Nosso cérebro é como uma esponja: tudo o que chega pelos sentidos fica registrado. Talvez não estejamos conscientes da maior parte do que entra (se nos lembrássemos de tudo, mal conseguiríamos pensar). Ainda assim, esse conteúdo permanece e, de algum modo, influencia o que pensamos, sentimos e fazemos.
Por isso, mesmo como cristãos, somos facilmente impactados pelo mal ao nosso redor. Desde o início, a igreja cristã tem enfrentado esse desafio. De onde, por exemplo, veio a guarda do domingo? A igreja simplesmente inventou isso? Claro que não. Veio da cultura ao redor.
Vemos esse princípio desenrolar-se em Corinto. Depois do apelo contra o partidarismo (1Co 1–4), Paulo trata de temas como imoralidade sexual, ações judiciais entre irmãos, prostituição, casamento e vida de solteiro (1Co 5–7). Os padrões do mundo afetaram os cristãos coríntios profundamente. As divisões descritas em 1 Coríntios capítulos 1 a 4 abriram a porta para as condutas reprováveis denunciadas nos capítulos seguintes.
Como Paulo tratou desse pecado na igreja? Quais lições podemos extrair do que ele escreveu?
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Ao longo da história cristã, teólogos, pastores e membros têm estudado o Novo Testamento para entender como a igreja deve ser. Ficamos admirados, por exemplo, com a igreja retratada em Atos. Mas rapidamente perdemos de vista um aspecto importante: pessoas são problemáticas. Logo, também podemos ler o Novo Testamento para descobrir como uma igreja não deve ser. As cartas de Paulo aos coríntios são um bom ponto de partida.
1. L eia 1 Coríntios 5:1-13. Que situação escandalosa Paulo descreve nesse trecho, e por que ela é tão perturbadora?
A expressão “mulher de seu próprio pai” (1Co 5:1) sugere uma relação incestuosa entre um homem e sua madrasta. Esse problema provavelmente tenha sido relatado “por alguns membros da casa de Cloe” (1Co 1:11). O incesto era visto como um pecado tão grave que não era tolerado “nem mesmo entre os gentios” (1Co 5:1). E, mesmo assim, isso estava ocorrendo na igreja cristã apostólica? As palavras de 1 Coríntios 5:1 e 2 revelam o espanto de Paulo ao saber que um membro da igreja estava fazendo tal coisa.
Pior: Paulo ficou ainda mais perplexo ao perceber que, em vez de lamentarem o ocorrido, os coríntios se orgulhavam de tolerar tal pecado (1Co 5:1, 2). Por isso, o apóstolo corrige não apenas o homem imoral, mas também a igreja, por sua evidente incoerência entre fé e prática. Para ele, a postura complacente da igreja diante do homem incestuoso demandava correção. Orgulhar-se de um escândalo sexual – e até vangloriar-se disso (1Co 5:2, 6)? Era demais para Paulo. O que havia de errado com aquela comunidade?
Não sabemos por que a igreja de Corinto foi tão tolerante com esse pecado. Talvez porque era praticado por um membro rico, de quem a igreja se beneficiava. Ou, quem sabe, por acreditarem que “todas as coisas são lícitas” (1Co 6:12), eles não julgaram o caso como deveriam. Não há como afirmar.
Seja como for, tornaram-se cegos diante de uma violação flagrante das Escrituras (Lv 18:7, 8) – e ainda se orgulhavam disso!
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Lidar com questões de sexualidade é sempre difícil. Foi assim para Paulo, e é para nós também. Nessas situações, precisamos ser fiéis às Escrituras e tratar o assunto com oração e amor. Nunca devemos esquecer que o objetivo é a restauração.
2. Leia novamente 1 Coríntios 5:1-13. Como Paulo orientou a igreja a lidar com esse caso?
Em 1 Coríntios 5, Paulo deixou claro que escândalos sexuais exigem disciplina eclesiástica. Ele disse que o homem incestuoso deveria ser removido (1Co 5:2), julgado (1Co 5:3), entregue a Satanás (1Co 5:5) e expulso da igreja (1Co 5:13). Os membros foram instruídos a não se associarem com ele (1Co 5:9, 11) nem mesmo a comer com alguém assim (1Co 5:11). Paulo emprega uma linguagem forte que pode soar ofensiva aos ouvidos modernos, mas que precisa ser entendida no seu contexto histórico. É preciso lembrar-se de que ele está lidando com um estilo de vida abertamente pecaminoso. Geralmente, em situações extremas, palavras firmes são necessárias. Uma breve explicação de algumas expressões pode ser útil:
“Tirado do meio de vocês” (1Co 5:2; veja 1Co 5:13) – Refere-se à disciplina eclesiástica.
“Esse tal seja entregue a Satanás” (1Co 5:5) – Quem rejeita viver sob a proteção de Deus, em obediência a Ele, fica vulnerável a Satanás. A ideia pode ser entendida como: “Que ele colha o fruto das próprias escolhas.”
“Não se associem” (1Co 5:9, 11); “nem mesmo comam com alguém assim” (1Co 5:11) – A convivência próxima com pessoas sexualmente imorais era considerada perigosa porque podia levar outros a imitar a conduta. No mundo antigo, partilhar uma refeição podia significar partilhar valores. Somos todos suscetíveis às influências ao nosso redor e precisamos nos proteger, especialmente em casos assim.
“A fim de que o espírito seja salvo” (1Co 5:5) – A disciplina eclesiástica tem caráter restaurador. Visa levar o pecador a cair em si e abandonar o pecado – o que provavelmente é o sentido de “destruição da carne” (1Co 5:5). É possível também que o homem incestuoso de 1 Coríntios 5 seja o homem arrependido mencionado depois (veja 2Co 2:5-10). A disciplina atinge seu propósito quando o membro desviado é reintegrado à comunhão da igreja.
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Em 1 Coríntios 6:1 a 11, Paulo prossegue tratando de como os cristãos devem lidar com questões que envolvem membros da igreja.
3. Leia 1 Coríntios 5:3, 12, 13; 6:1-13. O que Paulo procurou ensinar aos coríntios – e a nós?
O termo grego pragma – que, em 1 Coríntios 6:1, é traduzido por “questão” (NAA) ou “queixa” (NVI) – é um termo genérico que significa “coisa”. Aqui, refere-se a uma questão jurídica. É importante lembrar que 1 Coríntios 6:1 a 11 não trata de crime. A autoridade dos tribunais civis para causas criminais é afirmada em Romanos 13:1-5. Paulo aborda um litígio logo após um caso de imoralidade sexual, assim como Moisés fez em Deuteronômio 22:22 a 24. Isso mostra que seu modo de lidar com problemas na igreja se baseava nas Escrituras.
O fato de 1 Coríntios 6:1 a 11 estar inserido entre duas passagens sobre imoralidade sexual (1Co 5:1-13; 6:12-20) pode sugerir que a questão de 1 Coríntios 6:1 também envolvia esse tema. Não sabemos ao certo qual era o caso – se uma questão civil menor, como uma disputa de propriedade, ou um problema de natureza sexual.
Seja qual for o pragma, Paulo se entristeceu ao ver membros de igreja levando o caso a um tribunal civil. Como irmãos em Cristo, não poderiam resolver entre si, em vez de levar a causa “diante dos injustos” (1Co 6:1)?
Alguns supõem que os litigantes de 1 Coríntios 6:1 fossem o pai e o filho de 1 Coríntios 5:1. Em todo caso, entender os detalhes não é necessário para captar a ideia central: Paulo zelava pela identidade da igreja como comunidade cristã diante dos de fora. Cristãos não devem “lavar roupa suja” em público (1Co 6:6), nem recorrer a meios seculares para julgar questões internas. No mundo romano, pessoas de maior posição econômica ou política tendiam a ser favorecidas nos tribunais. Já os cristãos devem exercer um juízo conforme o caráter de Cristo e se distinguir dos padrões deste mundo.
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4. Leia Tessalonicenses 4:1-8. O que esse texto ensina sobre a relação entre a santificação e a abstinência da imoralidade sexual?
Embora Paulo escrevesse a outro público, o princípio pode ser aplicado a todos os cristãos. O que, então, acontecia em Corinto? Por que tantos problemas?
Alguns coríntios aparentemente acreditavam que, por terem sido libertos pelo evangelho, poderiam fazer qualquer coisa. Argumentavam que, assim como o estômago foi feito para o alimento, o corpo foi feito para o sexo – e sexo, para o corpo (1Co 6:13). Paulo respondeu que isso era uma deturpação da liberdade cristã. A falta de integridade na área sexual é incompatível com a identidade cristã e é um abuso da liberdade concedida ao ser humano pelo evangelho (Rm 8:2; Gl 5:13). Fomos libertos do pecado, não “libertos” para pecar (Rm 8:2; 6:18, 22). Na verdade, o corpo é “para o Senhor, e o Senhor, para o corpo” (1Co 6:13). Pertencemos a Cristo (1Co 6:15), e quem somos precisa moldar o que fazemos. As duas coisas estão inseparavelmente ligadas. Em 1 Coríntios 6, isso é mostrado de três maneiras:
1) Somos identificados como lavados, santificados e justificados “no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6:11). Os pecados listados em 1 Coríntios 6:9 e 10, bem como a imoralidade sexual denunciada em 1 Coríntios 6:12 a 20, não têm lugar na vida de quem foi lavado, santificado e justificado.
2) Somos membros de Cristo (1Co 6:15). Isso significa que devemos estar unidos a Ele (1Co 6:17). A imoralidade sexual viola essa união (1Co 6:13, 15). Quem se une a outra pessoa em relações sexuais fora do casamento torna-se “um só corpo” com ela (1Co 6:16). A união com Cristo, por meio do Espírito Santo, deve orientar a ética cristã nessa esfera.
3) Nosso corpo é santuário do Espírito Santo (1Co 6:19, 20). A única forma de viver com santidade e integridade nessa área é manter um relacionamento íntimo com Cristo por meio do Espírito Santo. Em outro texto, Paulo descreve essa experiência de ser templo do Espírito como a atitude de apresentar o corpo “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12:1).
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A afirmação de Paulo de que nosso corpo “é santuário do Espírito Santo” (1Co 6:19) aparece no contexto de uma advertência contra a imoralidade sexual. Ser templo do Espírito é o único meio para uma vida santa. A igreja é uma comunidade cristã que se distingue do ambiente ao redor – e isso só é possível pela presença do Espírito Santo.
5. Leia 1 Coríntios 6:19–7:9. Como esse trecho esclarece, na prática, o mandamento: “Fujam da imoralidade sexual!” (1Co 6:18)?
Em 1 Coríntios 7, encontramos lições importantes sobre sexualidade. De modo geral, o capítulo divide-se em duas partes: (1) orientações sobre o casamento (1Co 7:1-24) e (2) orientações sobre ser solteiro (1Co 7:25-40). Esse capítulo mostra que falar de sexualidade é importante e necessário.
No entanto, ao ler 1 Coríntios 7, lembre-se de que Paulo respondia a questões específicas da igreja de Corinto. Do contrário, algumas declarações podem dar a impressão de que ele desvalorizava o casamento, o que não é verdade (1Tm 4:1-3; 5:14; Hb 13:4).
É significativo que a ordem “Fujam da imoralidade sexual!” (1Co 6:18) esteja ladeada por duas ideias: estar unido a Cristo (1Co 6:17) e ser templo do Espírito (1Co 6:19). Haveria caminho melhor para fugir da imoralidade? Certamente não.
Além disso, Deus criou a sexualidade, mas ela deve ser desfrutada somente dentro do casamento. O sexo é um privilégio do casamento entre homem e mulher – o único modelo aprovado na Bíblia.
Ao dizer “Fujam da imoralidade sexual!”, talvez Paulo tivesse em mente a história de José (Gn 39:6-18). Diante das investidas da mulher de Potifar, José “fugiu da casa” (Gn 39:15, NVI). Esse detalhe é repetido não menos do que quatro vezes em Gênesis 39:6-18. A Bíblia não afirma explicitamente, mas indica que José aguardou para ter relações sexuais apenas no casamento (Gn 41:45). Ele era um homem cheio do Espírito Santo (Gn 41:38) e desejava fazer o que é correto aos olhos de Deus.
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Leia, de Ellen G. White, Atos dos Apóstolos [CPB, 2021], “Mensagem de advertência e apelo” (p. 190-196).
Curiosamente, nas listas de pecados de 1 Coríntios 5:10 e 11; 6:9 e 10, a idolatria e a embriaguez aparecem ao lado da imoralidade sexual. Como Paulo relembra em 1 Coríntios 10:7, as festas idolátricas costumavam ser marcadas por comer e beber em excesso (veja Êx 32:1-6), o que abria a porta para a imoralidade sexual (1Co 10:8). Ellen White diz:
“É impossível a qualquer pessoa desfrutar da bênção da santificação enquanto é egoísta e glutona. [...] O poder da constituição humana para resistir aos abusos praticados contra ela é maravilhoso; mas os persistentes maus hábitos no excessivo comer e beber enfraquecerão cada função do corpo. Na satisfação do apetite pervertido ou da paixão, mesmo cristãos professos prejudicam a natureza em seu trabalho e diminuem a força física, mental e moral” (Santificação [CPB, 2022], p. 16).
“Quando uma pessoa está inteiramente vazia do próprio ego, quando todo falso deus é expulso do ser, o vazio é preenchido com a comunicação do Espírito de Cristo. Essa pessoa possui a fé que purifica a alma de contaminação” (Ellen G. White, Obreiros Evangélicos [CPB, 2024], p. 225).
“Deus busca elevar-nos ao Seu padrão elevado, puro e celestial. Com esse propósito, Seu Espírito está constantemente operando em nós. [...] Nossas tendências naturais, a menos que sejam corrigidas pelo Espírito Santo de Deus, trazem em si as sementes da morte moral” (Ellen G. White, Manuscrito 12, 1888).
Perguntas para consideração
1. Coríntios 5 e 6, há uma série de sete perguntas introduzidas pela fórmula “Vocês não sabem?” (1Co 5:6; 6:2, 3, 9, 15, 16, 19). Todas exigem uma resposta afirmativa e enfática – algo como: “É claro que sim!” Como essas perguntas demonstram as preocupações de Paulo com a igreja? Por que também devemos nos preocupar com esses temas hoje?
2. O casamento vem de Deus (Gn 1:27, 28; 2:18-24) e deve ser honrado (Hb 13:4). Em uma época em que muitos o consideram “antiquado”, como mostrar que o casamento é um presente divino, vindo diretamente do Éden?
Respostas às perguntas da semana: 1. Paulo denuncia um caso de imoralidade extrema — um homem vivendo com a mulher de seu pai — algo chocante até para pagãos, tornando-se escândalo para a igreja. 2. Paulo ordena que a igreja discipline o infrator, removendo-o da comunhão. 3. Paulo ensina que a igreja deve julgar questões internas com responsabilidade espiritual. 4. A santificação inclui controlar o próprio corpo e afastar-se totalmente da imoralidade sexual. 5. Devemos honrar a Deus com o corpo, usar a sexualidade dentro dos limites estabelecidos por Ele e evitar situações que nos levem ao pecado.
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TEXTO-CHAVE: 1Co 6:19, 20
FOCO DO ESTUDO: 1Co 5:1-13; 6:1-13
ESBOÇO
Introdução: Ao andar de metrô no Reino Unido, os viajantes são constantemente lembrados, por meio de mensagens de áudio e advertências visuais, do “cuidado com o vão”. Parece algo bastante óbvio: as pessoas deveriam prestar atenção onde vão pisar e perceber que cair no vão entre o trem e a plataforma pode causar ferimentos graves. No entanto, ainda assim, há quem acabe caindo no vão. Por isso, parece haver a necessidade de lembrar continuamente os passageiros daquilo que já é óbvio.
A “lacuna do saber-fazer” é um conceito que se refere à disparidade entre aquilo que sabemos que deveríamos fazer e aquilo que realmente fazemos. Esse conceito pode ser definido como a situação em que alguém possui o conhecimento, as habilidades ou a capacidade de realizar algo, mas falha em colocá-lo em prática.
Ao considerarmos o tema do pecado na igreja e das escolhas feitas (ou não) pelos membros que afetam o corpo de Cristo como um todo, o conceito da “lacuna do saber-fazer” pode nos oferecer um bom ponto de partida para entrar na conversa bíblica.
Temas da lição: A lição desta semana destaca três temas importantes:
1. Os perigos de racionalizar o pecado. Muitas vezes, desconectamos questões éticas e morais de nossa prática e das escolhas que fazemos, seja ignorando o óbvio, seja abafando nossas convicções para racionalizar nosso comportamento. A mensagem de Paulo aos coríntios oferece um bom exemplo desse tipo de conduta e contém uma indicação clara de como resolver essa situação.
2. O fundamento bíblico do casamento. O conceito bíblico de casamento está baseado na teologia da criação e deve servir de alicerce para nossa reflexão sobre o tema. A prática incestuosa mencionada em 1 Coríntios 5:1 e a ausência de reflexão crítica sobre essa questão por parte da comunidade da igreja em Corinto nos lembram da realidade da “lacuna do saber-fazer” dentro da igreja.
3. Resolução de conflitos. A resolução de conflitos entre membros da igreja deve acontecer dentro da própria igreja e não por meio dos tribunais seculares. Resolver conflitos no âmbito da igreja oferece a oportunidade de praticar uma justiça salvífica e ressalta a convicção de que a igreja, o corpo de Cristo, é capaz de lidar até mesmo com questões desafiadoras.
COMENTÁRIO
1. Contexto
Casamento e práticas sexuais. O casamento na sociedade greco-romana era marcado pela autoridade do chefe da casa (geralmente o marido) em relação à esposa. Famílias extensas, que incluíam várias gerações de parentes, além de empregados e escravos, eram comuns. As esposas normalmente administravam os assuntos diários do lar: supervisionavam os servos e escravos, orientavam a educação dos filhos e cuidavam do reabastecimento das despensas.
Os romanos tinham dois tipos de casamento legal: com ou sem manus (latim, literalmente “mão”). O casamento sem manus indicava a autoridade legal e econômica que o pai mantinha sobre a filha após o casamento dela. “Nos primórdios romanos, o casamento com manus era frequente. Mas, no período do Novo Testamento, o casamento sem manus, no qual o pai mantinha autoridade legal e econômica (lat. potestas) sobre a filha casada, era muito mais comum. [...] Essas medidas [o casamento sem manus] reforçavam a conexão das filhas com suas famílias e podiam lhes dar aliados poderosos em disputas conjugais” (Margaret Y. MacDonald, “Marriage, NT” em The New Interpreter’s Dictionary of the Bible, ed. K. Doob Sakenfeld, v. 5 [Nashville: Abingdon Press, 2006], v. 3, p. 812). Casamentos legais só podiam ser contraídos por cidadãos livres, embora inscrições funerárias mostrem que casais de escravos “com frequência se entendiam como casados e buscavam criar uma unidade familiar estável” (p. 813), mesmo sem acordos formais de casamento.
O casamento judaico tinha muito em comum com o casamento no mundo greco-romano. O pagamento de um dote era importante; os casamentos geralmente eram arranjados pelas famílias e criavam uma rede familiar extensa. A visão de Paulo sobre o casamento reflete sua origem judaica, embora ele mesmo não fosse casado.
2. A “lacuna do saber-fazer”
Paulo é direto em sua comunicação com a igreja em Corinto sobre a existência de uma clara “lacuna do saber-fazer” em sua comunidade. Essa lacuna estava associada à imoralidade sexual (porneia), de acordo com 1 Coríntios 5:1, “tal como não existe nem mesmo entre os gentios”. A lacuna frequentemente reflete a fragilidade e a pecaminosidade humanas. Paulo descreve bem essa condição em Romanos 7:19: “Porque não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, esse faço”. A maioria de nós concordaria com a observação de Paulo em algum momento de nossa vida. De alguma forma, o bem que estamos convencidos a fazer, ou ao qual até nos comprometemos, às vezes, não é aquilo que escolhemos fazer. Estudiosos do Novo Testamento têm discutido a identidade do “eu” na passagem de Romanos 7 e têm oferecido diversas sugestões. Nenhuma dessas interpretações diminui ou altera a realidade essencial da “lacuna do saber-fazer” na vida dos seguidores de Jesus. A lei de Deus, tão presente em Romanos 7, não é suficiente para nos salvar de nós mesmos e do nosso pecado. Nós realmente precisamos de um Salvador!
O que realmente precisamos é de uma transformação do coração que só pode ser realizada pelo Espírito de Deus. Paulo afirma essa realidade nas palavras poderosas de Romanos 8:1: “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus”. Quando estamos “em Cristo Jesus”, estamos seguros, e a transformação pode começar. Superar essa “lacuna do saber-fazer” requer compromisso e abertura para a mudança, pois mudar – especialmente a mudança mental e cognitivo-comportamental – exige novos padrões e muita prática. Nas palavras de James K. A. Smith:
“Não posso simplesmente idealizar meu caminho para virtude. [...] Leis, regras e mandamentos especificam e articulam o que é bom; eles me informam sobre o que devo fazer. Já a virtude é diferente: não é adquirida intelectualmente, mas afetivamente. A instrução na virtude não é como aprender os Dez Mandamentos ou memorizar Colossenses 3:12 a 14. O ensino da virtude é um tipo de formação, uma reciclagem de nossas disposições. “Aprender” virtudes – tornar-se virtuoso – assemelha-se mais a praticar escalas ao piano do que aprender teoria musical: o objetivo é que, em certo sentido, seus dedos aprendam as escalas de modo a tocar “naturalmente”, por assim dizer. Aprender, nesse caso, não se trata apenas de adquirir informações, mas de gravar algo na própria essência de seu ser” (James K. A. Smith, Você é aquilo que ama: O poder espiritual do hábito [São Paulo, SP: Vida Nova, 2017] p. 53, 54).
3. Imoralidade sexual
Poucos pecados geram mais discussões entre os fiéis do que os pecados associados à sexualidade. Porneia, “imoralidade sexual”, é mencionada pela primeira vez na epístola em 1 Coríntios 5:1 e é tratada mais detalhadamente nos capítulos 5 a 7. “No grego koiné, a palavra pode se referir à imoralidade em geral, mas era mais frequentemente relacionada ao pagamento de prostitutas ou, ocasionalmente, à fornicação” (Paul Gardner, 1 Corinthians, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament [Grand Rapids, MI: Zondervan, 2018], p. 224).
A ética sexual do judaísmo e da igreja apostólica estava baseada nas Escrituras: um relacionamento heterossexual no contexto do casamento, este, por sua vez, enraizado na teologia da criação. Claramente, os cidadãos de Corinto tinham uma compreensão muito mais flexível da ética sexual, mas até eles teriam ficado horrorizados com o relacionamento sexual entre um homem e a esposa de seu pai. A terminologia grega usada para descrever a esposa sugere que ela não era a mãe biológica da pessoa, mas sua madrasta; ainda assim, uma grave violação da moralidade.
A preocupação de Paulo, no entanto, era a indiferença da igreja de Corinto diante dessa situação. Em vez de lamentar essa realidade, Paulo descreve a igreja como “cheia de orgulho” (1Co 5:2) e disposta a ignorar o problema. Alguns estudiosos sugerem que a pessoa envolvida nesse tipo de imoralidade sexual devia ser muito influente ou rica. Essa situação não exigia tolerância, mas sim uma ação decisiva.
Em sua carta, Paulo chama a igreja a agir rapidamente: “que esse tal seja entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor” (1Co 5:5). Essa declaração metafórica se refere à expulsão do homem do corpo da igreja. A igreja deveria confirmar a própria escolha dele. Como observa um comentário: “Já que as suas ações mostravam que ele tinha escolhido fazer parte do reino de Satanás, a decisão da igreja seria a de confirmar sua escolha, deixando que sofresse as consequências de suas más ações” (“1 Coríntios”, em Comentário Bíblico Andrews [CPB, 2025], p. 164).
Essa decisão eclesiástica deve ser entendida em um contexto salvífico, semelhante à declaração de Jesus em Mateus 18:17 ao tratar do conflito na igreja e da separação entre a igreja e um membro faltoso, que deveria ser considerado pela comunidade “como gentio e publicano”. Essa ação deveria ser tomada para que o membro em erro se tornasse objeto do cuidado amoroso e da atenciosa preocupação da igreja. Assim, a igreja poderia demonstrar esse amor ao convidá-lo ao arrependimento e a tornar-se novamente parte do reino de Deus.
4. Resolução de conflitos na igreja
A preocupação de Paulo com a igreja de Corinto também envolvia a forma como a comunidade resolvia suas tensões e conflitos internos. O fato de membros da igreja levarem outros membros a um tribunal oficial era algo absolutamente incompreensível para Paulo (ver 1Co 6:1-8). Esse problema evidencia os muitos conflitos e disputas internas que a igreja parecia ter, bem como a falta de sabedoria e de discernimento divino na resolução dessas questões dentro do “corpo”.
A igreja, como um corpo unido, retoma e ecoa as preocupações anteriores de Paulo a respeito de grupos e unidade (1Co 3, 4). A insistência de Paulo em resolver tensões e questões internamente parece ter seu precedente no Antigo Testamento e na tradição judaica. Esse precedente está enraizado na convicção de que o próprio Deus é o Juiz de Seu povo (comparar com 1Sm 24:15; Sl 50:6; Sl 75:7; Is 33:22) e de toda a Terra (Gn 18:25).
APLICAÇÃO PARA A VIDA
A tensão e o conflito na igreja não são questões fáceis de resolver. Os textos que tratam do problema da imoralidade sexual e de como a igreja deveria lidar com essa situação oferecem ao leitor moderno estratégias importantes para enfrentar o pecado, a tensão e o conflito em nossas comunidades de fé. Reflita com sua classe sobre as seguintes questões:
1. O que você diria a um amigo que lhe contasse que luta para fazer o que é certo, mesmo sabendo o que deveria fazer?
2. A “lacuna do saber-fazer” tem algo a ver com a justificação pelas obras? Se sim, por quê? Se não, por quê?
3. Por que é tão difícil oferecer perdão àqueles que lutam com pecados sexuais?
4. Qual seria a melhor estratégia para ajudar aqueles que enfrentam lutas com pecados sexuais?
O dom de uma nova vida
Áustria | Juergen
Nota do editor: A história missionária desta semana apresenta Bogenhofen, um campus adventista do sétimo dia em Braunau, que inclui uma escola primária, uma escola de ensino médio e um seminário. A escola recebeu parte de uma oferta trimestral de 1986, também conhecida como Oferta Trimestral para Projetos Missionários.
Juergen teve uma atitude inadequada, o que resultou em sua expulsão do ensino médio na Áustria.
Apenas um ano antes de sua formatura, Juergen foi convidado a deixar a escola após receber uma nota baixa por seu comportamento. As escolas secundárias públicas austríacas avaliavam o comportamento dos alunos, e ele foi reprovado porque tinha problemas com autoridade e frequentemente faltava às aulas.
Juergen tentou se matricular em outra escola, mas não deu certo. No entanto, o diretor do ensino médio foi compreensivo.
“Tente Bogenhofen”, disse ele. “Talvez eles aceitem você.”
Juergen e seus pais foram até Bogenhofen, um campus escolar adventista do sétimo dia. Vindo de uma família não religiosa, Juergen ficou surpreso ao saber que essa escola incentivava os alunos a desenvolver um relacionamento com Deus. Ele realmente não queria frequentar a escola, mas seu pai o incentivou a tentar.
Juergen concordou em ficar.
Embora pudesse ter entrado no terceiro ano do ensino médio, ele optou por repetir o segundo ano. Durante seus dois anos na escola, sua vida mudou de muitas maneiras. Sem nem perceber, ele parou de comer carne de porco e beber álcool. Ele não sabia ao certo como isso aconteceu — simplesmente aconteceu.
Embora frequentasse classes bíblicas, Juergen não pensava muito em Deus no ensino médio. Mas, após se formar, ele se matriculou em um programa de treinamento em saúde de um ano e meio em Bogenhofen. Ao aprender os princípios da boa saúde, ele começou a se perguntar: “Em que esses adventistas realmente acreditam?”
Ele encontrou uma Bíblia e, pela primeira vez, a leu do começo ao fim. A experiência o deixou com muitas perguntas, e ele aceitou a proposta de um colega de classe para estudar a Bíblia juntos. Os dois jovens começaram com as profecias de Daniel.
Juergen ficou impressionado. Ele viu como todas as datas se alinhavam e que todas as profecias — exceto aquelas que previam a segunda vinda de Jesus — haviam se cumprido. Tudo fazia sentido. Ele pensou: “A Bíblia deve ser verdadeira!”.
Aceitar a existência de um Deus Criador foi um passo fácil. Embora sua família não fosse religiosa, ele nunca havia aceitado totalmente a teoria da evolução. Ele entregou seu coração a Deus e foi batizado.
Alguns parentes zombaram de Juergen quando souberam que ele havia se tornado cristão. Eles o provocavam, perguntando se ele planejava viver como um eremita ou se mudar para o campo, sem eletricidade e aparelhos eletrônicos. Mas, quando viram a mudança que Cristo havia trazido à sua vida, a atitude deles mudou.
Seu pai nunca se arrependeu de tê-lo enviado para Bogenhofen, considerando essa a melhor decisão da vida de Juergen. Hoje, a mãe de Juergen faz parte de um grupo de estudo bíblico adventista do sétimo dia. Agora com 36 anos, Juergen é grato por ter frequentado a escola adventista.
“Quando eu era estudante, não percebia o privilégio que era”, disse ele. “Agora percebo. Estou feliz por ter estudado em Bogenhofen. Isso mudou minha vida.”
Obrigado por sua oferta do trimestre, também conhecida como Oferta Trimestral para Projetos Missionários, que está ajudando a levar pessoas como Juergen a Cristo. Bogenhofen, localizada perto de Braunau, na Áustria, recebeu parte de uma oferta de 1986 para abrir um dormitório feminino. A oferta deste trimestre ajudará a apoiar o trabalho missionário em toda a Divisão Intereuropeia, que inclui a Áustria.
Dicas para a história
• Mostre a Áustria em um mapa. Em seguida, mostre Braunau, perto da fronteira com a Alemanha, no norte, onde Bogenhofen está localizada.
• Pronuncie Juergen como: YOUR-gen.
• Assista a um vídeo do Juergen no YouTube em: bit.ly/Juergen-EUD.

