O apóstolo João fazia parte do círculo íntimo dos 12 apóstolos (Lc 8:51; Mt 17:1; 26:36, 37). Depois da ascensão de Cristo, ele continuou seu ministério em Jerusalém. No entanto, antes da queda da cidade (no ano 70 d.C.), mudou-se para Éfeso a fim de supervisionar as igrejas da província romana da Ásia Menor. Durante a perseguição aos cristãos sob o domínio do imperador romano Domiciano, o apóstolo foi exilado em Patmos, uma ilha no mar Egeu.
Em Patmos, João recebeu mensagens proféticas especiais destinadas não apenas às sete igrejas da Ásia Menor, mas também aos cristãos de todas as épocas (Ap 1:1-3, 9-11). A cadeia de transmissão da mensagem profética, da qual João fazia parte, seguia esta sequência: Deus, o Pai; Jesus Cristo; o anjo; o apóstolo João; e, por fim, os leitores e ouvintes. Esse é um exemplo clássico do processo de revelação e inspiração, no qual Deus usa profetas para comunicar Suas mensagens à humanidade.
A lição desta semana examina especificamente o diverso e rico processo de revelação e inspiração, com foco especial nas formas oral, escrita e dramatizada pelas quais a mensagem divina tem sido comunicada aos seres humanos.
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1. Leia Hebreus 1:1 e 2. Por que Deus Se interessa tanto em falar conosco? O que Ele nos diz por meio de Jesus e dos profetas?
O que o Criador do Universo teria a nos dizer? Por que Ele Se comunica conosco? Porque somos seres humanos caídos em um mundo de pecado, expostos à morte, ao sofrimento e às provações. Deus fala a nós porque deseja que saibamos por que estamos aqui, por que as coisas vão tão mal e por que, apesar de tudo, ainda podemos ter esperança em Seu amor por nós.
A revelação geral de Deus, visível no mundo natural, fala de maneira eloquente sobre Seu poder infinito e Seu amor cuidadoso. O rei Davi exclamou: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos” (Sl 19:1). O apóstolo Paulo acrescentou: “Pois, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus – o Seu eterno poder e a Sua natureza divina – têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1:20, NVI).
É também impressionante refletir sobre o poder restaurador de Deus, manifesto nos misteriosos processos de cura em nosso mundo. De fato, “o poder restaurador de Deus está por toda a natureza. Se uma árvore é cortada, se um ser humano se fere ou fratura um osso, imediatamente a natureza começa a reparar o dano. Mesmo antes que exista a necessidade, os agentes de cura estão de prontidão; e, logo que uma parte se machuca, toda a energia é aplicada ao trabalho de restauração” (Ellen G. White, Educação [CPB, 2021], p. 79).
Por mais belo e instrutivo que seja, o mundo natural revela não apenas o poder e o amor de Deus, mas também a presença do mal (veja Gn 3:14-19; Mt 13:24-30). Essa mensagem ambígua só pode ser compreendida corretamente à luz da revelação especial de Deus – tanto em Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada, quanto na Bíblia, a Palavra de Deus escrita.
As Escrituras são o registro inspirado das mensagens de Deus a todos os seres humanos ao longo dos tempos. Elas nos contam sobre a criação do mundo e sua queda trágica, bem como sobre o maravilhoso plano divino de redenção e a restauração final do planeta Terra. Por mais breves e seletivos que alguns relatos bíblicos possam ser, eles são sempre confiáveis, pois é o próprio Deus que nos fala por meio deles (veja 2Tm 3:16; 2Pe 1:19-21).
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Ao longo dos séculos, muitos livros e escritos chegaram até nós. Ainda assim, consideramos a Bíblia como a Palavra de Deus. O que a distingue de todos os outros escritos?
2. Leia 2 Timóteo 3:15-17 e Tiago 1:17. Que mensagem importante devemos extrair desses versos?
Há certa discussão sobre a melhor forma de traduzir 2 Timóteo 3:16, mas a maioria das versões bíblicas apresenta esse texto de modo semelhante, enfatizando que toda a Bíblia tem origem divina (2Pe 1:20, 21).
Um comentarista bíblico explica que “parece mais provável que Paulo tivesse em mente as Escrituras como um todo e que dissesse que a totalidade das Escrituras é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça’, em vez de afirmar que cada passagem isolada das Escrituras seja útil nesses mesmos aspectos” (G. W. Knight III, The Pastoral Epistles: A Commentary on the Greek Text [Eerdmans, 1992], p. 445).
Mas como devemos entender o processo de inspiração que deu origem à Bíblia? Precisamos reconhecer que a inspiração profética é o Espírito Santo auxiliando os verdadeiros profetas na comunicação confiável das mensagens divinas. Esse auxílio é concedido não apenas no processo de receber as mensagens, mas também no de comunicá-las com clareza aos destinatários.
As mensagens de Deus foram transmitidas por meio de visões e sonhos (Nm 12:6; Is 6:1, 8). Deus também Se valeu de testemunhas oculares (1Jo 1:1-3), de pesquisas históricas inspiradas pelo Espírito Santo (Lc 1:1-3) e de impressões divinas na mente (2Pe 1:21). Independentemente dos meios utilizados pelo Espírito Santo, os profetas e autores bíblicos receberam mensagens objetivas da verdade a ser transmitida, e não meras impressões subjetivas. Ou seja, as mensagens de Deus não deviam ser adulteradas nem distorcidas de qualquer maneira por Seus mensageiros, ainda que eles usassem suas próprias palavras para expressá-las.
A tarefa de comunicar as mensagens proféticas aos destinatários originais podia ser realizada de forma oral (2Pe 1:19-21), por escrito (Jo 20:30, 31) ou até por meio de dramatizações (Ez 4:1-8).
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3. Leia 2 Pedro 1:18-21. Que segurança temos de que as mensagens transmitidas oralmente pelos profetas de Deus eram tão inspiradas e confiáveis quanto aquelas registradas por escrito?
Deus falou com Adão e Eva antes da queda (Gn 2:16, 17) e depois dela (Gn 3:9-19). Em ambos os casos, eles entenderam perfeitamente Suas palavras. A voz do Senhor também foi ouvida com absoluta clareza no Sinai (Êx 20:1-20), bem como no batismo e na transfiguração de Jesus (Mt 3:17; 17:5). Podemos, sim, interpretar mal o que outras pessoas nos dizem; mas, certamente, quando Deus fala com alguém, não há mal-entendido ou engano.
A Bíblia afirma que “Deus falou a Moisés e lhe disse: ‘Eu sou o Senhor’” (Êx 6:2). Muitos escritores bíblicos reconheceram ter ouvido a voz de Deus quando Ele lhes falou. Foi assim, por exemplo, com Isaías (Is 8:1, 11), Jeremias (Jr 1:4, 9, 11) e Ezequiel (Ez 3:16; 6:1). Qualquer tentativa de negar essas e outras declarações semelhantes acaba questionando a honestidade dos profetas e a confiabilidade da própria Bíblia.
Do mesmo modo que Deus falou aos profetas em linguagem humana inteligível, os profetas também transmitiram Suas mensagens de forma compreensível ao povo. Noé, por exemplo, foi um verdadeiro profeta de Deus e fiel “pregador da justiça” (2Pe 2:5). Ele não escreveu nenhuma parte da Bíblia, mas comunicou oralmente a mensagem divina aos seus contemporâneos, e sua pregação não era menos inspirada do que os escritos dos profetas canônicos.
Vários outros profetas, como Natã, Elias, Eliseu e João Batista, também não deixaram nenhum livro bíblico escrito; em vez disso, proclamaram a mensagem oralmente.
E o que dizer do próprio Jesus Cristo? Os evangelhos relatam que, durante Seu ministério terreno, Ele escreveu “na terra com o dedo” (Jo 8:6). E isso é tudo. Não temos registro de que Jesus tenha escrito mais alguma coisa. No entanto, Ele ensinava e pregava oralmente “como quem tem autoridade” (Mt 7:29), a ponto de alguns ouvintes admitirem: “Jamais alguém falou como Este homem” (Jo 7:40, 46). Jesus foi, sobretudo, um comunicador oral das mensagens de Deus. Suas palavras não tinham menos autoridade nem eram menos válidas pelo fato de Ele não ter escrito nenhum dos livros da Bíblia.
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Alguns discursos famosos impactaram profundamente a vida das pessoas e até mudaram o curso da história. Se esses discursos não tivessem sido registrados, suas palavras teriam se perdido ou sido distorcidas com o passar do tempo. Assim, a escrita confere permanência à palavra falada, e isso permite que a mensagem seja transmitida ao longo dos tempos.
Pouco depois de os israelitas saírem do Egito e derrotarem os amalequitas, Deus instruiu Moisés: “Escreva isto para memória num livro” (Êx 17:14). A partir de Moisés, que escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia, o livro de Jó e o Salmo 90, o Espírito Santo guiou os profetas canônicos na produção dos escritos que hoje formam os 66 livros da Bíblia.
4. Leia Êxodo 17:14; João 20:30, 31; 1 Coríntios 10:11; e Apocalipse 1:19. Por que Deus pediu a Seus profetas que registrassem por escrito as mensagens que lhes deu?
Os diversos livros da Bíblia refletem o estilo literário e a habilidade de seus respectivos escritores. Como veremos no estudo da próxima semana, as nuances pessoais e os estilos variados de cada autor não diminuem em nada a mensagem, pois não há “graus” de inspiração. Algumas partes da Bíblia são, claro, mais diretamente relevantes e aplicáveis à nossa vida e fé hoje do que outras. Mas isso não torna uma parte mais inspirada do que a outra.
Às vezes, os escritores bíblicos registraram por escrito mensagens inspiradas que haviam proclamado oralmente – por iniciativa própria ou com a ajuda de um colaborador de confiança. No livro de Deuteronômio, Moisés deixou escritos os últimos discursos que apresentou aos israelitas antes de sua morte. Os quatro evangelhos registram muitos dos sermões e ensinos de Jesus durante Seu ministério terreno.
Há também situações em que os profetas citaram fontes não inspiradas (At 17:28; 1Co 15:33; Tt 1:12) e até as palavras de Satanás (Gn 3:1-5; Mt 4:1-11).
Devemos lembrar que, ao registrar os sentimentos e desejos de outras pessoas, os profetas também expressaram suas próprias reações humanas (veja Dn 8:27; Ap 22:8, 9). Além disso, a Bíblia descreve muitos exemplos positivos, que devem ser imitados, e muitos exemplos negativos, que devem ser evitados (1Co 10:1-11).
Ao ler a Bíblia, precisamos ter em mente que, embora não tenha sido escrita em linguagem perfeita, ela transmite uma mensagem infalível, que resiste à prova do tempo.
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A Bíblia apresenta uma rica variedade de figuras e metáforas. Por exemplo, todo o sistema de sacrifícios do Antigo Testamento – com os altares patriarcais, o tabernáculo do deserto e o templo de Jerusalém – era uma representação simbólica do sacrifício expiatório de Cristo na cruz e de Seu sacerdócio celestial (Hb 8:1-6).
Nas profecias de Daniel, os reinos e poderes do mundo são representados por diferentes partes de uma grande estátua (Dn 2:31-45), por diversos animais e chifres (Dn 7; 8) e por dois reis (Dn 11). Representações semelhantes aparecem também no livro de Apocalipse, como no caso das duas bestas do capítulo 13.
Em Seus ensinos, Jesus Se apresentou, por exemplo, como o Pão da vida (Jo 6:35, 41-58), a Luz do mundo (Jo 8:12; 9:5) e a Videira verdadeira (Jo 15:1-8). Por meio da parábola do semeador (Mt 13:1-9, 18-23) e de várias outras (Mt 13:24-52), Ele ilustrou a natureza e o crescimento de Seu reino.
5. Leia Ezequiel 4:1-8. Por que você acha que Deus não apenas falou verbalmente, mas também dramatizou algumas de Suas mensagens?
Uma dramatização vívida aparece em Ezequiel 4: 1 a 8, eus pediu ao profeta que fizesse um modelo em miniatura de Jerusalém e se deitasse diante dele, primeiro sobre o lado esquerdo por 390 dias, representando o reino de Israel, e depois sobre o lado direito por 40 dias, representando o reino de Judá. Outra experiência visual foi o casamento de Oseias, ordenado por Deus, com Gômer, uma prostituta, simbolizando a infidelidade espiritual de Israel em relação ao Senhor (Os 1:2-9).
Hoje, as experiências dramáticas de Ezequiel e Oseias nos parecem bastante chocantes. Mas essa era justamente a intenção: elas deveriam causar impacto, não só em nós, mas também nas pessoas daquela época. Em um tempo em que as advertências dos profetas eram abertamente rejeitadas (veja 2Cr 36:15-21), um dos últimos atos de misericórdia divina foi alertar o povo de forma dramática a respeito de sua verdadeira condição, a fim de conduzi-lo ao arrependimento genuíno. Essa encenação dramática tinha o objetivo de mostrar o quanto eles precisavam levar a sério a advertência de Deus.
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Os adventistas do sétimo dia creem que Ellen White recebeu o mesmo tipo de inspiração que os profetas bíblicos, embora jamais tenha considerado seus escritos como estando no mesmo nível das Escrituras. Pelo contrário, Ellen White sempre exaltou a Bíblia. Como ela mesma entendia as revelações proféticas que recebeu de Deus e o processo de sua própria inspiração?
Em primeiro lugar, Ellen White sempre considerou a Bíblia como a revelação de Deus, infalível e autoritativa. As Escrituras revelam a verdade divina e o plano da salvação para a humanidade decaída. Nesse processo, como vimos ao longo desta lição, o Senhor Se vale de profetas para comunicar Suas mensagens.
Em segundo lugar, Ellen White reconhecia que o processo de inspiração envolvia uma interação divino-humana, em que o profeta transmitia a instrução divina usando suas próprias palavras: “Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A Inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio indivíduo que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. [...] A mente de Deus, bem como Sua vontade, são combinadas com a mente e a vontade humanas; assim, as declarações do homem são a Palavra de Deus” (Mensagens Escolhidas [CPB, 2022], v. 1, p. 16). Ela compreendia a “inspiração de pensamento” como uma união entre a revelação divina e a experiência humana: “As Escrituras Sagradas, com verdades dadas por Deus e expressas na linguagem da humanidade, apresentam uma união do divino com o humano” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 20).
Em terceiro lugar, Ellen White destacou que nem todas as suas experiências e comunicações humanas eram inspiradas. Ela explicou: “Há vezes, porém, em que devem ser declaradas coisas comuns, pensamentos comuns precisam ocupar a mente, cartas comuns precisam ser escritas, e transmitidas informações que passaram de um obreiro a outro. Essas palavras e informações não são dadas sob inspiração especial do Espírito de Deus” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 31). É importante ter em mente essa distinção ao lermos e avaliarmos seus escritos, especialmente sua correspondência e seus diários pessoais.
Respostas às perguntas da semana: 1. Deus fala conosco porque deseja Se revelar, salvar e Se relacionar com a humanidade; por meio dos profetas e, de modo supremo, de Jesus, Ele nos mostra Sua vontade, Seu caráter e Seu plano de salvação. 2. Toda boa dádiva vem de Deus, inclusive as Escrituras inspiradas, que são suficientes para ensinar, corrigir e capacitar o crente para toda boa obra. 3. Tanto as mensagens faladas quanto as escritas vieram do mesmo Espírito Santo, pois “homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. 4. Para que Sua revelação fosse preservada com fidelidade, servisse de testemunho às gerações futuras e produzisse fé e advertência para o Seu povo em todos os tempos. 5. Para torná-las mais vívidas, impactantes e inesquecíveis, ajudando o povo a compreender de forma concreta a seriedade de Seus juízos e apelos.
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TEXTO-CHAVE: Ap 1:1, 2
FOCO DO ESTUDO: Hb 1:1, 2; 2Tm 3:15-17; 2Pe 1:19-21; Êx 17:14; Ap 1:19; Ez 4:1-8
ESBOÇO
Introdução: A lição desta semana concentra-se em como Deus Se comunicou com os profetas e em como essa comunicação resultou na variedade de escritos que encontramos na Bíblia. Desde a queda, conforme destacou a primeira lição, os seres humanos perderam o acesso direto a Deus. Porém, por meio do processo de revelação-inspiração, Deus Se conectou com a humanidade caída e comunicou Sua vontade por intermédio dos profetas e de outros colaboradores das Escrituras. A própria Bíblia testemunha tanto a revelação quanto a inspiração nos escritores bíblicos e deve ser o ponto de partida para a compreensão desse processo divino-humano. Ellen White compreendeu esse processo tanto por experiência própria quanto por meio de seu estudo das Escrituras. Assim, a lição avança das Escrituras para a experiência pessoal dela com a revelação-inspiração.
COMENTÁRIO
1. Revelação geral versus revelação especial
Os teólogos distinguem dois tipos de revelação: a revelação geral e a revelação especial.
A revelação geral refere-se à autorrevelação de Deus por meio da natureza, da história e da experiência humana, tornando-O conhecido a todas as pessoas, em todos os lugares (Dn 2:21; Rm 2:11-16; At 14:16, 17). O Salmo 19:1 e 2 afirma que a criação declara a glória de Deus; contudo, essa revelação geralmente é vaga e imprecisa. Em contraste, a revelação especial é a comunicação direta de Deus a pessoas específicas, em tempos e lugares determinados, revelando verdades que são necessárias para um relacionamento redentor com Ele (Dt 29:29; Hb 1:1, 2). Em razão da queda da humanidade, a revelação geral, por si só, mostrou-se insuficiente, pois as pessoas necessitavam de uma orientação divina mais clara para superar suas limitações espirituais (1Co 2:14).
A revelação especial desvenda verdades sobre Deus que os seres humanos não podem descobrir de forma independente. Os termos bíblicos para “revelar” (em hebraico, galah, Am 3:7; em grego, apokalypt?, Rm 1:17) transmitem a ideia de tornar conhecido aquilo que estava oculto. A revelação pode ser descrita como a manifestação que Deus faz de Si mesmo e de Sua vontade a um instrumento escolhido, transmitindo um conhecimento que é inalcançável pelo esforço humano. A própria Bíblia é o registro dessa revelação especial, que culmina em Jesus Cristo, o qual, desde Gênesis 3:15, Se apresenta como o foco supremo da comunicação de Deus.
2. Inspiração
A revelação foi um evento vertical, no qual Deus comunicou a verdade a destinatários humanos, enquanto a inspiração foi o processo horizontal de preservar e transmitir essa verdade a outros. Esse processo ocorreu tanto por meio da proclamação oral quanto da redação das Escrituras. Muitas mensagens proféticas foram primeiro anunciadas oralmente antes de serem registradas por escrito (Is 7:3, 4; Jr 7:2), assim como ocorreu com o ensino de Jesus (Mt 5–7). As Escrituras servem de depósito autoritativo da verdade divina para orientação doutrinária e espiritual. Como revelação especial, a Bíblia testifica de sua própria inspiração. Paulo declarou que “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3:16), utilizando o termo grego theopneustos, que significa “soprada por Deus”. Isso significa que toda a Bíblia, e não apenas partes dela, foi divinamente inspirada, tornando-a plenamente confiável para o ensino e a instrução.
O processo de inspiração envolveu escritores humanos guiados pelo Espírito Santo. Pedro enfatizou essa realidade ao escrever que “homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1:21). A palavra grega pheromenoi (“movidos”) indica que o Espírito os conduziu, garantindo que as Escrituras não fossem meramente uma invenção humana. A inspiração pode ser descrita como um ato divino que capacita os profetas a receber e comunicar a revelação de maneira autoritativa e confiável. Essa iniciativa divina assegurou a preservação fiel da verdade de Deus por meio da Palavra escrita, como se observa quando Moisés foi instruído a registrar as palavras do Senhor (Êx 17:14; Dt 31:9). Posteriormente, Josué reforçou a importância de obedecer ao que está escrito no Livro da Lei (Js 23:6), destacando o papel duradouro das Escrituras inspiradas na condução do povo de Deus.
3. A revelação especial de Deus nas Escrituras
A revelação e a inspiração atuaram juntas na comunicação da vontade de Deus à humanidade. A revelação foi o ato vertical pelo qual Deus tornou a verdade divina conhecida por meio de sonhos, visões ou instrução direta ao profeta. Esse movimento ocorreu de Deus para os seres humanos. A inspiração foi o processo horizontal pelo qual os profetas, guiados por Deus, transmitiram fielmente a verdade revelada a outros. Isso ocorreu por meio da proclamação oral e do registro escrito da revelação, isto é, a redação daquilo que se tornaria a Bíblia.
Os profetas foram, ao longo de todo esse processo, o elo humano entre a revelação e a inspiração. Por meio da inspiração, comunicaram a verdade divina recebida de maneira confiável ao público a que se destinava. O movimento da inspiração deu-se de seres humanos inspirados para outros seres humanos, assegurando que a mensagem de Deus permanecesse digna de confiança e dotada de autoridade ao longo das gerações. Dessa forma, a Bíblia, a Palavra de Deus, foi transmitida à humanidade.
4. As diferentes manifestações da revelação-inspiração nas Escrituras
Deus revelou Sua vontade por meio de diversas modalidades, assegurando tanto a revelação (Sua verdade tornada conhecida) quanto a inspiração (a transmissão e preservação fidedignas dessa verdade). Algumas dessas modalidades são:
1. Teofanias – Aparições visíveis de Deus (Gn 17:1; Êx 33:11), que revelavam Sua presença e inspiravam os profetas.
2. Sonhos e visões – Mensagens divinas comunicadas e, posteriormente, registradas (Nm 12:6; Dn 2:19).
3. Mensageiros angélicos – Anjos que transmitiram revelações (Dn 10:11; Lc 2:8-14).
4. Lançamento de sortes – Orientações divinas no processo de tomada de decisões (Nm 26:55; At 1:21-26).
5. Urim e Tumim – Juízos divinos por meio do sumo sacerdote (Êx 28:30).
6. Discursos divinos – As palavras diretas de Deus, posteriormente registradas por escrito (Êx 20:1-17).
7. Sinais e milagres – Atos que revelavam o poder de Deus, registrados para as gerações futuras (Êx 7–14).
8. Jesus Cristo – A revelação suprema, cuja vida e ensinos foram preservados nas Escrituras.
A revelação tornou conhecida a verdade de Deus, enquanto a inspiração assegurou sua comunicação fidedigna.
5. Ellen White concedeu à Bíblia um status único
Depois de estabelecer os aspectos vertical e horizontal da comunicação de Deus, podemos agora examinar a experiência de revelação-inspiração de Ellen White. Se seu dom profético for autêntico, ele deve estar em harmonia com a experiência dos escritores bíblicos. Essa harmonia é exatamente o que encontramos em seu próprio testemunho. Ela declarou: “Sou tão dependente do Espírito do Senhor ao relatar ou escrever uma visão como ao ter a visão” (Ellen White, Mensagens Escolhidas [CPB, 2022], v. 1, p. 29). A experiência profética de Ellen White refletia o padrão bíblico, no qual revelação e inspiração atuavam conjuntamente.
O aspecto vertical – “ter a visão” – era central em seu ministério. Ao longo de 70 anos, ela recebeu aproximadamente mil sonhos e visões sobre diversos assuntos, incluindo admoestação pessoal, administração da igreja, educação, saúde, teologia e o grande conflito entre Cristo e Satanás. Ela descreveu essas experiências como sendo levada à presença de Deus, contemplando eventos do passado e do futuro e recebendo orientação divina.
O aspecto horizontal – “relatar ou escrever uma visão” – era igualmente crucial. Pouco tempo após sua primeira visão, em 1844, ela foi instruída a compartilhar o que tinha visto, dando início a uma tarefa que duraria toda a vida. Suas visões, que podiam durar de alguns minutos a várias horas, frequentemente exigiam semanas ou meses para serem registradas. Ela observou que nem sempre se lembrava imediatamente da visão, mas que esta retornava com clareza ao escrever ou falar em um contexto apropriado.
É importante observar que nem todos os seus escritos derivaram diretamente de visões. Ela utilizava a memória, a comparação de fontes e a pesquisa histórica, especialmente em obras como O Grande Conflito. Também tomou emprestadas e adaptou expressões de outros autores quando comunicavam de maneira eficaz a mensagem pretendida. Assim como Paulo, ela, por vezes, aplicou princípios divinamente revelados a situações específicas sem receber uma nova visão.
Os adventistas do sétimo dia creem que a experiência de inspiração de Ellen White foi idêntica à dos escritores bíblicos. Como ela mesma afirmou em 1876: “Nos tempos antigos, Deus falou aos homens pela boca de Seus profetas e apóstolos. Nestes dias, Ele lhes fala por meio dos testemunhos de Seu Espírito” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja [CPB, 2021], v. 4, p. 131).
Neste ponto, podem surgir perguntas sobre a relação entre os escritos de Ellen White e a Bíblia. Se sua inspiração foi a mesma dos escritores bíblicos, então suas visões e escritos não seriam iguais à Bíblia em todos os aspectos e, portanto, um acréscimo ao cânon das Escrituras? Essa questão será tratada mais adiante, na lição 10, que aborda a autoridade profética. Por ora, cabe observar que, embora seja lógico afirmar a igualdade da experiência de revelação-inspiração entre o Antigo Testamento, o Novo Testamento e o dom profético pós-canônico, a questão da autoridade e do cânon das Escrituras é distinta. Embora não existam graus de inspiração, existem graus de autoridade, e os profetas pós-canônicos (como Ellen White) não possuem a mesma autoridade do cânon bíblico (esta seção baseia-se em Jud Lake, Ellen White Under Fire: Identifying the Mistakes of Her Critics [Pacific Press, 2010], p. 90-102).
APLICAÇÃO PARA A VIDA
As seguintes perguntas de aplicação para a vida, extraídas do comentário desta lição, são oferecidas para enriquecer a discussão em classe. Escolha, entre elas e entre as perguntas da lição, aquelas que melhor envolverão a classe em uma reflexão significativa.
1. De que maneira a revelação geral (por meio da natureza, da história e da experiência humana) impacta sua fé pessoal e sua compreensão sobre Deus? Você consegue pensar em momentos específicos nos quais reconheceu a presença de Deus no mundo natural ou em acontecimentos da sua vida?
2. Visto que a revelação especial fornece um conhecimento mais claro do plano redentor de Deus, como você pode cultivar uma conexão mais profunda com as Escrituras como a revelação especial suprema de Deus? Que passos práticos podem ser dados para tornar o estudo da Bíblia uma parte mais transformadora de sua vida diária?
3. A Bíblia ensina que a “Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3:16). Contudo, ela foi escrita por autores humanos sob a orientação do Espírito Santo. Como esse duplo aspecto das Escrituras, divino e humano, fortalece sua fé na confiabilidade da Bíblia e na aplicação dela à sua vida?
4. A revelação e a inspiração assumiram diversas formas nas Escrituras, incluindo sonhos, visões, milagres e a fala direta de Deus. Você já vivenciou ou conhece alguém que tenha experimentado um momento de orientação ou percepção divina em sua vida? Como discernir se tais experiências estão em harmonia com a verdade bíblica?
5. A experiência de revelação e nspiração de Ellen White foi paralela à dos profetas bíblicos. Contudo, seus escritos não possuem a mesma autoridade das Escrituras. Como seus escritos podem promover crescimento espiritual, ao mesmo tempo que mantêm a Bíblia como a autoridade suprema?
6. A iluminação difere da revelação-inspiração e ocorre quando o Espírito Santo ajuda o crente a compreender aquilo que já foi revelado nas Escrituras (Jo 14:26; 16:7-11). A iluminação é um dom concedido a todos os crentes, ao passo que a revelação-inspiração é concedida apenas aos profetas. Como você experimenta a iluminação ao ler a Bíblia e os escritos de Ellen White?
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Nunca sozinho
Croácia | Pastor Dario
Eram cinco horas da manhã do dia 22 de março de 2020 quando o pastor Dario acordou sobressaltado. Ele não tinha planejado se levantar tão cedo, mas, de repente, estava completamente acordado - com uma forte vontade de cantar.
Saindo silenciosamente da cama, pegou seu violão e começou a cantar: "Nunca estou sozinho, nunca estou sozinho ... "
Nos trinta minutos seguintes, ele cantou as mesmas palavras repetidamente. Ele não sabia motivo.
Então, ajoelhou-se ao lado da cama e começou a orar pela série evangelística online que vinha apresentando durante a pandemia da COVID-79. Todos os dias, ele transmitia fielmente mensagens de esperança ao vivo, mas a audiência vinha sendo baixa. Ele orou para que, de alguma forma, Deus usasse as reuniões para tocar os corações.
Depois de algum tempo, ele voltou para a cama. Deitado de costas, com os braços estendidos para o céu, continuou orando, desta vez pelos membros de sua igreja. Pediu a Deus que os fortalecesse, que os encorajasse, que os mantivesse perto de Si.
O pastor Dario servia na histórica Igreja Adventista do Sétimo Dia de Zagreb 1 - a primeira congregação adventista na Croácia. Construída em 7935, foi o primeiro espaço de culto de propriedade adventista na capita 1. Membros dedicados a haviam construído durante um período de desafios legais e sociais. O complexo incluía um belo santuário de dois andares, salas de Escola Sabatina, escritórios, uma biblioteca, espaço editorial e vários apartamentos localizados diretamente acima do santuário.
O pastor Dario morava em um desses apartamentos.
Às 6h34 da manhã, enquanto estava deitado ali orando, o prédio inteiro começou a tremer violenta mente.
Armários caíram. Paredes racharam. O chão balançava sob ele.
Mas ele se sentia em paz. Sabia que Deus estava com ele. As palavras que acabara de cantar enchiam sua mente: "Nunca estou sozinho".
"Deus, estou pronto", orou ele. "Mesmo que eu morra."
Quando o tremor cessou, gritos ecoaram dos prédios vizinhos. O terremoto atingiu Zagreb com força devastadora. Vestindo-se rapidamente, o pastor Dario correu para fora, reunindo vizinhos e ajudando a acalmar os moradores assustados. Muitos prédios da cidade ficaram danificados de forma irreparável, incluindo o histórico santuário Zagreb l.
Por volta das 10h, seu telefone começou a tocar. Familiares preocupados insistiram para que ele saísse da cidade.
"Você deveria voltar para casa", disse sua mãe. "Vão fechar Zagreb."
Achando que talvez fosse sensato partir temporariamente, o pastor Dario começou a fazer as malas.
Então, teve uma impressão clara: Para onde você está indo?
"Para casa", ele respondeu em voz alta.
Mas a voz continuou: "Não. Pare com isso. Vá para o seu escritório."
Sem saber o que encontraria, ele obedeceu.
Para sua surpresa, seu escritório estava intacto. Até mesmo o pequeno estúdio usado para transmitir ao vivo as reuniões evangelísticas não havia sido danificado.
Logo o presidente da associação chegou. Dada a gravidade do terremoto, ele presumiu que as reuniões online precisariam ser suspensas.
Mas os técnicos verificaram o equipamento.
"Ainda podemos transmitir hoje", disseram eles.
Virando-se para o pastor Dario, o presidente perguntou: "Você está disposto a fazer a transmissão ao vivo?"
"Sim", ele respondeu sem hesitar. "Eu preciso."
Naquela noite, quando o programa começou, algo notável aconteceu. A audiência disparou. Milhares de pessoas abaladas, assustadas e em busca de esperança sintonizaram.
"Muitas pessoas estavam assistindo e se sentiram encorajadas depois de tudo o que havíamos acabado de vivenciar", disse mais tarde o pastor Dario. "Era crucial continuar. Deus usou aquela tragédia para iniciar algo novo."
A partir daquele momento, o ministério online se expandiu dramaticamente. O pastor Dario e vários outros pastores adventistas na Croácia lançaram canais no YouTube que continuam ativos até hoje - alcançando milhares de pessoas e gerando centenas de interessados em estudos bíblicos.
Reconhecendo esse crescente alcance digital, o pastor Dario agora atua como diretor de ministérios de mídia da União Adriática, na Divisão Transeuropeia.
Embora partes do complexo Zagreb l tenham sobrevivido ao terremoto, o histórico santuário ficou danificado de forma irreparável e teve que ser demolido. No entanto, os membros da igreja não desistiram. Eles continuam se reunindo em espaços temporários, adorando fielmente e compartilhando esperança com sua comunidade, enquanto aguardam ansiosamente a reconstrução.
Neste trimestre, sua Oferta do Décimo Terceiro Sábado ajudará a construir um novo santuário para a família da igreja Zagreb l - um lugar onde a adoração, o evangelismo e o trabalho missionário possam florescer mais uma vez.
Obrigado por ajudar nossos irmãos e irmãs na Croácia a reconstruir - não apenas paredes, mas um centro de esperança para sua cidade.
Dicas para a história
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Post Missionário
• A Croácia tem 40 igrejas adventistas do sétimo dia e 2.389 membros. Com uma população de 3.851.000 habitantes, isso significa um membro da igreja para cada 1.672 croatas.
• A Croácia não tem religião oficial, e a liberdade religiosa é um direito constitucional.
• Os cristãos representam quase 90% da população croata. Cerca de 80% deles são católicos, 3% são ortodoxos e 5% são de outras denominações cristãs. Mais de 10% se declaram "sem religião" ou "outros".

