada no Novo Testamento não distingue claramente entre “servo” (por exemplo, um empregado que está em uma posição inferior a um superior, realiza tarefas específicas e recebe pagamento por elas) e “escravo”. A tradução correta do termo grego doulos, por exemplo, poderia ser tanto “servo” quanto “escravo”, dependendo do contexto específico. Historiadores estimam que até doze milhões de pessoas foram escravizadas no Império Romano durante o primeiro século d.C., entre 16 e 20% de toda a população, que chegava a pelo menos sessenta milhões (ver S. Scott Bartchy, “Slaves and Slavery in the Roman World”, em The World of the New Testament, ed. Joel B. Green e Lee Martin McDonald [Grand Rapids: Baker Academic, 2013], p. 170).
Os escravos muitas vezes eram membros estimados em um lar maior e, em alguns casos, ocupavam posições de responsabilidade dentro da casa. Diferentemente da prática da escravidão no Novo Mundo, nem a cor da pele nem a origem étnica/racial determinavam o status de escravo na população do Império Romano. A lei romana regulava cuidadosamente o tratamento dos escravos, e muitos podiam esperar ser libertados por seus senhores mais tarde na vida. Ainda assim, a escravidão não era uma instituição benevolente. Muitos escravos sofreram terrivelmente sob o poder de senhores cruéis e experimentaram todos os tipos de abusos.
O fato de várias passagens do Novo Testamento utilizarem terminologia e imagens associadas à escravidão sugere a importância desse tema para aqueles que buscam compreender o contexto cultural do Novo Testamento: “Três palavras-chave no vocabulário de Paulo – ‘redenção’, ‘justificação’ e ‘reconciliação’ – derivam diretamente do processo e dos resultados da alforria da escravidão”, observa Bartchy (ver S. Scott Bartchy, “Slaves and Slavery in the Roman World”, em The World of the New Testament, ed. Joel B. Green e Lee Martin McDonald [Grand Rapids: Baker Academic, 2013], p. 176). Essa terminologia e esses conceitos ajudaram os leitores a compreender importantes noções teológicas, incluindo aquela que descreve a libertação do crente da escravidão do pecado e da alienação de Deus.
2. Cultos à personalidade – ameaças à unidade
As ameaças à unidade assumem diferentes formas e Paulo trata de algumas delas logo no início de sua carta. Muito antes da era dos influenciadores digitais, astros do esporte, pastores de megaigrejas, bilionários super-ricos ou líderes mundiais carismáticos, as pessoas já seguiam seus líderes espirituais favoritos. Seguir diferentes líderes espirituais no contexto de uma comunidade de fé pode gerar discussões e, muitas vezes, resultar em divisões. Essas divisões podem ainda se fragmentar em grupos antagônicos, em constante conflito uns com os outros. Na igreja de Corinto, parece ter havido vários grupos que apoiavam diferentes líderes.
A carta de 1 Coríntios 1:12 menciona alguns nomes. Alguns afirmaram ser seguidores de Apolo, um judeu cristão, natural de Alexandria, “homem eloquente e poderoso nas Escrituras” (At 18:24). Ele devia ter sido um bom orador e pregador, que impressionava seu público com sua retórica e entusiasmo em anunciar Jesus (At 18:25). Apolo ajudou a fortalecer a igreja em Corinto enquanto Paulo estava em Éfeso (At 19:1, 2); no entanto, antes disso, parece que ele ainda não tinha ouvido a respeito do batismo do Espírito (At 18:25).
Outros declararam lealdade a Cefas, que é a forma aramaica do nome Pedro. Ele foi o primeiro dos apóstolos a ministrar para não judeus (At 10) e, por causa de sua função de liderança entre os apóstolos, parecia ter sido considerado por muitos como o principal líder cristão ou a figura de destaque do movimento. Outros afirmaram seguir a Paulo. Embora tivessem abordagens diferentes em relação à missão, é interessante observar que esses líderes faziam questão de apoiar, e não criticar, o trabalho uns dos outros (ver, por exemplo, o apoio de Pedro a Paulo em 2Pe 3:15 e a aprovação de Paulo ao ministério de Apolo em 1Co 3:4-7).
No entanto, também devemos observar que eles estavam dispostos a dialogar criticamente entre si quando uma questão específica assim o exigia. O confronto de Paulo com Pedro a respeito do importante tema da comunhão com os crentes gentios, da relevância e importância das leis rituais e da justificação pela fé (ver Gl 2:11-21) oferece um bom exemplo disso. Apesar dos fortes laços que uniam os diferentes líderes da igreja apostólica, alguns crentes ainda conseguiam colocar os ensinos desses líderes uns contra os outros para gerar divisão.
A solução sugerida por Paulo pode ser encontrada em 1 Coríntios 3:18 a 23. Ele destaca o perigo do autoengano para seus leitores em Corinto. Eles se consideravam “sábios” e não entendiam que a sabedoria divina parecia loucura para mentes não convertidas. Ele cita dois textos do Antigo Testamento (Jó 5:13 e Sl 94:11) para fortalecer seu argumento e, em seguida, comenta os diversos grupos. Em vez de entrar no debate sobre quem era mais sólido teologicamente ou quem era um influenciador mais digno, Paulo ressalta a necessidade de cada membro manter Cristo no centro de sua vida espiritual e não permitir que qualquer líder, por mais eloquente ou capaz que seja, ocupe o lugar que pertence somente a Cristo. “Portanto, ninguém se glorie nos homens” (1Co 3:21), ele aconselhou, “vocês são de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Co 3:23). Encontrar nossa identidade e nosso verdadeiro lar em Cristo ajuda a evitar divisões.
3. Serviço à semelhança de Cristo
A maioria de nós não entende adequadamente o termo “servo” conforme é usado no Novo Testamento. Filipenses 2:1 a 8 oferece um útil modelo de serviço dentro do contexto da unidade. Paulo enfatiza para seus leitores a importância da unidade. A força semântica das quatro cláusulas condicionais “se” em Filipenses 2:1 (ACF) deve ser entendida, na realidade, “como um apelo baseado na certeza (“uma vez que existe”) das realidades espirituais expressas [...] na vida cristã” (“Filipenses”, em Comentário Bíblico Andrews, [CPB, 2025], p. 325). Em seguida, Paulo compartilha sua esperança e alegria pessoais de que a igreja tenha “o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, e seja unida de alma e mente” (Fp 2:2), o que, em última análise, significa que seus leitores não busquem os próprios interesses, mas se concentrem nos interesses dos outros (Fp 2:4).
A próxima seção usa o exemplo de Jesus como modelo para a igreja. Os membros da igreja devem imitar a plena entrega de Jesus em seu relacionamento uns com os outros. Os teólogos recorrem a esse texto para descrever Cristo em Sua pré-encarnação (Fp 2:6, 7), durante Sua encarnação na Terra (Fp 2:7, 8) e em Sua exaltação após a ressurreição (Fp 2:9-11). Jesus Se tornou um doulos, um servo ou escravo. Ele “Se esvaziou” (Fp 2:7) ou “Aniquilou-Se a Si mesmo” (ARC). Ele decidiu voluntariamente não usar Seu poder e atributos divinos para que pudesse ser o “Servo de Deus” e salvar este planeta que estava em rebelião. “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Fp 2:5) é o lembrete de Paulo de que nós também devemos imitar Seu amor – ainda que de forma imperfeita, na condição de seres humanos frágeis e pecadores – em nosso relacionamento com a comunidade de fé.
APLICAÇÃO PARA A VIDA
A unidade (ou a falta dela) foi um tema central na igreja de Corinto e continua sendo uma questão sempre presente dentro do adventismo do sétimo dia. Alguns de nós seguimos nossos pregadores preferidos nas redes sociais ou passamos muito tempo assistindo a vídeos de nosso ministério favorito. Muitas vezes, nossos conflitos envolvem diferenças em nossa compreensão da verdade bíblica ou surgem choques de personalidade entre as lideranças. A mensagem de Paulo aos coríntios nos lembra de que esse conflito não é algo novo. Liderança servidora é uma expressão frequentemente ouvida; no entanto, ainda lutamos para aplicar seus princípios a nós mesmos e à forma como nos relacionamos uns com os outros.
1. Como podemos evitar a armadilha da desunião causada por facções dentro da igreja?
2. Quais estratégias podemos encontrar nas Escrituras para nos ajudar a manter Jesus como o centro de nossa fé e de nossa comunidade de igreja?
3. A raiz de muitos conflitos está em nossas diferentes compreensões da verdade bíblica. Afirmamos que amamos a verdade e que somos comprometidos com ela. Então, como podemos nos relacionar com outros cuja compreensão das Escrituras seja diferente da nossa? O que podemos aprender Daquele que afirmou ser “o caminho, a verdade e a vida”?
4. Por que é tão difícil seguir o exemplo de Cristo em Seu perfeito espírito de serviço?
5. Quais seriam as estratégias bíblicas e os passos práticos que poderiam ajudar a trazer mais unidade para nossas igrejas?
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Caminhando pela fé, não pela visão
Romênia | Clara
Clara é uma aluna animada, cheia de ideias ousadas e criativas.
Embora tenha apenas 11 anos, ela afirma com confiança que todas as suas orações são respondidas.
Na escola onde estuda, havia a necessidade de um professor nativo de inglês. No entanto, por várias razões, o ano letivo começou sem ninguém para ocupar essa função. Clara começou a orar por isso, totalmente convencida de que a situação seria resolvida.
O tempo passou, e ninguém parecia interessado na oportunidade, mas Clara não se desanimou — continuou orando por isso.
Do outro lado do mundo, na Austrália, uma jovem chamada Andreea estava participando de um acampamento. Quando uma família missionária compartilhou suas experiências, ela ficou profundamente inspirada. Um pensamento veio à sua mente, mas ela decidiu não colocá-lo em prática — não parecia o momento certo.
Ela tinha acabado de começar um novo emprego, estava morando sozinha pela primeira vez, tinha uma hipoteca e estava prestes a iniciar um programa de treinamento profissional. Claramente, não parecia o momento certo. Ainda assim, enquanto navegava pela página do Instagram do VividFaith*, ela parou para ver os chamados missionários. Andreea clicou em “curtir” e voltou à sua vida cotidiana, abandonando esses pensamentos. Mas uma semente havia sido plantada em seu coração.
Enquanto isso, na Romênia, Clara continuava a orar e acreditar.
Alguns meses depois, enquanto relaxava na praia na Austrália, Andreea estava navegando pelo Instagram quando uma postagem do VividFaith a atingiu como um raio — um anúncio de uma oportunidade missionária na Romênia, especificamente para um falante nativo de inglês.
Ela sentiu que o chamado era para ela — uma onda de convicção a inundou, levando-a a agir. “Isso é loucura”, pensou ela. “Não faz sentido. Não estou pronta. Não estou preparada nem treinada para isso.”
Andreea e sua família decidiram jejuar e orar durante duas semanas, pedindo a Deus orientação especial. Isso só aprofundou sua convicção de que Deus a estava chamando para a Romênia. Por isso, ela enviou sua inscrição.
Dois meses se passaram — sem resposta. Andreea sentiu-se aliviada, pensando que havia escapado por pouco. Ela havia feito sua parte ao se inscrever, mas ninguém havia respondido. Talvez Deus estivesse dizendo que, afinal, aquele não era o momento certo.
Então, em setembro, Andreea recebeu uma resposta por e-mail à sua inscrição.
Após uma entrevista com os administradores da escola, Andreea percebeu que Deus estava trabalhando nos bastidores. Ela acreditava que Ele estava no controle e que era melhor seguir o plano Dele para sua vida.
No entanto, ela ainda se preocupava com as muitas incógnitas — o que fazer com seu novo emprego, a hipoteca da casa, as despesas de vida na Romênia e suas responsabilidades na igreja. O fardo era esmagador.
Em meio a lágrimas, ela pediu a Deus um sinal de que aquele realmente era o Seu plano. Naquele exato momento, ela sentiu uma paz que nunca havia conhecido antes — algo sobrenatural. Uma paz que transcende a compreensão. Foi nesse momento decisivo que ela renunciou a todas as suas dúvidas e aceitou a vontade de Deus para sua vida.
Um mês depois, Andreea desembarcou na Romênia, onde começaria o que ela agora chama de “A melhor época da minha vida”. Ela aprendeu que, se você quer que Deus trabalhe através de você, precisa estar disposto, ser obediente e alegre.
Ela costuma dizer: “Deus nunca pedirá que você desista de algo sem lhe dar algo melhor em troca”.
Para Clara, foi uma oração atendida — um poderoso lembrete de que mesmo a fé de uma criança pode mover corações em todo o mundo. Foi o tipo de evidência que pode fortalecer a fé de uma criança em Deus e confirmar que Deus realmente ouve as orações, independentemente da idade.
Para Andreea, foi um compromisso de seguir a Deus, que sempre tem o melhor reservado para nossas vidas. Devemos seguir Seus planos porque, como diz Andreea: “Deus sabe melhor do que nós”.
Por Cristina Rosu
*VividFaith, um serviço da Igreja Adventista do Sétimo Dia, é uma plataforma online que conecta pessoas a oportunidades de serviço, incluindo o Serviço Voluntário Adventista. Use-a para encontrar ou promover vagas disponíveis em vividfaith.com.
Dicas para a história
- Mostre a Romênia e a Austrália em um mapa. Indique a distância entre os dois países.

