Em Deuteronômio 32, encontramos a letra de um cântico que Moisés escreveu por inspiração divina (Dt 31:19-22). Normalmente não pensamos em cânticos quando falamos de escritos proféticos; no entanto, muitos salmos são cânticos inspirados, ainda que sua letra não tenha sido ditada pelo Senhor.
Já vimos que a Bíblia apresenta três formas principais pelas quais os profetas comunicaram as mensagens de Deus: (1) oralmente; (2) por escrito; e (3) por meio de ações simbólicas ou dramatizações. Nesta semana, concentraremos nossa atenção nos escritos que fazem parte do cânon bíblico. A Bíblia registra a Palavra de Deus expressa por meio das palavras de Seus mensageiros, incluindo sermões e discursos dos profetas.
Pense na variedade de estilos e gêneros presentes nos escritos proféticos: narrativas, registros históricos, poesias, lamentos, cartas… Homens e mulheres escolhidos expressaram em linguagem humana aquilo que o Espírito Santo os guiou a comunicar. Nesta semana, examinaremos seus escritos, o uso de assistentes literários (secretários) e pontos importantes a ter em mente para a compreensão de passagens desafiadoras.
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A forma mais antiga pela qual Deus transmitiu Suas mensagens à humanidade foi por meio de comunicação oral direta: por voz audível, por sonhos ou por meio de anjos. Somente a partir do tempo de Moisés as Escrituras registram a primeira instrução divina a respeito dessas experiências: registrar em um “livro” aquilo que Deus havia falado.
1. Qual é a primeira menção à escrita na Bíblia? Confira em Êxodo 17:14.
No Antigo Testamento, encontramos múltiplos exemplos de Deus orientando Seus mensageiros a preservar por escrito Suas palavras para o povo. Assim como Moisés, Jeremias recebeu a seguinte ordem: “Pegue um rolo, um livro, e escreva nele todas as palavras que falei a você contra Israel, contra Judá e contra todas as nações, desde o dia em que comecei a falar com você, nos dias de Josias, até hoje” (Jr 36:2).
Jeremias também recebeu o motivo pelo qual deveria registrar essas profecias por escrito: “Talvez os da casa de Judá ouçam todo o mal que Eu estou planejando fazer-lhes e venham a converter-se cada um do seu mau caminho, e Eu lhes perdoe a iniquidade e o pecado” (Jr 36:3). As predições foram dadas para conduzir o povo à salvação, e não para satisfazer a curiosidade em relação ao futuro.
Os mensageiros de Deus escreveram em uma grande variedade de circunstâncias. Moisés redigiu os cinco primeiros livros da Bíblia enquanto estava no deserto. Davi compôs vários salmos enquanto era perseguido por Saul (veja os Salmos 52; 54; 57; 59). Daniel escreveu suas visões enquanto servia nas cortes da Babilônia e da Medo-Pérsia. Em contraste, Paulo escreveu suas cartas aos efésios, aos filipenses, aos colossenses e a Filemom quando estava preso, e João escreveu o Apocalipse enquanto estava exilado em Patmos. Fica evidente que, sempre que os mensageiros de Deus eram impressionados a escrever, o Espírito Santo os capacitava, independentemente das circunstâncias em que se encontravam.
É interessante notar que todos os ensinos de Jesus preservados para nós chegaram em forma escrita, por meio de pessoas escolhidas por Deus para receber e registrar essas preciosas verdades. Isso nos mostra a confiança que Deus tem de que Suas mensagens divinas seriam fielmente registradas e preservadas por Seus mensageiros.
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A Bíblia apresenta uma variedade de estilos de escrita usados pelos mensageiros inspirados de Deus. Alguns se assemelham ao registro de um diário (veja Nm 33:1-49). Já os livros de Daniel, Zacarias e Apocalipse contêm exemplos de escritos apocalípticos, marcados por forte simbolismo, temas cósmicos e descrições de seres celestiais, entre outras características.
2. Leia Isaías 13:1. Como a Bíblia se refere à mensagem transmitida por Isaías nesse texto?
As visões recebidas pelos profetas são às vezes chamadas de “oráculos” – ou seja, comunicações ou revelações da parte de Deus – ou “sentença”. As traduções mais recentes da Bíblia mostram que muitos desses oráculos foram redigidos em forma poética, frequentemente com o uso de paralelismo. O paralelismo é um recurso em que a linha seguinte repete ou, em alguns casos, contrasta a linha anterior. Por exemplo: “Naquele dia, as pessoas olharão para o seu Criador, e os seus olhos estarão voltados para o Santo de Israel” (Is 17:7). “Criador” e “Santo de Israel” estão em paralelo, uma imagem acrescentando informação à outra.
Os profetas também utilizaram recursos literários comuns, como metáforas (símbolos) e hipérboles (exageros intencionais). É importante reconhecer o tipo de escrita que eles empregaram para compreender melhor e aplicar suas mensagens.
Outro estilo literário frequente nas Escrituras é a chamada “ ação judicial da aliança”. Em Jeremias 2:4 a 9, por exemplo, o profeta apresenta a acusação legal de Deus contra Seu povo por violar as obrigações da aliança. Utilizando imagens de um tribunal, o autor retrata Deus como o Promotor que expõe as razões de Seu juízo.
A Bíblia também contém escritos proféticos, narrativas históricas, cânticos e parábolas. Jeremias foi instruído a compor um livro com todas as mensagens que havia recebido (Jr 36:2), enquanto grande parte dos escritos do Novo Testamento é formada por cartas dirigidas a pessoas ou comunidades. Não há qualquer distinção de autoridade entre um estilo de comunicação e outro. As cartas de Paulo deviam ser recebidas com o mesmo peso dos escritos dos antigos profetas, pois o próprio apóstolo deixa claro, em suas cartas, que era inspirado pelo Espírito Santo (veja 1Co 7:10, 12, 40).
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3. Leia Jeremias 36:17, 18 e Romanos 16:22. O que esses versos revelam sobre o uso de assistentes literários pelos escritores bíblicos?
Presumivelmente, Jeremias poderia ter escrito suas mensagens por conta própria, mas preferiu pôr sob os cuidados de um escriba de confiança a tarefa de registrar fielmente suas profecias e apresentá-las às autoridades da nação. Jeremias não é o único exemplo bíblico de profeta que utilizou os serviços de um assistente literário para comunicar a mensagem divina.
No Novo Testamento, Tércio declara: “Escrevi esta carta” (Rm 16:22). Mesmo assim, já no início de Romanos, fica claro que ele apenas registrou por escrito aquilo que Paulo desejava comunicar. Tércio era seu amanuense, ou seja, um secretário – um assistente literário que transformava em texto as palavras de Paulo.
Essa prática não era incomum para o apóstolo. Ao concluir suas cartas aos colossenses e aos tessalonicenses, Paulo faz questão de acrescentar sua saudação “de próprio punho” (Cl 4:18; 2Ts 3:17), como forma de autenticar toda a carta. Isso indica que ele utilizava outra pessoa para redigir o texto. Como essa realidade poderia despertar dúvidas quanto à fidelidade do conteúdo – ou até o temor de que a carta não fosse realmente dele –, Paulo acrescentava uma nota manuscrita ao final, eliminando qualquer questionamento sobre a autenticidade de sua epístola.
O uso de assistentes literários é frequentemente apontado por comentaristas como a causa das diferenças de estilo literário encontradas nas cartas de Paulo. Supõe-se algo semelhante em relação às duas cartas de Pedro: “Embora o estilo de linguagem de 2 Pedro seja diferente do estilo da primeira epístola, isso pode ser razoavelmente explicado pela possibilidade de que Pedro […] tenha contado com a ajuda de um secretário para a escrita de uma epístola em grego. Se Paulo, que ficava totalmente à vontade com o grego, utilizava secretários, como as evidências mostram, é ainda mais lógico pensar que Pedro, cuja língua nativa era o aramaico, teria feito o mesmo. Esses secretários podem ter exercido definitiva influência na formulação dessas cartas em grego” (Comentário Bíblico Adventista, v. 5, p. 173).
Isso mostra que, embora fossem fiéis aos pensamentos e ao sentido pretendido pelos mensageiros de Deus, o vocabulário e a construção das frases podiam refletir a habilidade literária dos assistentes empregados. É o pensamento que é inspirado, não necessariamente cada palavra específica escolhida para expressar esse pensamento.
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“Além de ser sábio, o mestre também transmitiu conhecimento ao povo. Ele escutou, examinou e colecionou muitos provérbios. Procurou também encontrar as palavras certas, e o que ele escreveu era reto e verdadeiro” (Ec 12: 9, 10, NVI).
Esse texto sugere que Salomão não criou, do zero, todos os provérbios que registrou. Inspirado por Deus, ele “examinou e colecionou” muitos ditos e se esforçou para encontrar as “palavras certas”. De fato, a famosa descrição da mulher virtuosa em Provérbios 31 não é atribuída a Salomão, e sim à mãe de um desconhecido rei, chamado Lemuel (Pv 31:1). Há também indícios de influência da literatura egípcia em Provérbios.
Semelhantemente, autores inspirados do Antigo Testamento informam que recorreram a arquivos e outros registros históricos para relatar com fidelidade a trajetória do povo de Deus.
4. Leia 1 Reis 11:41; Lucas 1:1-4; e Judas 14, 15. O que esses versos revelam sobre o uso de fontes não bíblicas pelos escritores inspirados?
Esdras e Neemias são outros exemplos de escritores bíblicos que se valeram de registros históricos para compor seus relatos. Esdras inclui cópias de cartas e decretos reais relacionados a Jerusalém e à Pérsia (veja Ed 4–7), e Neemias menciona listas genealógicas, as quais encontrou e incorporou em sua narrativa (veja Ne 7:5-72).
O mesmo princípio é encontrado no Novo Testamento: “Fica claro, a partir da experiência de Lucas, que o processo de inspiração funciona de um modo consistente com a operação natural das faculdades mentais e não à parte delas. Trata-se de um escritor inspirado que foi dirigido pelo Espírito Santo para empreender um estudo diligente das fontes materiais escritas e orais disponíveis sobre a vida de Cristo e, então, combiná-las numa narrativa conectada à informação assim reunida” (Comentário Bíblico Adventista, v. 5, p. 733).
Judas parece ter citado 1 Enoque 1:9, uma obra judaica não canônica escrita no período entre o Antigo e o Novo Testamento. Paulo, por sua vez, citou filósofos gregos sem mencionar seus nomes (veja At 17:28; Tt 1:12).
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5. O que Paulo diz sobre o “tesouro” de Deus em 2 Coríntios 4:7?
Paulo afirma que o tesouro de Deus foi confiado a “vasos de barro” (seres humanos), para que o poder divino se destaque em contraste com nossas fraquezas. A Bíblia mostra que, assim como os mensageiros de Deus não foram preservados de modo sobrenatural de falhas em sua vida pessoal (por exemplo, Moisés, Elias, Davi, Jonas e Pedro), também seus escritos não ficaram isentos das limitações do entendimento e da linguagem humanos.
“A união do divino com o humano, manifestada em Cristo, existe também na Bíblia. As verdades nela reveladas são inspiradas por Deus; contudo, são expressas por palavras de homens e adaptadas às necessidades humanas” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja [CPB, 2021], v. 5, p. 634).
A humanidade dos mensageiros de Deus não foi anulada pelo chamado divino que receberam para comunicar os tesouros da verdade, como Paulo escreveu em 2 Coríntios 4:7. Também não parece que o Espírito Santo tenha considerado necessário impedir que Seus mensageiros fizessem afirmações ou escrevessem palavras que hoje nos pareçam difíceis de harmonizar ou explicar. Embora esses versos sejam poucos, só uma mentalidade muito limitada faz deles motivo de tropeço. Como cristãos que creem na Bíblia, devemos nos submeter à Palavra de Deus à medida que a compreendemos e confiar no Senhor, mesmo quando ainda há coisas que não entendemos.
Algumas aparentes discrepâncias podem ser atribuídas a erros menores de copistas posteriores ou a diferenças entre as fontes (registros) das quais os autores inspirados se valeram. Ao lidar com passagens difíceis, precisamos perguntar a nós mesmos se realmente entendemos o que o escritor quis dizer e se um estudo mais aprofundado não poderia esclarecer a dificuldade.
Mesmo quando não conseguimos resolver toda aparente dificuldade ou discrepância, percebemos que esses pontos não afetam a essência da mensagem apresentada. Podemos ter plena confiança de que as verdades divinas das Escrituras são reveladas com fidelidade, apesar das imperfeições dos mensageiros de Deus.
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A experiência e os escritos de Ellen White apresentam muitos paralelos com o que estudamos a respeito dos mensageiros de Deus. Ela também recebeu o encargo de registrar o que lhe havia sido revelado.
“Por causa do acidente que quase me custou a vida, eu havia ficado debilitada e incapaz de escrever. [...] Mas, certa noite, o anjo do Senhor veio até meu leito e me disse: ‘Você deve escrever as coisas que lhe transmito.’ Respondi: ‘Não posso escrever.’ Outra vez a ordem foi dada: ‘Escreva as coisas que lhe transmito.’ Pensei em tentar; peguei uma pequena prancheta sobre a mesa, comecei a escrever e descobri que conseguia traçar as palavras com facilidade” (General Conference Bulletin, 31 de maio de 1909).
Assim como escritores inspirados da Bíblia, Ellen White teve assistentes literários. Eles realizavam o trabalho que se espera de editores: auxiliavam a autora a expressar com clareza sua mensagem, sem acrescentar pensamentos próprios. Não eram “escritores-fantasmas” nem coautores. Seu trabalho dependia inteiramente do material produzido pela própria Ellen White, escrito ou oral.
Ellen White citou e adaptou materiais de outras fontes para auxiliar na apresentação de suas mensagens. Ao recomendar alguns livros que utilizava, não pretendia enganar ninguém nem prejudicar outros autores, mas reconhecia que, em certos trechos, eles haviam encontrado expressões adequadas para transmitir verdades que ela desejava comunicar.
Quanto a discrepâncias ou imprecisões, ela declarou: “Com relação à infalibilidade, nunca a pretendi. Unicamente Deus é infalível” (Mensagens Escolhidas [CPB, 2022], v. 1, p. 30).
Em seus escritos, há declarações que parecem difíceis de entender ou de harmonizar com outras passagens. A humanidade de Ellen White não foi anulada por seu chamado. Como nós, ela cresceu e amadureceu ao longo da vida – e esse crescimento e amadurecimento se revelam em seus escritos.
Ela corrigiu os que imaginavam que cada palavra sua vinha diretamente do Céu: “Há momentos, porém, em que devem ser declaradas coisas comuns. [...] Essas palavras e informações não são dadas sob inspiração especial do Espírito de Deus” (Mensagens Escolhidas [CPB, 2023], v. 3, p. 48).
Respostas às perguntas da semana: 1. Deus manda Moisés registrar por escrito a vitória sobre Amaleque como memorial. 2. A mensagem é chamada de “sentença” (ou “oráculo”) contra a Babilônia, indicando uma revelação solene e grave vinda de Deus. 3. Profetas e apóstolos usaram secretários (como Baruque e Tércio) que escreveram o conteúdo ditado por eles, sem tirar o caráter inspirado da mensagem. 4. Escritores bíblicos conheciam e podiam usar registros históricos e tradições externas, mas o que foi selecionado e incorporado à Bíblia foi guiado pelo Espírito Santo e recebeu autoridade inspirada. 5. Temos o “tesouro” do evangelho em “vasos de barro”, ou seja, Deus confia Sua mensagem gloriosa a instrumentos humanos frágeis, para que fique claro que o poder é Dele e não nosso.
TEXTO-CHAVE: Rm 15:4
FOCO DO ESTUDO: Êx 17:14; Is 13:1; Jr 36:17, 18; Rm 16:22; Jd 1:14, 15; Lc 1:1-4; 2Co 4:7
ESBOÇO
Introdução: A lição desta semana dá continuidade à discussão sobre a inspiração e se concentra em compreender como os profetas comunicaram a mensagem de Deus. A inspiração permitiu que os escritores bíblicos expressassem nas Escrituras aquilo que Deus havia lhes comunicado, utilizando diferentes estilos e gêneros literários. A linguagem humana foi o meio que Deus utilizou para transmitir Sua Palavra aos seres humanos. Assim, os profetas recorreram a todos os recursos disponíveis para comunicar, da forma mais precisa possível, aquilo que Deus os comissionara a dizer. Em alguns casos, essa comunicação envolveu o uso de assistentes literários e o empréstimo de escritos seculares para transmitir a mensagem. A reflexão sobre esses aspectos ampliará a apreciação da classe quanto à maneira surpreendente pela qual Deus encarnou Sua mensagem para que pudéssemos compreendê-la.
COMENTÁRIO
1. A transmissão da mensagem divina
Segundo Daniel Block, um estudioso do Antigo Testamento, o processo profético de transmissão da mensagem de Deus ocorria em sete fases distintas, porém interligadas:
Primeira fase: o profeta recebia a mensagem divina por meio de alguma forma de revelação.
Segunda fase: o profeta transmitia inicialmente essa mensagem de forma oral ao seu público.
Terceira fase: o oráculo era registrado por escrito.
Quarta fase: o profeta acrescentava as circunstâncias históricas ao oráculo transcrito, a fim de contextualizá-lo para o público e torná-lo uma unidade literária completa.
Quinta fase: o profeta reunia essas unidades literárias.
Sexta fase: os oráculos, organizados em unidades literárias, eram editados e estruturados em um livro coeso.
Sétima fase: era acrescentado um cabeçalho formal ao livro, identificando o profeta, explicando as circunstâncias de seu ministério e descrevendo o gênero da coleção (ver Daniel I. Block, The Book of Ezekiel, Chapters 1–24, The New International Commentary on the Old Testament [Eerdmans, 1997], p. 18).
Esse processo envolvia atividades horizontais pelas quais o Espírito Santo capacitava os profetas bíblicos a preservar e dar continuidade à revelação originalmente recebida. Assim, desde a proclamação oral até a redação das Escrituras, Deus tem falado aos seres humanos. O processo de iluminação é a maneira pela qual Deus capacita, hoje, os leitores das Escrituras a compreender Sua Palavra e a receber Sua mensagem de forma pessoal.
2. Recursos para transmitir a mensagem
A Bíblia é rica em formas e técnicas literárias, muito mais do que a maioria dos leitores imagina. Uma breve análise revela uma profundidade artística surpreendente, demonstrando que os escritores bíblicos empregaram deliberadamente convenções literárias já estabelecidas. O uso dessas formas não foi acidental, mas refletia uma tradição literária compartilhada, familiar aos autores de sua época. Em vez de inventar novas estruturas a cada composição, eles recorriam a um repertório comum de técnicas literárias e retóricas, moldando suas mensagens com esmero intencional (ver Leland Ryken, A Complete Handbook of Literary Forms in the Bible [Crossway, 2014], p. 16). Alguns dos gêneros mais proeminentes nas Escrituras são: narrativa, poesia, sabedoria, lei, evangelho, epístola e apocalíptica.
3. Assistentes literários e fontes extrabíblicas
Muitos cristãos que adotam modelos de inspiração verbal e plenária (ou ditado) creem que Deus Se comunicou exclusivamente por meios sobrenaturais, como sonhos e visões. Contudo, o modelo bíblico de inspiração reconhece múltiplas formas pelas quais o Espírito Santo guiou os autores bíblicos, incluindo o uso de assistentes literários e de pesquisa histórica. Nesse último caso, os autores liam, estudavam, compilavam e editavam materiais já existentes – tanto inspirados quanto não inspirados – enquanto Deus, de maneira providencial, supervisionava todo o processo.
O empréstimo literário é evidente ao longo das Escrituras: Moisés adotou estruturas literárias do Antigo Oriente Próximo; Miqueias fez alusões a Isaías; e o compilador de 2 Reis recorreu diretamente a Isaías. Salomão incorporou provérbios de outros sábios, enquanto os escritores dos evangelhos, como Mateus e Lucas, estruturaram seus relatos, muito provavelmente, com base em Marcos. Até mesmo o evangelho de João utiliza expressões da filosofia grega, como logos (“Verbo” ou “Palavra”), porém ressignificando-as teologicamente.
Paulo fez alusões a poetas gregos sem citá-los nominalmente, e no Apocalipse de João há imagens que também aparecem no chamado “Livro de Enoque”, uma obra não canônica (e que não foi escrita por esse profeta). O evangelho de Lucas constitui o exemplo mais claro do modo de pesquisa, pois o próprio autor menciona ter organizado seu relato a partir de investigação cuidadosa. Embora a intervenção divina possa, ocasionalmente, ter orientado a seleção das fontes, em geral, os autores exerciam seu próprio juízo sob a influência do Espírito. Esse modelo evidencia que a inspiração bíblica envolve tanto a orientação divina quanto o esforço humano, preservando o caráter sagrado das Escrituras.
Para estudo adicional: Para uma documentação extensa sobre o uso de empréstimos literários nas Escrituras, ver Jirí Moskala, “Can a Biblical Inspired Writer Use Literary Sources?”, em Ellen White Issues Symposium, v. 8 (2012), p. 70-102. Para uma discussão sobre o uso de fontes extrabíblicas por Ellen White, ver Jud Lake, “O Uso de Fontes Extrabíblicas por Ellen G. White”, em Alberto Timm e Dwain Esmond (orgs.), [CPB, 2017], Quando Deus fala, p. 373-393.
4. A mensagem divina perfeita na linguagem da humanidade imperfeita
A declaração de Paulo em 2 Coríntios 4:7 destaca o contraste entre o poder extraordinário de Deus e a fragilidade dos instrumentos humanos: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que a excelência do poder provém de Deus, não de nós.” Essa imagem nos lembra de que os mensageiros de Deus, embora escolhidos divinamente, são falíveis. A Bíblia contém episódios nos quais profetas e apóstolos demonstraram limitações pessoais; ainda assim, seus escritos transmitem a verdade inspirada de Deus.
As Escrituras são divinamente guiadas, apesar das limitações da memória humana, da linguagem e dos registros históricos. Algumas aparentes discrepâncias podem resultar de variações nas fontes utilizadas ou de erros posteriores de copistas, como se observa nas diferenças entre 1 Crônicas 11:11 e 2 Samuel 23:8. O próprio Paulo pode ter mencionado um detalhe de forma imprecisa em 1 Coríntios 10:8 (compare com Nm 25:9). Contudo, tais variações não diminuem a autoridade das Escrituras. A essência da mensagem de Deus permanece intacta, e, por meio do estudo diligente e da fé, é possível discernir Sua verdade para além de pequenas diferenças textuais.
Para estudo adicional: Ver Clinton Wahlen, “Variantes, Versões e a Confiabilidade das Escrituras”, em Hermenêutica Bíblica: Como Interpretar as Escrituras e Avaliar Tendências, Frank M. Hasel (org.) (CPB, 2025), p. 69-81.
5. A experiência de Ellen White
À luz da maneira como os profetas bíblicos comunicaram aquilo que receberam em visão, pode-se examinar o método de Ellen White para transmitir o conteúdo de suas visões. Sua missão como mensageira de Deus foi muito além de receber visões; envolvia a tarefa desafiadora de comunicar essas mensagens a indivíduos, grupos e à igreja em geral. Essa comunicação correspondia ao aspecto horizontal da inspiração, conforme observado na semana anterior. O método empregado por ela para transmitir essas mensagens variava de acordo com a natureza da revelação e com o público a que se destinava. Ellen White comunicava as instruções de Deus principalmente por três meios: as apresentações orais, as cartas pessoais e a página impressa. O discurso público desempenhou um papel significativo em seu ministério. Ellen White frequentemente se dirigia a grandes audiências em igrejas locais, reuniões campais e assembleias da Associação Geral, nas quais compartilhava mensagens de advertência, encorajamento e instrução. Em algumas ocasiões, enquanto pregava, ela reconhecia pessoas que tinha visto em visão, o que a levava a dirigir-se diretamente a elas durante a exposição. Nessas situações, sentia um forte impulso para transmitir advertências ou conselhos específicos, demonstrando sua sensibilidade à orientação do Espírito Santo em seu ministério público.
As cartas pessoais eram outro meio essencial pelo qual Ellen White comunicava suas mensagens. Como não podia encontrar-se pessoalmente com cada indivíduo, ela frequentemente escrevia cartas detalhadas transmitindo conselhos específicos de Deus, repreensões ou encorajamento. Essas cartas eram elaboradas com cuidado e oração, levando em conta como a mensagem seria recebida. Em casos nos quais a pessoa pudesse resistir ou interpretar mal uma mensagem direta, ela por vezes confiava a terceiros a entrega da carta em mãos, assegurando que fosse lida em um ambiente favorável e em espírito de oração.
Seu ministério escrito também se estendeu a livros e periódicos, por meio dos quais ela se dirigia a públicos mais amplos. Ao longo de sua vida, ela produziu um vasto corpo literário – quase 24 mil páginas de livros e mais de 4.500 artigos. Esses escritos oferecem orientação doutrinária, encorajamento espiritual e conselhos práticos, moldando as crenças e as práticas da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Apesar do desgaste emocional e físico, Ellen White permaneceu fiel ao seu chamado, expressando com frequência o profundo peso pessoal que sentia ao transmitir mensagens difíceis, mas sempre comprometida com sua missão de orientar a igreja segundo a vontade de Deus (para mais detalhes, ver Arthur White, “Dando as Mensagens”, em Ellen G. White: Mensageira da Igreja Remanescente [CPB, 1959], p. 25-31).
APLICAÇÃO PARA A VIDA
As seguintes perguntas de aplicação para a vida, extraídas do comentário desta lição, são oferecidas para enriquecer a discussão em classe. Escolha, entre elas e entre as perguntas da lição, aquelas que melhor envolverão a classe em uma reflexão significativa.
1. O processo profético da Bíblia envolvia a revelação divina e o esforço humano na escrita e preservação da mensagem de Deus. Como compreender esse processo fortalece sua confiança na veracidade das Escrituras e o incentiva a ter uma postura mais engajada no estudo da Bíblia?
2. Considerando que a Bíblia contém diversos gêneros e recursos literários, de que maneira reconhecer sua composição artística e estruturada impacta a forma como você lê e interpreta as Escrituras? Como a consciência dessas formas literárias pode ajudá-lo a aplicar os ensinos bíblicos de maneira mais eficaz em sua vida diária?
3. Deus permitiu que os escritores bíblicos utilizassem pesquisa, assistentes literários e fontes já existentes na composição das Escrituras. Como essa compreensão afeta seu entendimento sobre a inspiração? De que forma ela pode orientar sua relação com a pesquisa histórica e teológica em sua jornada de fé?
4. O que o uso de empréstimos literários nas Escrituras revela sobre a maneira como Deus transmitiu Sua mensagem divina em formas humanas? Como isso influencia sua compreensão da inspiração?
5. A imagem usada por Paulo de “vasos de barro” (2Co 4:7) enfatiza que Deus utiliza instrumentos humanos imperfeitos para transmitir Sua verdade. De que maneira essa ideia o encoraja em sua caminhada espiritual, ao saber que Deus opera apesar das limitações humanas? Como essa perspectiva pode moldar sua reação diante de dúvidas ou de passagens desafiadoras das Escrituras?
6. Como você explicaria o uso de empréstimos literários por Ellen White a alguém que acredita que ela tenha cometido plágio?
7. Ellen White comunicou suas mensagens por meio de discursos públicos, cartas pessoais e escritos publicados, adaptando-se às necessidades de seu público. Que lições podemos aprender de sua abordagem para compartilhar a verdade bíblica hoje, de maneira fiel e relevante?
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Mostra-me a verdade
Croácia | Nika
Nas tardes dos dias de semana em Zagreb, risadas e concentração silenciosa tomam conta da biblioteca de uma igreja conhecida como "Escola Prilaz". Sentada a uma mesa, Nika ajuda pacientemente uma criança a resolver uma tarefa difícil. Em outro momento, ela faz uma pausa e pergunta gentilmente: "Vamos orar?"
Para até doze alunos por semana, Nika é mais do que uma tutora. Ela é uma presença constante - alguém que escuta, encoraja e orienta os corações jovens em direção a Deus.
Certa vez, a mãe de um aluno foi hospitalizada inesperadamente. As crianças ficaram preocupadas. "Vamos orar por ela", sugeriu Nika. E assim fizeram. Pouco tempo depois, a mãe se recuperou.
Outra criança, tão feliz no ambiente acolhedor do programa, declarou certa vez: "Quero trabalhar aqui quando crescer!"
"Sinto-me muito realizada e muito próxima de Jesus", diz ela. "Sei que o Espírito Santo está me guiando."
Mas, há apenas alguns anos, sua vida era bem diferente.
Como a maioria das pessoas na Croácia, Nika foi criada na religião tradicional do país. Quando jovem adulta, porém, ela começou a buscar algo mais. Sua curiosidade espiritual a levou aos ensinamentos da Nova Era. Ela chegou a viajar para a Índia, explorando ideias sobre reencarnação e participando de rituais elaborados.
"Mas nada aconteceu" - ela se lembra. "Nada mudou. Eu orei, mas tudo continuou igual."
O que mais a incomodava era a incoerência. "Eles falavam de coisas boas", diz ela, "mas não as praticavam."
Desiludida e espiritualmente inquieta, Nika voltou para a Croácia sentindo-se sozinha e sem propósito. Então, um dia, ela conheceu uma senhora mais velha que a convidou para ir à igreja.
Lá, ela recebeu uma Bíblia.
Ao começar a ler, algo chamou sua atenção: o sábado. Parecia claro nas Escrituras.
"Por que vocês não vão à igreja no sábado?", perguntou ela ao pastor.
"Não é importante", ele respondeu. "É apenas um dia."
Mas Nika não conseguia ignorar o que estava descobrindo.
"Não é apenas um dia", pensou ela.
Ela começou a orar: "Mostra-me a verdade."
Enquanto pesquisava na internet, Nika encontrou um canal no YouTube que abordava temas com os quais já havia se debatido - reencarnação, criação e a veracidade das Escrituras. As apresentações faziam sentido. Ela descobriu que o palestrante era adventista do sétimo dia e que em breve daria uma palestra em uma igreja adventista local. Ela decidiu comparecer.
Mais uma vez, o que ouviu a tocou profundamente.
Além disso, as pessoas a receberam calorosamente - especialmente Mileta, a bibliotecária da igreja, que perguntou se ela gostaria de se matricular na Escola Bíblica por Correspondência Discovery.
"Vou fazer as lições em casa", respondeu Nika, "e vir uma vez por semana para que possa mos conversar."
Por três a quatro, elas estudavam juntas. Mileta apresentou-lhe os escritos de Ellen White, que Nika leu com entusiasmo. A verdade estava se revelando-clara, bíblica e consistente.
Quando se convenceu da importância de guardar o sábado, Nika tomou uma decisão difícil. Ela deixou seu emprego e aceitou um trabalho noturno como segurança para ficar livre durante o horário do sábado. Os longos turnos tranquilos lhe davam tempo para ler e refletir.
Finalmente, ela sabia que havia encontrado o que procurava.
Nika foi batizada em 16 de dezembro de 2023. Como o histórico edifício da Igreja de Zagreb l havia sido gravemente danificado pelo terremoto de 2020, seu batismo ocorreu em outra igreja adventista.
Sua família compareceu. Seu padrasto, que há muito se dizia ateu, disse-lhe depois: "Você está no lugar certo". Poucas semanas depois, ele faleceu. Nika guarda essas palavras com carinho e continua orando por sua mãe e seus irmãos.
Seis meses após seu batismo, surgiu uma oportunidade inesperada. A Escola Prilaz da igreja, um projeto de reforço escolar após o horário de aulas iniciado durante a pandemia, precisava de ajuda, e Nika atendeu de bom grado à necessidade.
O programa, apoiado pela Divisão Transeuropeia e pela Associação Croata, foi criado para atender famílias sobrecarregadas por pressões acadêmicas e sociais.
Agora, Nika ajuda as crianças com os deveres de casa - e, com delicadeza, apresenta-lhes o Deus que transformou sua vida.
Ela também trabalha como motorista de táxi em meio período. Em seu carro, ela mantém exemplares do "Caminho a Cristo" e revistas sobre saúde, e ora todos os dias para que Deus envie alguém que esteja em busca da verdade.
"Mostra-me a verdade", ela orou certa vez. Agora, ela ajuda outras pessoas a encontrá-la.
Hoje, os membros da Zagreb l continuam se reunindo em espaços temporários enquanto aguardam ansiosamente a reconstrução de sua igreja - gravemente danificada pelo terremoto de 2020. Mas, enquanto esperam, a missão continua. Por meio de projetos de evangelismo como a Escola Prilaz, vidas estão sendo transformadas.
Sua Oferta do Décimo Terceiro Sábado ajudará a construir um novo edifício para a igreja em Zagreb - um lugar onde o culto, o estudo da Bíblia, os programas infantis e o trabalho comunitário possam florescer novamente. Será um lar espiritual não apenas para os membros, mas para buscadores como Nika, que estão orando: "Mostra-me a verdade".
Dicas para a história
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Curiosidades
• O nome oficial da Croácia é República da Croácia.
• A capital da Croácia é Zagreb, no norte do país.
• O croata é a língua oficial da Croácia.
• O euro é a moeda da Croácia.
• O litoral da Croácia conta com mais de mil ilhas, das quais apenas 48 são habitadas.
• A Arena de Pula, em Pula, Croácia, é um antigo anfiteatro romano e é o único no mundo onde toda a parede circular ainda está intacta.

