Duas palavras estão presentes em toda a Bíblia: lembrar e esquecer. Ambas se referem a algo humano, que acontece na mente. São verbos e são opostos: lembrar é não se esquecer, e esquecer é não se lembrar.
Com frequência Deus diz a Seu povo para se lembrar de todas as coisas que Ele fez por Seus filhos; lembrar-se de Sua graça e bondade para com Seu povo. Grande parte do AT consiste na exortação dos profetas ao povo hebreu para que não se esquecesse do que o Senhor tinha feito por ele. Mas também, o mais importante, os israelitas não deveriam se esquecer de qual era seu chamado no Senhor e de que tipo de povo deveriam ser em resposta a esse chamado. “Recordarei os feitos do Senhor; certamente me lembrarei das Tuas maravilhas da antiguidade” (Sl 77:11).
É diferente para nós hoje, tanto no âmbito coletivo quanto no pessoal? É muito fácil se esquecer o que Deus fez por nós.
Nesta semana, conforme expresso em Deuteronômio, veremos esse importante princípio de lembrar e não se esquecer da atuação divina em nossa vida.
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A palavra “lembrar” aparece pela primeira vez na Bíblia em Gênesis 9, quando, após o dilúvio, o Senhor disse a Noé que colocaria o arco- íris no céu como sinal de Sua aliança com toda a Terra, de que Ele nunca mais a destruiria com um dilúvio.
1. Leia Gênesis 9:8-17. Como a palavra “lembrar” é usada aqui? O que podemos aprender com isso?
Deus não precisa do arco-íris para Se lembrar de Sua promessa e aliança. Ele apenas falou em linguagem que os humanos entendessem. O propósito do arco-íris é nos lembrar da promessa e aliança de não destruir o mundo novamente com água. Ele ajudaria as pessoas a se lembrar da aliança especial. Sempre que surge o arco-íris, o povo de Deus se lembra não apenas do juízo sobre o mundo por seus pecados, mas também de Seu amor pelo mundo e de Sua promessa de não o inundar novamente.
Portanto, vemos a importância de lembrar das promessas divinas, das advertências e da ação de Deus no mundo.
O arco-íris no céu se torna ainda mais importante hoje quando, com base na continuidade das leis da natureza, muitos cientistas rejeitam a ideia de que já houve um dilúvio mundial. É fascinante que Ellen G. White tenha escrito que, antes do dilúvio, muitos tinham a ideia de que a continuidade das leis da natureza excluía a possibilidade de um dilúvio mundial. Ela escreveu que os sábios argumentavam que as leis da natureza “são tão firmemente estabelecidas que o próprio Deus não as pode mudar” (Patriarcas e Profetas, p. 97). Portanto, as pessoas diziam, com base nessas leis, que o dilúvio não poderia ocorrer; após o dilúvio, as pessoas argumentam, com base nessas mesmas leis, que ele nunca aconteceu.
No entanto, Deus em Sua Palavra nos falou sobre o dilúvio e deu ao mundo um sinal, não apenas desse acontecimento, mas de Sua promessa de não o trazer outra vez. Assim, se nos lembrarmos do que o arco-íris significa, podemos ter a garantia, escrita no céu em belas cores, de que a Palavra de Deus é certa. E se podemos confiar nisso, por que não confiar em tudo o mais que Ele nos diz?
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Em Deuteronômio 4, lemos as admoestações maravilhosas que o Senhor deu ao Seu povo por meio de Moisés a respeito de seus grandes privilégios como povo escolhido. Ele os resgatou do Egito “com provas, com sinais, com milagres, com lutas, com mão poderosa, com braço estendido e com feitos espantosos, segundo tudo o que o Senhor, seu Deus, fez por vocês no Egito, como vocês viram com os seus próprios olhos” (Dt 4:34). Em outras palavras, Deus não apenas fez maravilhas, mas as fez de modo a ajudá- los a se lembrar e a nunca esquecer esses grandes atos.
2. Leia Deuteronômio 4:32-39. O que o Senhor pediu que se lembrassem e por que isso era tão importante?
Moisés relembrou toda a história ao povo, desde a criação, e lhes indagou, de forma retórica, se em toda a história havia sido feito algo como o que foi feito por eles. Ele instruiu o povo a perguntar e analisar por si mesmo se havia acontecido antes algo como o que os israelitas experimentaram. Com alguns questionamentos, Moisés estava tentando fazer com que percebessem o que o Senhor havia feito por eles e, assim, em última instância, fazê-los reconhecer o quanto deveriam ser gratos por Seus atos maravilhosos.
A libertação do Egito era um fato central e, talvez, em certos aspectos, mais impressionante que esse evento tenha sido o fato de que Deus falou com o povo no Sinai, permitindo-lhe ouvir do meio do fogo as Suas palavras.
3. Leia Deuteronômio 4:40. A que conclusão Moisés queria que o povo chegasse a partir de tudo que Deus havia feito por eles?
O Senhor não fez todas essas coisas sem um propósito. Ele redimiu os israelitas, cumprindo Sua parte na aliança estabelecida com eles. Eles foram libertos do Egito e estavam prestes a entrar na terra prometida. Deus fez Sua parte; eles deviam fazer a sua, que era, simplesmente, obedecer.
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4. Leia Deuteronômio 4:9, 23. O que o Senhor está dizendo ao povo que faça, e por que essa admoestação é tão importante para a nação?
Dois verbos dominam o início de ambos os versos: “tenham cuidado” e “não se esqueçam”. O que o Senhor lhes diz é: tome cuidado para não se esquecer. Ou seja, não se esqueça do que o Senhor fez por você nem da Sua aliança.
“Tomar cuidado” (hishmer) ocorre em todo o AT e significa “guardar”, “vigiar”, “preservar” e “proteger”. Curiosamente, a primeira vez que tal expressão aparece nas Escrituras é antes mesmo do pecado, quando o Senhor disse a Adão para “guardar” o jardim que havia concedido a ele (Gn 2:15).
Na passagem acima, porém, o Senhor diz a cada um individualmente (o verbo está no singular) para se guardar, para não se esquecer. Isso não significa “esquecer” tanto no sentido de perder a memória (embora isso possa acontecer com o tempo e nas gerações posteriores), mas no sentido de ser negligente em relação às obrigações da aliança. Isto é, eles deveriam estar atentos sobre quem eram e o que isso significava em termos de como deveriam viver diante de Deus, dos outros hebreus, dos estrangeiros entre eles e diante das nações ao seu redor.
5. Leia Deuteronômio 4:9 (veja também Dt 6:7 e 11:19) e concentre-se na última parte. O que isso tem a ver com ajudá-los a não esquecer?
Depois que Moisés disse aos israelitas para não se esquecerem e não permitirem que essas coisas se afastassem “do seu coração”, não é coincidência ele lhes dizer também para ensiná-las às gerações seguintes. Seus filhos não apenas deveriam ouvir, mas contar e recontar o que Deus tinha feito por eles, de modo que não se esquecessem. Haveria melhor maneira de preservar o conhecimento do que o Senhor faz por Seu povo?
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Um ex-líder da igreja, que trabalhou na Associação Geral dos Adventistas por 34 anos, contou que, ele e a esposa haviam perdido a bagagem num aeroporto. Ele disse: “Bem ali, perto da esteira de bagagens e em público, nos ajoelhamos e oramos, pedindo ao Senhor a devolução da bagagem perdida”. Muitos anos depois, aconteceu a mesma coisa: chegaram ao aeroporto, mas uma das malas não. Então, o líder disse à esposa: “Não se preocupe, o seguro vai cobrir”.
6. Com essa história em mente, leia Deuteronômio 8:7-18. Que advertência o Senhor deu ao povo, e o que isso significa para nós hoje?
Veja o que a fidelidade dos israelitas ao Senhor lhes traria. Eles não apenas possuiriam uma terra maravilhosa e rica, em que não teriam escassez e em que não lhes faltaria nada (Dt 8:9), mas seriam extremamente abençoados ali com rebanhos, manadas, ouro, prata e belas casas. Ou seja, teriam todo o conforto material que esta vida oferece.
Mas e então? Eles enfrentariam o perigo que acompanha a riqueza e a prosperidade: esquecer que é o Senhor quem dá força para obter riquezas (Dt 8:18).
Talvez não no início, mas com o passar dos anos, quando tivessem todo conforto material que desejassem, eles se esqueceriam do passado, e de como o Senhor os havia conduzido por “aquele grande e terrível deserto” (Dt 1:19): eles, de fato, pensariam que sua própria inteligência e talentos fossem a causa de todo o seu sucesso.
O Senhor os estava advertindo contra esse perigo (Infelizmente, quando lemos os profetas posteriores, vemos que foi isso que aconteceu com eles.)
Assim, em meio a essa prosperidade, Moisés os exortou a lembrar que o Senhor tinha sido a fonte de sua riqueza. Por isso, não deviam ser iludidos pelas bênçãos materiais nem confiar nelas. Séculos depois, o próprio Jesus alertou, na parábola do semeador, sobre “a fascinação da riqueza” (Mc 4:19).
Não importa quanto dinheiro e bens materiais tenhamos, somos todos de carne e osso esperando a morte. O que isso nos diz sobre os perigos que vêm da riqueza? A riqueza pode nos fazer esquecer de que precisamos do Único que pode nos livrar da morte eterna.
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7. Leia Deuteronômio 5:15; 6:12; 15:15; 16:3, 12 e 24:18, 22. Do que o Senhor queria que os israelitas jamais se esquecessem, e por quê?
No AT, o Senhor constantemente relembrava o povo sobre o êxodo, sua libertação milagrosa do Egito. Até hoje, milhares de anos depois, os judeus celebram a Páscoa, um memorial do que o Senhor fez por eles. “E, quando estiverem na terra que o Senhor lhes dará, como prometeu, observem este rito. Quando os seus filhos perguntarem: ‘Que rito é este?’, respondam: ‘É o sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando matou os egípcios e livrou as nossas casas’. Então o povo se inclinou e adorou” (Êx 12:25-27).
Para a igreja no presente, a Páscoa é símbolo da libertação que nos foi oferecida em Cristo: “Pois, também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado” (1Co 5:7).
8. Leia Efésios 2:8-13. Do que os crentes gentios deviam se lembrar? Há uma relação com o que os hebreus em Deuteronômio foram instruídos a lembrar?
Paulo queria que aquelas pessoas se lembrassem do que Deus havia feito por elas em Cristo, de que Ele as salvou e o que elas tinham adquirido então devido à graça divina. Assim como aconteceu com os filhos de Israel, não era nada de si próprias que as justificava perante Deus. Em vez disso, apenas a graça divina dada a eles, embora fossem “estranhos às alianças da promessa”, as tornava quem eram em Cristo Jesus.
Para os judeus no deserto e os cristãos em Éfeso, o importante era que sempre se lembrassem do que Deus havia feito por eles em Cristo. O mesmo princípio se aplica aos adventistas do sétimo dia em qualquer parte do mundo. “Faria muito bem para nós se diariamente passássemos uma hora refletindo sobre a vida de Cristo. Devemos considerá-la ponto por ponto e deixar que a imaginação tome conta de cada cena, especialmente as finais. Ao meditar assim em Seu grande sacrifício por nós, nossa confiança Nele será mais constante, nosso amor será fortalecido, e seremos mais semelhantes a Ele” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 83).
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“Como é grande a condescendência de Deus e Sua compaixão por Suas criaturas falíveis, colocando assim o belo arco-íris nas nuvens como sinal de Seu concerto com os seres humanos! O Senhor declara que, ao olhar para o arco, Ele Se lembrará de Sua aliança. Isso não significa que Ele iria Se esquecer; Ele fala conosco em nossa linguagem para que possamos compreendê-Lo melhor. Era plano de Deus que, quando os filhos das gerações posteriores perguntassem o significado do arco glorioso que abrange os céus, seus pais repetissem a história do dilúvio e lhes dissessem que o Altíssimo estendeu o arco e o colocou nas nuvens como uma garantia de que as águas nunca mais inundariam a Terra. Assim, de geração a geração, testificaria do amor divino para com o ser humano e fortaleceria sua confiança em Deus” (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 106, 107).
A igreja em alguns países desfruta de uma prosperidade que nunca houve. A que custo? Essa riqueza acaba prejudicando nossa espiritualidade. A riqueza e a abundância material fomentam a virtude do sacrifício próprio? Quanto mais as pessoas têm, mais autossuficientes se tornam e menos tendem a depender de Deus. Riqueza e prosperidade, por melhor que sejam, trazem muitas armadilhas espirituais perigosas.
Perguntas para consideração
1. A riqueza pode impactar nossa espiritualidade? De que modo os ricos podem se proteger de alguns dos perigos espirituais que a riqueza pode criar?
2. O que as cenas finais da vida de Cristo nos dizem sobre o amor de Deus? Que outras coisas revelam a bondade divina e por que devemos sempre manter isso em mente?
3. Alguns cientistas afirmam que não houve dilúvio mundial e criação em seis dias, embora a Bíblia afirme que houve e indique os lembretes desses eventos (o sábado e o arco-íris). Quão poderoso e negativo pode ser o impacto da cultura sobre a fé?
Respostas e atividades da semana: 1. Deus Se lembra de Suas promessas. Devemos nos lembrar de cumprir a nossa parte. 2. A forma pela qual Deus agia no meio deles e por eles. Assim saberiam que só o Senhor é Deus. 3. O povo devia obedecer a Deus. 4. Que não se esquecessem do que Deus tinha feito para que não perdessem as bênçãos. 5. Deviam contar a história às gerações futuras. 6. Eles deviam se lembrar de que foi o Senhor quem lhes deu as bênçãos. Devemos nos lembrar de que é pela graça que somos chamados filhos de Deus e temos esperança. 7. De que foram escravos e de que Deus, em Seu amor, os escolheu como povo especial. 8. Eles haviam sido salvos pela graça, não por suas obras.
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TEXTO-CHAVE: Dt 9:7
FOCO DO ESTUDO: Gn 9:8-17; Êx 20:8; Dt 4:9, 23, 32-39; 6:7; 8:7-18; 32:7; Ef 2:8-13
ESBOÇO
Na entrada do campo de concentração de Auschwitz há uma placa com uma citação do filósofo George Santayana que desafia a todos aqueles que entram no local a relembrar os horrores do nazismo: “Quem não se lembra da história está fadado a vivê-la novamente.” Após a lição sobre arrependimento, vem naturalmente a lição sobre recordar. Para lembrar, assim como para se arrepender, você precisa voltar ao passado e trazê-lo de volta ao presente. Portanto, é crucial que entendamos por que é importante lembrar, o que lembrar e como lembrar a fim de assegurar um arrependimento genuíno.
Temas da lição
Esta lição nos expõe a uma série de temas que nos ajudam a aprofundar a compreensão do princípio da lembrança:
• Lembre-se da criação. Se não nos recordamos das nossas origens, muito do que acreditamos não faz sentido de fato.
• Lembre-se do dilúvio. Mesmo em meio a uma catástrofe, Deus Se lembra de Seu povo.
• Lembre-se do êxodo. Lembrar de atos de salvação passados (o que Deus fez por Seu povo) apoia e fortalece a fé no Senhor e a certeza de que Ele atuará novamente.
• Lembre-se de que você era gentio. É importante não esquecer o que Deus fez em nosso favor.
COMENTÁRIO
O livro de Deuteronômio, com 19 ocorrências do verbo zakar, “lembrar”, é, mais do que qualquer outro livro da Bíblia, um texto sobre lembrança. Sendo assim, Deuteronômio traz uma rica extensão do uso do verbo “lembrar”, com todas as suas variadas aplicações, e apresenta ensino teológico fundamentado nos eventos das experiências passadas dos israelitas. Na maioria das vezes, o verbo “lembrar” tem Deus como sujeito e diz respeito ao Seu povo; Deus Se lembra da aliança, de Seu relacionamento com Seu povo. O verbo “lembrar” também tem “Israel” como sujeito, e o objeto da lembrança é Deus, Suas ações e Sua aliança. Em geral, é o evento do êxodo que prende a atenção (Dt 5:15; 15:15; 16:3, 12; 24:18, 22). Mas, ocasionalmente, Moisés se refere aos anos de peregrinação no deserto como um tempo de prova (Dt 8:2), ou como uma lição sobre a ira divina para disciplinar Israel. A ideia é que todos esses eventos passados sirvam como material formativo para moldar a fé de Israel.
No livro de Deuteronômio, e em toda a Bíblia, a ideia de “lembrar” é enfatizada de modo recorrente. Durante a lição desta semana, devemos meditar sobre esse tema em relação a quatro eventos-chaves na Bíblia: (1) a criação do nada; (2) o livramento do dilúvio; (3) o êxodo de Israel do Egito e sua teimosia; e (4) a conversão dos gentios do paganismo para a fé israelita. Todos esses eventos têm algo em comum; todos representam o ato de salvação de Deus das trevas para a luz, da morte para a vida, da maldade para a justiça.
Lembre-se da criação (Êx 20:8)
O verbo “lembrar” é usado no quarto mandamento para nos recordar do primeiro evento da história humana, a criação dos céus e da Terra, e o sétimo dia da criação, o sábado, que também foi o primeiro dia da história da humanidade. Esse verbo não apenas evoca o acontecimento mais antigo da história humana, mas também, e mais importante, faz um apelo para que nos lembremos das nossas raízes, de onde viemos. Retrata a lição de que “foi Ele, e não nós, que nos fez” (Sl 100:3, ARC). O verbo “lembrar” se refere, de fato, ao nosso Criador, sem o qual não estaríamos aqui.
A criação é o primeiro evento a ser lembrado porque é o que relata nossas raízes. É significativo que o quarto mandamento, que nos exorta a lembrar, seja paralelo ao quinto mandamento (Êx 20:12), que nos exorta a honrar nossos pais. Esse paralelo não é apenas visível na estrutura do Decálogo; também aparece na estrutura gramatical dos verbos. Ambos os verbos “lembrar” e “honrar” são usados no imperativo positivo. Todos os outros mandamentos são escritos na forma negativa. Lembrar-se do sábado, ou de onde viemos, está relacionado a lembrar-se de nossos pais, que são nossas raízes. Se deixarmos de nos lembrar do nosso passado, de nossas raízes, não conseguiremos florescer espiritualmente. Ambos os mandamentos, o quarto e o quinto, contêm promessa quanto ao futuro. Assim como o sábado promete o futuro dia de descanso para a humanidade (Sl 95:11; compare com Hb 3:11; 4:3-7), o mandamento de honrar nossos pais promete uma vida longa (compare com Ef 6:2).
Lembre-se do dilúvio (Gn 8:1)
Essa passagem contém a primeira ocorrência do verbo zakar, “lembrar”. Deus é o sujeito do verbo, Ele salvou a humanidade. O uso do verbo zakar, “lembrar”, não significa algum tipo de deficiência de memória por parte de Deus, mas sim que Deus salvou a humanidade das profundezas do esquecimento. Os humanos sobreviveram às águas do dilúvio e, portanto, foram lembrados. Quando o texto bíblico fala sobre Deus Se lembrando de Suas criaturas é para se referir ao ato de salvação divino quando Ele cumpre Sua promessa no tempo determinado (Gn 19:29). O verbo zakar, “lembrar”, significa, no caso de Noé, o fim do dilúvio, que é precisamente marcado no tempo (Gn 8:3-6), assim como o sábado marca um tempo determinado no fim da obra da criação. É digno de nota que o dia de sábado também desempenha um papel no calendário do dilúvio. Observe que esses períodos de sete dias contribuem para a seguinte estrutura quiástica da narrativa cujo centro é o fato de que “Deus Se lembrou” (tabela segundo Jacques B. Doukhan, “Gênesis”, Seventh Day Adventist International Bible Commentary, p. 151):
7 dias de espera de Deus (Gn 7:4)
7 dias de espera de Deus (Gn 7:10)
40 dias de aumento das águas (Gn 7:17)
150 dias de águas prevalecentes (Gn 7:24)
Deus Se lembrou (Gn 8:1)
150 dias de diminuição das águas (Gn 8:3)
40 dias de diminuição das águas (Gn 8:6)
7 dias de espera de Noé (Gn 8:10)
7 dias de espera de Noé (Gn 8:12)
Lembre-se do êxodo (Dt 9:7)
Recordar o êxodo é certamente o apelo mais predominante na Bíblia em se tratando de lembrar-se de algo. Nesse caso, o verbo “lembrar” tem Israel como sujeito. O povo se lembra não apenas do ato divino de salvação, que o tirou de sua condição de escravo no Egito, mas também da indignidade de Israel. Nesse verso (Dt 9:7), Israel deveria se lembrar de como era teimoso para com Deus, resistindo ao Seu esforço para salvá-lo. Temos um duplo imperativo, na forma positiva, “Lembrem-se!”, seguido por outro na forma negativa, “Não se esqueçam!”. Esses imperativos são enfáticos, lembrando Israel de sua teimosia absurda. Se os israelitas fossem tolos o suficiente para se esquecerem de que Deus os tinha salvado da escravidão do Egito, e tolos o suficiente para pensar que Deus lhes tinha dado a terra prometida por causa de seus méritos e de sua justiça, isso indicaria que sofriam de um caso severo de amnésia. Portanto, foram chamados duas vezes a se lembrar, primeiro positivamente e, em segundo lugar, negativamente, para ter certeza de que o fariam. Essa insistência acrescenta peso à ira e ao juízo divino sofridos depois que saíram do Egito. O principal exemplo para ilustrar o drama de Israel é a rebelião da nação em Horebe, que precipitou a produção de novas tábuas. O êxodo seria, a partir de então, o principal evento do qual Israel deveria se lembrar e ensinar aos seus filhos de geração em geração (Dt 6:7; 32:7). No presente, os judeus ainda se “lembram” da história do êxodo na leitura anual da Hagadah [“contar”], que é o instrumento pelo qual se cumpre a mitsvá [“o mandamento”] de recontar todos os anos a história da Páscoa e narrar o êxodo do Egito. Da mesma forma, cristãos de todo o mundo recordam a Ceia do Senhor, que em si é a lembrança da Páscoa do êxodo.
Lembrem-se de que eram gentios (Ef 2:8-13)
Assim como Moisés fez com o antigo Israel, Paulo fez com os gentios que se converteram à nova aliança, ao exortar: “Não se glorie contra os ramos. Mas, se você se gloriar, lembre que não é você que sustenta a raiz, mas é a raiz que sustenta você” (Rm 11:18). Esses recémconvertidos se comportavam da mesma forma que o antigo Israel. Ambos se vangloriavam e eram arrogantes, pensando, em sua tolice, que eram dignos da graça divina. Ambos tinham se “esquecido”. Assim como Israel se esqueceu de como era indigno, os gentios se esqueceram das trevas e da iniquidade de seu passado. Além disso, esqueceram-se de que tinham sido apenas enxertados nos ramos originais e que deveriam, portanto, aprender a ser humildes.
Perguntas para discussão e reflexão: Como você “se lembra” da criação e do primeiro “sábado” quando observa o sábado? Como você se lembra do êxodo quando celebra a Ceia do Senhor? Quais são as consequências históricas do esquecimento, por parte da igreja, das suas raízes judaicas?
APLICAÇÃO PARA A VIDA
Aprenda a lembrar: Costumávamos decorar passagens inteiras da Bíblia. Medite sobre o valor de decorar versos bíblicos e comente com a classe. Tendo em mente o fato de que a maior parte da Bíblia foi escrita para ser aprendida de cor, desafie-se a decorar a história da criação, um texto que foi construído de forma única, com seus paralelos e repetições, para ser memorizado. Encontre linhas e palavras na história da criação que são repetidas; reflita sobre os motivos que poderiam justificar essas repetições.
Ilustração: Pegue uma flor natural e outra artificial e apresente-as à classe. Qual é a superioridade da flor natural sobre a artificial, e por quê? Qual é a superioridade da flor artificial sobre a natural, e por quê? Discuta a importância da raiz da flor e a importância da flor em si.
Autocrítica: Lembre-se dos valores que foram enfatizados no passado pelos pioneiros de nossa igreja e que no presente estão esquecidos. O que devemos fazer para refrescar nossa memória? Dizem que somos anões sentados nos ombros de gigantes. Comente sobre essa autocrítica.
Vida na igreja: Sua comunidade é formada por idosos que se lembram da solidez das raízes e por jovens que gostam da vida e da beleza da flor recém-desabrochada. Aplique sua reflexão aos serviços de adoração, música e sermões do culto divino. Proponha soluções concretas que poderão ser aceitas e apreciadas por ambos os grupos.
Escolhendo a missão
Desde minha adolescência, sonho em ser missionária. Mas, como? Meu pai morreu quando era criança e minha mãe era praticamente a única cristã que eu conhecia. Nossos familiares eram xamã e adoravam nossos ancestrais na minha terra natal, Coreia do Sul. Certo dia, minha mãe chegou com boas notícias, “Conheço um professor que está enviando missionários para outros países e ele quer conversar com você sobre seu sonho”, disse. Fiquei emocionada e marquei uma reunião com o professor. Vários dias depois, indo para esse encontro, passei por um grupo de adolescentes vestindo camisetas com as letras “SOS”. Eles me convidaram para uma reunião de evangelismo para estudantes em uma igreja adventista do sétimo dia próxima. Gosto muito da igreja e prontamente acompanhei os alunos ao bonito templo de madeira.
Quando o pastor soube que eu era cristã, perguntou-me sobre o que eu sabia a respeito do sábado. Eu guardava os domingos. O pastor explicou sobre a guarda do sábado. Enquanto ele falava, meu coração começou a se sentir aquecido. Naquele momento, meu celular tocou. Era o professor, informando que estava à minha espera. Foi muito estranho. Eu queria muito conversar com ele, mas as palavras do pastor tocaram profundamente meu coração, e adiei nosso encontro para o dia seguinte. Naquela noite, aprendi sobre o sábado, a segunda vinda de Cristo, o julgamento, salvação de Deus e o grande conflito. Meu coração transbordou de alegria.
No dia seguinte, voltei à linda igreja de madeira para aprender mais sobre a Bíblia. Enquanto estava lá, o professor telefonou. Respondi que estava ocupada estudando a Bíblia na igreja adventista do sétimo dia. Com raiva, ele disse que os verdadeiros cristãos não seguem as doutrinas dos adventistas e explicou suas doutrinas para mim. O pastor, que estava sentado perto, não pôde ajudar, mas ouviu a conversa. Ele disse que as doutrinas do professor pareciam aquelas ensinadas por um grupo de ramificação cristã que afirma que seu líder é o próprio Espírito Santo. Fizemos algumas verificações e descobrimos que o professor pertencia a esse grupo. Minha mãe também pertencia ao grupo.
Fiquei triste e chateada porque minha mãe tentou me enganar para entrar no grupo. Implorei a ela que estudasse a Bíblia com o pastor adventista, mas ela recusou com raiva. Eu não tinha certeza do que fazer a seguir. O pastor sugeriu que eu me matriculasse na Universidade Adventista de Sahmyook. “Você poderia estudar mais a Bíblia e conduzir sua mãe à verdade”, disse ele. A raiva de minha mãe suavizou enquanto eu estudava na universidade. Contei a ela o que aprendia e deixei propositadamente vários materiais de estudo da Bíblia espalhados pela casa. Pouco a pouco, ela assistia às mensagens adventistas no YouTube e lia revistas adventistas. Pela graça de Deus, me formei na universidade em 2020.
Então, uma reunião desse grupo cristão de que minha mãe participava, transformou-se em grande disseminadora do coronavírus, resultando em um dos piores surtos na Coreia do Sul. Milhares de pessoas, incluindo minha mãe, foram infectadas. Felizmente, ela se recuperou rapidamente, mas a igreja do grupo foi fechada e suas reuniões foram proibidas. Acredito que Deus está conduzindo minha mãe a um conhecimento mais profundo.
Amo as palavras de Jesus: “Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19:10). Esse verso fala sobre mim. Olhando para trás, posso ver que, através da providência, conheci aqueles missionários SOS e percebi a verdade sobre minha mãe. SOS significa “Salvation, Only Jesus, Service” (“Salvação, Somente Jesus, Serviço”) e pretendo me tornar uma missionária SOS para minha mãe e para o mundo. Esse plano é a resposta ao meu sonho.
So-hee está entre muitos adventistas do sétimo dia da Coreia do Sul com um coração voltado para a missão. Neste trimestre, os membros da igreja de todo o mundo têm a oportunidade de ter um coração voltado para a missão na Coreia do Sul. Parte da oferta desse trimestre ajudará a estabelecer centros missionários em duas cidades.
Informações adicionais
• Peça que uma jovem apresente esta história na primeira pessoa.
• O SOS (Salvation, Only Jesus, Service) é um movimento missionário juvenil com base na Coreia do Sul, cujo objetivo é ajudar os jovens a alcançar sua própria geração. O movimento começou em 2015 entre os jovens da Associação do Sudeste Coreano. Por uma semana durante o período de férias, os adolescentes SOS abordam outros adolescentes na rua, convidando para ir à igreja, oferecem estudos bíblicos e, por fim, convidam para entregar o coração a Jesus no batismo.
• Faça o download das fotos no Facebook: bit.ly/fb-mq.
• Para outras notícias sobre o Informativo Mundial e informações sobre a Divisão do Pacífico Norte-Asiático, acesse: bit.ly/nsd-2021.
Esta história ilustra os componentes seguintes do plano estratégico do “I Will Go”, da Igreja Adventista: Objetivo de Crescimento Espiritual nº 1 – “reavivar o conceito de missão mundial e sacrifício pela missão como um estilo de vida envolvendo não apenas pastores, mas todos os membros da igreja, jovens e idosos, na alegria de testemunhar por Cristo e fazer discípulos”; Objetivo de Crescimento Espiritual nº5 – “discipular indivíduos e familiares numa rotina espiritual”; e Objetivo de Crescimento Espiritual No. 7 – “ajudar jovens e adultos a colocar Deus em primeiro lugar e exemplificar uma visão bíblica de mundo”. Saiba mais sobre o plano estratégico em IWillGo2020.org.

