Assim como o corpo humano, a igreja é uma só, mas tem muitos membros, cada qual com funções e dons distintos. Quando praticados com amor, os dons espirituais promovem um senso de unidade que reflete o caráter do Deus triúno.
Nesta semana, examinaremos 1 Coríntios 12 a 14 e seu ensino sobre os dons espirituais. Essa seção faz parte de uma unidade um pouco mais ampla da carta, em que Paulo trata da conduta cristã em ambientes religiosos (1Co 11–14). Sua preocupação principal era a desordem nas reuniões. A resposta de Paulo é que a igreja é um corpo cujas partes têm funções diferentes, todas contribuindo para a “edificação do corpo de Cristo” (Ef 4:12). Em resumo, Deus concedeu à igreja dons espirituais para promover unidade por meio da diversidade.
Sem dúvida, Paulo ainda tinha em mente o problema das divisões abordado nos quatro capítulos iniciais de 1 Coríntios, nos quais a solução para o desentendimento entre os membros é a unidade em Cristo. Agora, ele desenvolve essa ideia explicando o papel dos dons espirituais. Segundo Paulo, somente a unidade em Cristo e no Espírito Santo evita divisões.
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Paulo introduziu um novo assunto em 1 Coríntios 12:1 com a fórmula “Quanto a” (NVI). Estudiosos discutem se ele se referia a “dons espirituais” ou a “pessoas espirituais”, porque o termo grego ton pneumatikon admite os dois sentidos. “Dons espirituais” é preferível à luz de 1 Coríntios 12:4, em que Paulo claramente se refere aos dons. Em 1 Coríntios 12:2 e 3, ele indica que o primeiro dom do Espírito é a confissão de fé de que Jesus é o Senhor. Na época do Novo Testamento, dizer que Jesus é o Senhor significava afirmar que César não o era (At 17:7; Jo 19:12, 15). Isso era visto como rebeldia contra a autoridade imperial e, portanto, punível com a morte.
Jesus e Paulo enfatizaram que a fé em Deus – mesmo diante de perseguição e ameaça de morte – é um dom do Espírito. Na verdade, a fé é o dom mais básico. Não por acaso, ela é mencionada em primeiro lugar em 1 Coríntios 13:13. Que a fé é um dom espiritual fica claro em 1 Coríntios 12:9. No entanto, há muitos outros dons. O fato de o Espírito Santo distribuir os diferentes tipos de dons “a cada um, individualmente, conforme Ele quer” (1Co 12:11) prova que todos eles são necessários.
1. Leia 1 Coríntios 12:1-6. Qual é a ênfase dessa passagem?
A repetição das palavras “diversos” e “diversidade” destaca a multiplicidade de dons. O que Paulo chama de “dons espirituais” em 1 Coríntios 12:1 é desenvolvido, nos versos 4 a 6, sob três perspectivas: “dons” (karisma), “serviços” ou “ministérios” (diakonia) e “realizações” (energema). Embora os termos tenham nuances distintas, não convém estabelecer uma distinção rígida entre eles, pois o paralelismo do texto os aproxima. Observe também que os dons espirituais existem para promover a unidade com base no caráter triúno de Deus (veja Ef 4:8-11). O Espírito concede os dons, e Deus capacita os crentes para servir a Cristo na comunidade de fé (1Co 12:5, 6). Cada cristão recebe dons individualmente (1Co 12:11), mas eles são dados para o benefício de toda a igreja.
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A noção de unidade introduzida em 1 Coríntios 12:4 a 6 (“o Espírito é o mesmo”, “o Senhor é o mesmo” e “o mesmo Deus”) é desenvolvida no decorrer do capítulo. Isso fica evidenciado pelo uso de expressões como: “um só e o mesmo Espírito” (1Co 12:11), “o corpo é um” (1Co 12:12), “um só corpo” (1Co 12:12, 13, 20), “um só Espírito” (1Co 12:13 [duas vezes]) e “todos os membros cuidem igualmente uns dos outros” (1Co 12:25, NVI).
Ao lado do conceito de unidade, Paulo ressalta a diversidade dos membros no corpo de Cristo: “muitos membros” (1Co 12:12, 20), “todos nós fomos batizados” (1Co 12:13), “não é um só membro, mas muitos” (1Co 12:14), “todo o corpo” (1Co 12:17), “cada um deles” (1Co 12:18), “membros do corpo” (1Co 12:22, 23) e “todos os membros” (1Co 12:26, ACF). Essa ênfase, ao mesmo tempo, em unidade e diversidade mostra que os dons espirituais visam pro-mover unidade por meio da diversidade.
Essa unidade em meio à diversidade deve refletir o caráter de Deus. O Pai é uma pessoa, o Filho é outra, e o Espírito Santo, outra. As três Pessoas da Divindade mantêm Sua individualidade enquanto atuam juntas para edificar a igreja e capacitá-la para a missão (1Co 12:4-6; Ef 4:11-13).
2. Leia 1 Coríntios 12:12-31. Por que a ilustração do corpo com suas muitas partes é adequada para representar a igreja e seus membros?
Uma ideia central de 1 Coríntios 12 é que, embora os membros do corpo sejam diferentes entre si (1Co 12:15-20), dependem uns dos outros (1Co 12:21-26). Os pés dependem dos olhos para ver por onde andar; por sua vez, os olhos não tocam nada – apenas as mãos o fazem. Além disso, a ideia de que alguns membros são “mais fracos” (1Co 12:22) ou “menos dignos” (1Co 12:23) é apenas aparente, pois todos são necessários (1Co 12:22).
Infelizmente, havia entre os coríntios a tendência de valorizar alguns dons e desprezar outros. Para evitar esse erro, Paulo dirigiu sua atenção ao amor, “um caminho ainda mais excelente” (1Co 12:31). Em outras palavras, qualquer que seja o dom, quando exercido com sabedoria e amor, agrada a Deus.
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“O amor não é um dom entre muitos. É o meio pelo qual todos os dons alcançam seu propósito” (Comentário Bíblico Andrews, v. 4: “Romanos a Apocalipse” [CPB, 2025], p. 194).
3. Leia 1 Coríntios 13:1-7; 1 Pedro 4:8-11. Qual é o papel do amor em relação aos dons espirituais?
Em 1 Coríntios 13, Paulo ensina que apenas pelo amor os dons espirituais podem ser usados de modo adequado. O apóstolo inicia o capítulo retomando dons mencionados em 1 Coríntios 12, apenas para destacar que eles não têm valor algum se não forem motivados pelo amor. Assim, conhecimento (1Co 12:8) e fé (1Co 12:9) – mesmo uma fé a ponto de “transportar montes” (1Co 13:2) – nada são sem amor (1Co 13:2). Do mesmo modo, a habilidade de falar em línguas (1Co 12:10, 28, 30), sem amor, reduz-se ao “bronze que soa” ou ao “címbalo que retine” (1Co 13:1). Até o importante dom de profecia, sem amor, nada é (1Co 13:2).
Paulo descreve em 1 Coríntios 13:4 a 7 o que o amor é e o que não é – mais precisamente, o que ele faz e o que não faz. Os verbos escolhidos mostram que amor não é apenas sentimento, é ação. Assim, o amor (1) é paciente, (2) é bondoso, (3) se alegra com a verdade, (4) tudo sofre, (5) tudo crê, (6) tudo espera e (7) tudo suporta. Em contraste, o amor (1) não inveja, (2) não se vangloria, (3) não se orgulha, (4) não se conduz de forma inconveniente, (5) não procura os próprios interesses, (6) não se irrita, (7) não guarda rancor e (8) não se alegra com a injustiça.
Esse conjunto de 15 verbos apresenta orientação sólida para o comportamento adequado no exercício dos dons. Não por acaso, a discussão sobre a verdadeira natureza do amor está situada exatamente entre os capítulos 12 e 14, em que Paulo trata do conflito a respeito dos dons espirituais. De fato, o amor é a chave para o uso sábio dos dons. E ele é colocado ao lado da fé e da esperança – “porém o maior deles é o amor” (1Co 13:13).
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Como entender o dom de línguas? Em harmonia com as manifestações desse dom registradas em outras partes da Bíblia (Mc 16:17; At 2:1-13; 10:44-48; 19:6), o dom de línguas tratado em 1 Coríntios é, muito provavelmente, a capacidade concedida pelo Espírito Santo de falar idiomas estrangeiros.
Paulo menciona o dom de línguas na lista de dons em 1 Coríntios 12:8 a 10 (veja 1Co 12:28, 30; 13:1, 8). Contudo, ele se refere a esse dom repetidas vezes em 1 Coríntios 14. De fato, a palavra grega glossa (“língua”) ocorre mais de 20 vezes em 1 Coríntios 12–14, sendo 15 ocorrências apenas no capítulo 14. Além disso, em 1 Coríntios 14:21 aparece também o termo grego heteroglossos (“outras línguas”). Esse número elevado de referências indica que o tema tinha importância especial para Paulo. O uso indevido e o abuso desse dom na igreja de Corinto causavam desordem e confusão no culto público (1Co 14:23, 27, 33, 40).
4. Leia 1 Coríntios 14:5, 13, 26, 27; 12:10, 30. Quais orientações específicas Paulo deu quanto ao dom de línguas?
A razão pela qual o falar em línguas deve ser acompanhado de interpretação é que as línguas precisam ser compreensíveis (1Co 14:9); do contrário, não há proveito em usar o dom (1Co 14:6). Isso explica por que Paulo deu tanta ênfase à interpretação e ao entendimento. É evidente que ele não criticava o dom em si, mas – como veremos amanhã – a importância excessiva que os coríntios lhe atribuíam, o que levou ao descuido do dom de profecia.
É importante observar que, embora Paulo desejasse que todos em Corinto pudessem falar idiomas estrangeiros (1Co 14:5), ele não esperava que isso ocorresse com todos (1Co 12:10). Por isso, a ideia de que “todos devam falar em línguas como prova do batismo no Espírito Santo é uma perversão do ensino paulino em 1 Coríntios 12 e 14” (Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia [CPB, 2011], p. 687).
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O dom de profecia ocupa lugar de destaque na discussão de Paulo sobre os dons espirituais. É interessante notar que ele costuma ser mencionado antes do dom de línguas (1Co 12:10, 28; 13:8). Quando o dom de línguas é citado em primeiro lugar, serve apenas para ressaltar que tem menor importância que o dom de profecia (1Co 14:4, 5, 6, 22).
5. Leia Efésios 4:11-13; 1 Coríntios 14:3, 4. O que esses textos dizem sobre o propósito dos dons espirituais em geral e do dom de profecia em particular?
O dom de profecia tem a finalidade de edificar, exortar e consolar (1Co 14:3; veja At 15:32). Isso indica que profecia não se trata tanto de prever o futuro, mas de orientar a vida no presente. O verbo grego propheteuo pode significar “anunciar algo com antecedência” ou “dizer algo em nome de alguém”. O primeiro sentido aparece em Atos 2:29 a 31, em que Davi é chamado de profeta por antever acontecimentos (veja Am 3:7). O segundo sentido é visto em Atos 15:32, em que Judas e Silas são identificados como profetas. A “profecia” deles, entretanto, consistiu em encorajar e fortalecer “os irmãos com muitos conselhos”.
Efésios 4:11 a 13 nos ensina que os dons espirituais não terminaram na época dos apóstolos. Eles devem permanecer até o fim (At 2:39). Contudo, quem afirma ser profeta precisa ser examinado com base nas Escrituras. Em termos gerais, quatro regras devem ser atendidas: (1) as predições se cumprem (Dt 18:22; Jr 28:8, 9); (2) a mensagem concorda com a dos profetas anteriores (Dt 13:1-3; Is 8:20); (3) a vida diária demonstra compromisso com Cristo (1Jo 4:1-3); e (4) os frutos são reconhecidos (Mt 7:15-20) – isso também se aplica aos verdadeiros profetas.
O Apocalipse indica que o dom de profecia é uma característica distintiva da igreja remanescente (Ap 12:17; 19:10). Como adventistas do sétimo dia, cremos que esse dom foi concedido a Ellen White e se reflete em seus escritos.
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Leia, de Roswell F. Cottrell, capítulo 33, “Introdução”, em Ellen G. White, Primeiros Escritos [CPB, 2022], p. 134-142.
“Saiam os homens a labutar, confiando no Senhor, e Ele irá com eles, convencendo e convertendo pessoas. Um obreiro poderá ser um orador fluente, outro um hábil escritor, outro talvez tenha o dom de sincera, diligente e fervorosa oração, outro o dom de cantar. Outro poderá ter especial poder para explicar a Palavra de Deus com clareza. E todo dom deve tornar-se um poder para Deus porque Ele trabalha com o obreiro. A um Deus dá a palavra de sabedoria, a outro conhecimento, a outro fé. Mas todos devem trabalhar sob as ordens do mesmo Dirigente. A diversidade de dons conduz à diversidade de realizações, ‘mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos’ (1Co 12:6).
“Ninguém despreze os supostos dons menos importantes. Ponham-se todos a trabalhar. Que ninguém cruze os braços com descrença, por pensar que não pode realizar uma grande obra. Deixem de olhar para o próprio eu. Olhem para seu Líder. Com sinceridade, mansidão e amor, façam o que podem” (Ellen G. White, Este Dia com Deus [CPB, 1979], 18 de janeiro).
“Cada um de nós necessita da ajuda que podemos receber de outras mentes. Deus atuará em outras mentes além da nossa. Os vários dons dados a diferentes indivíduos devem fundir-se para ‘o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo’ (Ef 4:12). [...] Sempre haverá obstáculos diante de nós, mas devemos seguir nosso Líder e enfrentar nossas dificuldades unidos, de mãos dadas” (Ellen G. White, Olhando Para o Alto [CPB, 1982], 7 de maio).
Perguntas para consideração
1. Por que o dom de profecia é mais importante do que o dom de línguas quando não há interpretação? Se necessário, releia 1 Coríntios 14 para recapitular os argumentos de Paulo.
2. Em classe, conversem sobre Ellen White e por que, como igreja, cremos que ela recebeu o dom de profecia. Que grandes bênçãos esse dom traz à igreja? Quais são os desafios para saber usá-lo da melhor maneira?
3. Por mais importante que seja o amor, por que ele não pode ser o único critério para discernir se alguém está falando a verdade e merece ser ouvido?
Respostas às perguntas da semana: 1. A ênfase está na diversidade dos dons espirituais, mas em sua única origem divina. 2. Porque mostra que os membros são diferentes, mas interdependentes e essenciais para o funcionamento do todo. 3. O amor é o princípio que dá valor, direção e propósito ao uso de todos os dons. 4. Paulo ordena que o dom de línguas seja exercido com interpretação, ordem e edificação, e nunca de forma confusa ou dominante. 5. Os dons espirituais existem para edificar a igreja, e o dom de profecia, em especial, serve para instruir, encorajar e fortalecer os crentes.
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TEXTO-CHAVE: 1Co 14:1
FOCO DO ESTUDO: 1Co 12
ESBOÇO
Introdução: Imagine uma orquestra em uma grande sala de concertos, prestes a iniciar uma apresentação. Os músicos afinam seus instrumentos, e então o maestro levanta a batuta. Os músicos começam a tocar seus diversos instrumentos. Violinos, violoncelos, trompetes, flautas, tambores e outros instrumentos produzem, em conjunto, uma bela melodia ao seguir a direção do maestro.
Agora imagine se o violinista dissesse de repente: “Não quero tocar porque não estou tocando trompete. Minha parte não é importante”. Ou se o percussionista decidisse bater nos tambores ou estrondar os címbalos o mais alto possível, abafando todos os outros instrumentos. A bela harmonia se transformaria em caos!
Na orquestra, nenhum instrumento é desnecessário. Cada músico contribui para a obra-prima. Mas os músicos precisam trabalhar juntos. Se uma pessoa se recusar a tocar, a música sofre. Os músicos não tocam para si mesmos: eles seguem a direção do maestro para criar algo maior do que eles mesmos.
Em 1 Coríntios 12, Paulo usa uma metáfora diferente para enfatizar a mesma verdade. Na igreja, cada crente recebeu um dom espiritual distinto. Alguns dons são mais visíveis, enquanto outros atuam silenciosamente nos bastidores; mas todos são essenciais.
Temas da lição: A lição desta semana destaca três temas importantes:
1. Primeiro, o mais importante. Quaisquer que sejam nossos dons ou ministérios, somos chamados a focalizar Jesus como nosso Salvador, Médico dos médicos e, em última instância, como Aquele que nos capacita para o serviço em favor dos outros (1Co 12:1-3).
2. Um Espírito, muitos dons. Paulo lembra seus leitores de que todos os dons têm, em última análise, a mesma origem, pois é o próprio Deus quem concede poder à Sua igreja com esses dons para abençoar e alcançar o mundo (1Co 12:4-11).
3. Um corpo, muitas partes. Paulo apresenta a metáfora do corpo para ilustrar a diversidade de dons dentro da igreja e desafia seus leitores a manterem o olhar no panorama geral (1Co 12:12-31).
COMENTÁRIO
1. Contexto
Na Corinto do primeiro século, experiências místicas, como profecia e fala em êxtase, eram comuns nas religiões gregas e romanas. Essas experiências muitas vezes estavam associadas a possessão divina, aos cultos de mistério e aos oráculos. O Oráculo de Delfos, um dos locais religiosos mais famosos da Grécia, contava com uma sacerdotisa (Pítia) que entrava em um estado semelhante a um transe, no qual se acreditava que era possuída pelo deus grego Apolo. Nesse estado, ela pronunciava mensagens em êxtase e enigmáticas, que eram depois interpretadas pelos sacerdotes. Outros templos, como o Oráculo de Dodona, também praticavam profecias, nas quais sacerdotes ou sacerdotisas recebiam mensagens divinas por meio de manifestações naturais (vento, farfalhar das folhas, etc.). Esse tipo de fala em êxtase era considerado um sinal do favor divino e de discernimento espiritual, de modo semelhante à forma como alguns coríntios viam o falar em línguas.
Os cultos de mistério, como os de Dionísio (Baco), Cibele e Ísis, envolviam rituais, música e adoração frenética que frequentemente levavam a estados de transe, êxtases emocionais e à percepção de comunicação com os deuses. No culto dionisíaco, os adoradores participavam de danças extáticas e cânticos, acreditando estar cheios da presença do deus. Alguns estudiosos sugerem que certos cristãos de Corinto, influenciados por essas tradições, talvez associassem os dons espirituais, como o falar em línguas e a profecia, a experiências extáticas semelhantes. Essa mentalidade provavelmente contribuiu para as divisões na igreja de Corinto, pois alguns crentes se consideravam mais “espirituais” com base em seus dons. Paulo desafia essa ideia ao enfatizar que todos os dons vêm do mesmo Espírito (1Co 12:4-11) e existem para o benefício de toda a igreja, não para a elevação do status individual.
2. Primeiro o mais importante
Paulo introduz um novo assunto em 1 Coríntios 12:1 com a expressão “a respeito dos dons espirituais”. Marcadores semelhantes de um novo tema podem ser encontrados em 1 Coríntios 7:1, 25; 8:1; 16:1, 12. O termo grego pneumatikon é um adjetivo no plural que significa “espirituais” e pode designar tanto “coisas espirituais” quanto “pessoas espirituais”. O apóstolo se preocupa com os membros da igreja de Corinto e sua percepção distorcida de si mesmos como “espirituais” (1Co 14:37). “Havia o perigo (e, em alguns casos, uma realidade) de as pessoas alegarem ter um status espiritual mais elevado dentro da comunidade, o que criava uma estratificação entre os crentes. Paulo rejeita esse tipo de mentalidade” (“1 Coríntios”, em Comentário Bíblico Andrews, [CPB, 2025] p. 191, 192). Em vez de focar os dons, Paulo lembra sua audiência de que devem se alegrar quando o Espírito de Deus os convence a confessar Jesus como seu Salvador (1Co 12:3). Ninguém verdadeiramente guiado pelo Espírito pode amaldiçoar a Jesus. Nesse sentido, todos os crentes são “espirituais”, em virtude da confissão cristã fundamental de que Jesus é o Senhor.
3. Um Espírito, muitos dons
Antes de detalhar os diferentes dons espirituais, Paulo faz uma afirmação em 1 Coríntios 12:4 a 6 que inclui todos os membros da Divindade, destacando a diversidade de dons concedidos pelo Espírito, a diversidade de serviços concedidos pelo Senhor (isto é, Jesus) e a diversidade de atividades concedidas pelo “mesmo Deus [que] é quem opera tudo em todos” (1Co 12:6). A sequência, portanto, é Espírito-Filho-Pai. Assim, a unidade da Divindade se torna a matriz ou o exemplo contra o qual a igreja de Corinto, frequentemente dividida, poderia medir a si mesma.
Paulo lembra seus leitores de que o primeiro dom que Deus concede a todos os crentes é a confissão de fé de que “Jesus é o Senhor” (1Co 12:2, 3). Essa crença está em harmonia com a declaração de Jesus em João 6:44: “Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o trouxer”. Embora tenhamos sido dotados de liberdade para escolher, é necessário que sejamos atraídos pelo Espírito (ou pelo Pai) para dar o primeiro passo de fé em direção a Jesus.
Paulo então continua a descrever a diversidade dos dons espirituais, bem como os ministérios e atividades dentro da comunidade cristã (1Co 12:4-11). “Paulo explica que os dons do Espírito Santo são dados para o benefício de toda a igreja (12:7)” (“1 Coríntios”, em Comentário Bíblico Andrews [CPB, 2025], p. 192). Assim, os dons não são sinal de domínio ou superioridade espiritual, mas símbolos da graça de Deus que nos capacita a servir uns aos outros e também ao mundo ao nosso redor. Os vários dons descritos no capítulo (incluindo capacitações espirituais ligadas à sabedoria e ao conhecimento, curas ou a realização de milagres, discurso profético, discernimento espiritual, línguas e outros) são todos dados para abençoar a comunidade dos crentes. Nenhum dos dons deve ser considerado superior ou mais importante do que outro.
4. O corpo de Cristo – uma ideia radical
A metáfora de Paulo da igreja como um corpo (1Co 12:12-27) era contracultural. Na sociedade romana, a classe social e o status eram rígidos, com os ricos e poderosos no topo. A ideia de que cada membro da igreja – rico ou pobre, escravo ou livre, homem ou mulher – tinha o mesmo valor era revolucionária. Paulo enfatiza que, em Cristo, todos os crentes estão interligados e devem honrar uns aos outros, rejeitando a hierarquia do mundo.
Como observa o estudioso do Novo Testamento Jason Staples: “Paulo leva essa imagem um passo além de seu sentido metafórico ou analógico usual. Para o apóstolo, o ‘corpo de Cristo’ não é apenas uma metáfora para indivíduos unidos pela fé em Jesus, mas uma realidade ontológica e relacional na qual as pessoas, recebendo o ‘Espírito de Cristo’ (Rm 8:9), tornam-se incorporadas ao próprio Cristo. Os crentes de fato se tornam o ‘corpo de Cristo’ ao serem ‘batizados em um só corpo por um só Espírito’ (1Co 12:13)” (Staples, “Body of Christ” em Dictionary of Paul and His Letters [Downers Grove, IL: IVP Academic, 2023], p. 83).
O uso da metáfora do corpo destaca a unidade da comunidade, mas também a unidade da igreja com o seu Senhor, especialmente à luz do fato de que Cristo é a cabeça do corpo (Cl 1:18; Ef 4:15). Nesse sentido, o corpo não é, em primeiro lugar, um corpo de crentes, mas o corpo de Cristo; ou seja, o foco principal da metáfora é a união dos crentes com Cristo.
Como Paulo descreve no capítulo, isso significa que distinções étnicas, de gênero e de status social são irrelevantes para a inclusão no corpo de Cristo. Essa ideia não era apenas contracultural, mas também subversiva e perigosa para a sociedade greco-romana, na qual status, poder, vergonha, honra e também gênero exerciam papéis de enorme importância.
Observe o seguinte exemplo apresentado pelo estudioso do Novo Testamento Philip Ryken sobre percepções de hierarquia, status e gênero no mundo da igreja apostólica: “Considere a oração, às vezes atribuída a Sócrates, em que um homem grego agradecia a Deus ‘por ter nascido um ser humano e não uma besta; depois, um homem e não uma mulher; e, por fim, um grego e não um bárbaro’. Os pagãos, em geral, desprezavam seus escravos e maltratavam suas mulheres. Em alguns lugares, os escravos eram proibidos de entrar nos templos pagãos, enquanto as mulheres eram tratadas como propriedade” (Philip Graham Ryken, Galatians, Reformed Expository Commentary [Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2005], p. 148). É evidente que a mensagem de Paulo à igreja de Corinto era contracultural.
APLICAÇÃO PARA A VIDA
Nossa tendência humana é colocar em ordem hierárquica os dons que Deus concedeu à igreja como corpo de Cristo. Paulo apresenta a metáfora do corpo e de seus membros para ajudar seus leitores a focarem a unidade e a missão. Os membros do corpo, escreve ele, não podem sobressair por si mesmos. Na verdade, não podem sequer sobreviver sozinhos. O olho precisa da pálpebra; a cabeça precisa do pescoço; o pé precisa das pernas; e todos dependem do coração para receber oxigênio e sangue suficientes. Com base em 1 Coríntios 12, discutam em grupo as seguintes questões:
1. Como podemos aplicar a metáfora paulina do corpo às realidades de nossa igreja, com programas concorrentes e prioridades diferentes?
2. O que você diria a respeito da ideia de que Deus deseja ver um corpo, e não apenas membros isolados, em Sua igreja?
3. O que a metáfora da igreja como corpo de Cristo comunica às pessoas que vivem no século 21?
4. Quais seriam os melhores critérios para avaliar os dons espirituais e sua importância para a igreja?
5. Como podemos descobrir nossos próprios dons no contexto da missão da igreja?
6. Se fosse possível escolher, qual dom você gostaria de ter e por quê?
Um casamento feito no Céu
Espanha | Albert e Ligia
Ao diretor da Escola Sabatina: Peça a duas pessoas, um homem e uma mulher, que compartilhem a história missionária desta semana. Eles podem se revezar para relatar as experiências de Albert, 40, e Ligia, 39.
Ligia: Nasci em uma família adventista do sétimo dia na Venezuela e cresci exposta a ensinamentos e experiências sobre Deus. Mas, aos 22 anos, deixei a igreja e entrei no mundo do show business e da moda. Durante anos, fui modelo em concursos de beleza como Miss Venezuela, Miss Hawaiian Tropic e Miss Hispano. Trabalhei na televisão, no cinema e no teatro. Apareci em revistas e catálogos de moda. Tive meus próprios negócios. Minha vida parecia perfeita por fora, mas eu me sentia vazia por dentro.
Albert: Fui criado em uma pequena cidade a cerca de 120 km de Barcelona, na Espanha. Minha família tinha alguma formação religiosa, mas como a fé não era parte central da vida cotidiana, cresci em um ambiente mais agnóstico. Sempre tive perguntas profundas sobre a vida e a morte. Busquei respostas em várias religiões do mundo, mas nunca imaginei que a verdade que eu tanto ansiava pudesse ser encontrada na Bíblia.
Eu adorava arquitetura, cultura, viajar, descobrir o mundo e história. Mas minha vida era cheia de festas e relacionamentos sem sentido que me deixavam insatisfeito.
Ligia: Eu também viajei pelo mundo. Embora estivesse longe de Deus, no fundo do meu coração, eu sentia que não pertencia ao mundo do show business. Eu sabia que Deus estava me protegendo, mas achava que voltar para Ele era impossível. Meus fins de semana eram cheios de eventos, e meu estilo de vida estava longe do que Deus queria para mim.
Depois de muitos relacionamentos fracassados, incluindo um particularmente doloroso, tomei uma decisão radical. Abandonei minha carreira. Abandonei tudo, inclusive meus negócios. Minha identidade estava enraizada no mundo do entretenimento, e agora eu não tinha ideia de quem eu era. Na época, eu morava na Espanha. Fiquei muito triste e comecei a buscar respostas em livros de autoajuda. Durante o processo, fiz uma lista de itens inegociáveis para meu futuro marido. O primeiro item da lista era que ele deveria acreditar em Deus.
Albert: Cheguei ao fundo do poço depois de anos de festas e de procurar respostas nos lugares errados. Eu sentia que minha vida precisava de um novo significado. Fiquei profundamente triste. Meu coração estava pronto para algo novo. E foi aí que nossos caminhos se cruzaram.
Quando nos conhecemos, nossa conexão foi imediata. Para nossa surpresa, nossas conversas começaram naturalmente a girar em torno da fé.
Ligia: Em nosso segundo encontro, compartilhei músicas de um cantor adventista do sétimo dia muito conhecido na Espanha. Eu nunca tinha feito isso com ninguém. Albert ficou chocado e surpreso no início, mas não disse nada a respeito.
Nossas conversas ficaram cada vez mais profundas. Albert começou a descobrir Deus, e eu comecei a redescobrir Deus pela experiência, não pela tradição.
Albert: Passamos noites chorando, conversando e rindo — tentando entender como Deus nos havia guiado até aquele ponto. Para Ligia, foi como voltar para casa. Para mim, foi o início de uma nova realidade que eu nunca imaginei ser possível. Descobrir o Deus da Bíblia parecia loucura, mas acabou sendo a verdade mais linda que eu já havia encontrado.
Ligia: Percebemos que nosso relacionamento não era apenas entre nós dois. Era entre três: Albert, eu e Deus. Desde o início, Deus estava no centro, guiando cada passo. Quando percebemos que Ele tinha um propósito para nós, decidimos ficar noivos.
Albert: Fomos batizados e depois nos casamos. Percebemos que tudo o que havíamos vivido até aquele momento não tinha acontecido por acaso.
Tudo do nosso passado havia nos deixado vazios, mas agora Deus estava nos preenchendo com Seu amor. Ele nos mostrou que o sucesso mundano, as festas e os relacionamentos superficiais nunca poderiam preencher o vazio que somente Ele pode preencher.
Ligia: Deus nos resgatou de um mundo de superficialidade. Agora, dedicamos nossas vidas a trabalhar para Ele, ajudando outras pessoas a encontrar o mesmo amor transformador que encontramos em Deus.
Albert: Hoje, caminhamos juntos na crença de que Deus está à nossa frente e nos guiando. Nossa missão é compartilhar essa mensagem com pessoas que, como nós, estão buscando o sentido da vida.
Ligia: Essa é a nossa história: do mundo direto para os braços de Deus.
Narrador: Hoje, Albert está cursando um mestrado em fé e ciência no Colégio Adventista de Sagunto, na Espanha, para que ele e Ligia possam compartilhar Deus de forma mais eficaz com pessoas seculares. Adventistas do sétimo dia de todo o mundo ajudaram a tornar os estudos de Albert possíveis. Parte de uma oferta anterior do trimestre, também conhecida como Oferta Trimestral para Projetos Missionários, ajudou a expandir o departamento de teologia onde ele estuda.
Obrigado por sua oferta neste trimestre, que apoiará mais projetos para espalhar o evangelho nos países predominantemente seculares da Divisão Intereuropeia, incluindo a Espanha.
Dicas para a história
• Mostre a Espanha em um mapa. Em seguida, aponte para Sagunto, perto de Valência, onde fica o Colégio Adventista de Sagunto. O colégio recebeu parte da oferta para seu departamento de teologia no primeiro trimestre de 2020.
• Visite o site de Albert e Ligia em: elcieloalatierra.com.

