Nos tempos bíblicos, os profetas muitas vezes desempenhavam papéis decisivos na história do povo de Deus. Em alguns momentos, eles estiveram em destaque, ocupando posições influentes na vida da comunidade. No entanto, ser profeta era um chamado difícil. Sua vida, em geral, não era fácil, mas marcada por tristeza, rejeição, incompreensão e frustração. Com frequência, os profetas de Deus não aceitavam de imediato o chamado para o ministério profético – e não é difícil entender o motivo. Muitos foram duramente combatidos justamente por aqueles que deveriam acolher sua mensagem. Os profetas de Deus foram ignorados, ridicularizados, maltratados, presos, apedrejados, perseguidos e até martirizados.
Hoje, em meio à violência, ganância, imoralidade, exploração e a todo tipo de influência satânica, a voz profética é frequentemente rejeitada ou ignorada. Somos chamados a ouvir a voz dos profetas de Deus e a ser mensageiros da esperança que nos foi confiada por meio deles.
Nesta semana, examinaremos alguns momentos decisivos da história em que o Senhor chamou profetas para realinhar Seu povo com Suas mensagens para um mundo decaído.
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Desde Gên 2 2 de ao Seu chamado para a obediência como resposta à Sua graça que respon 7, 31-34). Anos depois da dispersão em Babel, o Senhor escolheu (veja Jr 31: Abrão (mais tarde, Abraão) para ser um exemplo de fé – não apenas para sua família, mas para todas as gerações futuras. Cercado por apostasia e relativismo moral, Abrão se mostrou fiel ao chamado divino (veja Gn 12:1-9).
Deus com unicou a Abraão os termos da aliança e lhe mostrou como a salvação da humanidade seria realizada por meio do sacrifício de Cristo (Gn 15:6-17). Para testar a fé do patriarca e ilustrar o futuro sacrifício do Filho de Deus, o Senhor pediu que ele oferecesse Isaque, seu filho, em sacrifício (Gn 22:1-17). Que prova angustiante para o “pai da fé”! Mesmo assim, obedeceu fielmente. No momento decisivo, Deus impediu que ele matasse Isaque e p rovidenciou um carneiro para ser oferecido em seu lugar.
Nem todos os profetas foram chamados por Deus para anunciar juízos iminentes. Todos, porém, foram chamados a reconduzir o povo à fidelidade; por vezes, advertindo contra a apostasia, contra a opressão dos pobres e necessitados e contra a violação da aliança.
Acima de tudo, os profetas tinham a missão de anunciar a promessa da salvação no Messias. O testemunho permanente dos profetas bíblicos – e a atuação do Espírito Santo após o período apostólico – nos conclama a advertir o mundo a respeito da crise final que se aproxima. No centro dessa advertência, estão as boas-novas da redenção oferecida ao povo fiel de Cristo, aqueles que permanecem em relacionamento de aliança com Ele (Ap 12:17).
1. Leia Gênesis 15:6; Gálatas 3:6-9; e Hebreus 11:8. Que aspectos da vida e do caráter de Abraão o qualificaram para o serviço de Deus, embora, naturalmente, ele tivesse falhas?
Existem inúmeros paralelos entre a época de Abraão e a nossa. Assim como o paganismo e a idolatria predominavam naquele tempo, hoje também diversas ideologias procuram eliminar ou marginalizar o cristianismo. Em contraste com a cultura prevalecente, o povo de Deus é chamado a refletir fielmente Seu caráter na vida cotidiana, inclusive na proclamação das três mensagens angélicas (Ap 14:6-12).
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2. Leia 1 Reis 18:19-39. O que essa história revela sobre a atuação dos profetas?
O chamado de Elias e sua maneira de falar refletiam seu papel como mensageiro de Deus. Para deter a apostasia em Israel, o Senhor enviou o profeta ao rei Acabe para anunciar um período de seca que duraria vários anos. Deus usou essa aflição para afastar Seu povo da idolatria e reconduzi-lo à obediência. Porém, o rei e a nação culparam Elias por seus infortúnios e buscaram sua morte.
No monte Carmelo, Elias enfrentou os profetas de Baal e de Aserá. O mensageiro de Deus fez um apelo cheio do Espírito a Israel, chamando a nação idólatra a rejeitar os falsos deuses e voltar-se ao Senhor. O povo sabia que suas escolhas o haviam conduzido à apostasia nacional. Agora estavam dispostos a se apegar novamente ao Deus de Elias, que Se mostrara superior aos falsos deuses – que, na realidade, nem sequer existiam.
Pouco antes da segunda vinda de Cristo, Deus ordena à Sua igreja que proclame novamente a mensagem de Elias, conclamando as pessoas a abandonarem seus “ídolos” e a se prepararem para estar em pé no grande Dia do Senhor. Deus continua Se comunicando com Seu povo por meio dos instrumentos que Ele mesmo escolheu. Sua Palavra e o dom de profecia oferecem advertência, correção, orientação e encorajamento.
“Um reavivamento da verdadeira piedade entre nós: essa é a maior e a mais urgente de todas as nossas necessidades! Buscá-lo deve ser nossa primeira ocupação. Deve haver diligente esforço para obter a bênção do Senhor, não porque Deus não esteja disposto a concedê-la, mas porque nos encontramos carecidos de preparo para recebê-la” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas [CPB, 2022], v. 1, p. 103).
3. Leia Malaquias 4:5, 6. Como a mensagem de Elias impacta os lares dos servos de Deus?
O verdadeiro reavivamento começa no coração e no lar. A família é a base da igreja e um elemento indispensável na construção da comunidade. Quando há reavivamento no lar, um amor de origem celestial se espalha para a igreja, para a comunidade e para a nação. Esse é o propósito de Deus para o lar cristão e a motivação para cumprir a missão.
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Isaías recebeu seu chamado para o ministério profético diretamente de Deus (Is 6:1-9). Diante da santidade e da majestade divinas, ele tomou consciência de sua própria indignidade. Nesse momento, um serafim voou até o profeta com uma brasa viva do altar celestial e “purificou” seus pecados. Em seguida, Deus perguntou: “A quem enviarei, e quem há de ir por Nós?” A resposta de Isaías deveria ser também a nossa: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6:8).
O chamado de Isaías aconteceu em um momento crucial da história de Israel. Apesar de suas limitações, a missão de advertir o povo e seus líderes a respeito de seus pecados era extremamente importante. As profecias de Isaías oferecem profundo vislumbre quanto ao caráter de Deus, à natureza humana e ao desdobramento do plano da salvação. Em Isaías 53, encontramos, sem dúvida, uma das mais poderosas profecias que descrevem não apenas a morte de Jesus, mas também o que essa morte realizou em favor do mundo.
4. Leia Isaías 53. Como essa impressionante profecia revela de modo tão poderoso a morte de Cristo em nosso favor? O que essa profecia nos ensina sobre o dom profético?
As profecias de Isaías predisseram o propósito e a missão do Messias (Is 53:3-5). Elas explicam por que Cristo foi levado “como cordeiro” ao matadouro (v. 7) e mostram como Seu sacrifício expiatório salvou Seu povo dos pecados. A morte substitutiva de Cristo é claramente retratada, revelando o fundamento da expiação em favor de toda a humanidade.
“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu próprio caminho, mas o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de todos nós” (v. 6). Nesse texto, descreve-se a natureza universal do pecado e o poder universal da cruz. Talvez mais do que qualquer outro capítulo, Isaías 53 expõe o plano da salvação de maneira clara e inequívoca.
Contudo, o chamado profético de Isaías não foi fácil. Muitos consideraram absurdas suas graves previsões de destruição – assim como muitos reagem hoje quando são advertidos quanto às consequências do pecado (Rm 6:23). A voz profética de Isaías – para o seu tempo e para o nosso – é cristalina (veja Is 2:4; 5:20). A recusa persistente da nação em praticar a justiça e em promover reforma espiritual levou à destruição de Jerusalém. Os mesmos pecados marcarão a destruição dos ímpios quando Cristo voltar.
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A maioria dos cristãos conhece a história de Daniel 1, em que o jovem profeta permaneceu firme nos princípios de saúde que aprendera desde a infância. Daniel foi um modelo de fidelidade (Dn 1:8) e insistiu em ter uma alimentação à base de vegetais e em beber apenas água, em vez de aceitar a refeição da mesa do rei (Dn 1:12-16). Apenas um pequeno teste em comparação com o feta fiel 2 2 que viria depois – em Daniel 6, sua fidelidade poderia ter lhe custado a vida.
5. Leia Daniel 2:46-48; 4:18; 5:13, 14; 6:25-27. Que testemunho Daniel deu aos pagãos?
Observe o testemunho desses pagãos a respeito do poder do Deus de Daniel. Por mais singulares que sejam essas histórias, todas destacam um princípio crucial: por meio da nossa fidelidade e do poder de Deus, atuando em nós e por nosso intermédio, outros podem – e devem – aprender sobre o Deus do Céu, que é “o Deus dos deuses e o Senhor dos reis” (Dn 2:47).
O tema recorrente das profecias de Daniel é o juízo, que c ulmina na segunda vinda de Cristo, a vitória final de Deus. Por isso, é muito apropriado que o nome do profeta signifique “Deus é meu Juiz”. Seus escritos merecem estudo atento, pois são relevantes para nós hoje. As profecias de Daniel nos lembram constantemente da necessidade de vigilância e de obediência aos mandamentos de Deus, inclusive nas “pequenas” coisas da vida.
Como profeta, Daniel também predisse a ascensão e a queda de impérios e as consequências da desobediência a Deus. Por meio de suas visões, revelou o plano divino e a vitória final do reino de Deus (Dn 7:13, 14).
Por exemplo, em Daniel 2, há a descrição precisa da sucessão de quatro grandes impérios mundiais, chegando até o nosso tempo – representado pelos pés e dedos da estátua, que apontam para a atual Europa. A profecia ensina que as nações europeias “procurarão se misturar por meio de casamentos, mas não se ligarão [uma à outra], assim como o ferro não se mistura com o barro” (Dn 2:43) – uma previsão impressionante. Mesmo hoje, apesar de tantas tentativas de unificação, o continente continua formado por nações distintas, com leis, costumes e tradições diferentes. A predição de Daniel nos oferece razões para confiar na profecia – afinal, nem mesmo os serviços de inteligência previram o colapso da União Soviética.
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6. Leia Marcos 1:2-5. Qual era o propósito do ministério de João Batista?
O evangelho de Marcos informa que o ministério de João Batista foi o cumprimento da profecia de Isaías (Is 40:3). Desde a infância até a idade adulta, ele teve uma vida marcada pela fidelidade a Deus. Satanás temeu perder seu domínio sobre a humanidade ao ouvir a voz de João ecoando no deserto (veja Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações [CPB, 2021], p. 172). A impiedade dos ouvintes de João foi desmascarada, abalando o inimigo. O domínio de Satanás sobre Israel estava sendo ameaçado. Ele tentou, repetidas vezes e sem sucesso, dissuadir João Batista de seu estilo de vida fiel e de sua con-fiança no Messias.
7. Leia Mateus 11:1-6. Como Jesus fortaleceu a fé de João enquanto o pregador estava na prisão?
Satanás não conseguiu levar Jesus ao pecado, e sua derrota no deserto o encheu de fúria. Então mudou de tática e fez com que João Batista, primo de Jesus, fosse preso. Isso entristeceu a Jesus, ainda que Satanás não pudesse levá-Lo a pecar. Era a maneira de o inimigo atingir João e, ao mesmo tempo, ferir o coração do Salvador. Mas João recebeu uma palavra de ânimo da parte de Cristo. Apesar de suas duras condições e de não entender por que continuava preso, mesmo Jesus tendo poder, João permaneceu fiel, até a morte.
Como fez com João Batista, Satanás pode usar a incerteza para nos levar a duvidar do chamado de Deus. Não precisamos, porém, cair no desânimo. Devemos nos lembrar da maneira como o Senhor já nos conduziu, especialmente quando as coisas não vão bem – como aconteceu com João, que foi preso e morto. Seja o que for que façam contra nós, podemos estender a mão da fé a Deus, certos de que Ele nos ouvirá. Ele prometeu nos conceder poder para cumprir Sua vontade (At 1:8). Em um mundo pós-cristão, é fundamental sermos testemunhas fiéis de Cristo – independentemente das circunstâncias. Como os profetas do passado, somos chamados a proclamar arrependimento, fé e a justiça de Cristo (Ap 14:6-12).
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Deus chama profetas em momentos específicos, para propósitos especiais e com as mensagens de que o povo precisa naquele tempo. Nesse contexto, os adventistas do sétimo dia creem que em Ellen White se manifestou, mais recentemente, o dom de profecia, desempenhando papel semelhante ao de um profeta não canônico.
Ellen Harmon (depois White) recebeu seu primeiro chamado em dezembro de 1844. Poucas semanas antes, os crentes mileritas passaram por um dos episódios mais devastadores de sua história – o grande desapontamento.
Foi nesse cenário que Deus deu a Ellen Harmon sua primeira visão. A mensagem principal era animar tanto ela quanto os crentes desapontados, mostrando que Deus ainda estava com eles, apesar de sua interpretação equivocada. A visão mostrava um caminho que ia da Terra à Jerusalém celestial. Nesse caminho, crentes adventistas caminhavam rumo à cidade santa: “Se conservavam o olhar fixo em Jesus, que Se achava precisamente diante deles, guiando-os para a cidade, permaneciam seguros” (Primeiros Escritos [CPB, 2022], p. 32).
Essa visão era uma boa notícia. Deus começava a suscitar um novo movimento a partir da confusão do desapontamento. Jesus ainda estava com eles. Ele ainda voltaria. Continuava conduzindo-os no caminho da salvação. Tudo o que precisavam fazer era manter o olhar “fixo” Nele. Havia fortes razões para não perder a esperança, mesmo em meio a tanta turbulência e frustação.
Assim, Ellen Harmon, então uma adolescente de 17 anos, foi chamada para o ministério profético. Seu caminho não seria fácil, especialmente no início.
Embora esse dom tenha sido gradualmente reconhecido com Ellen White tinha receio de ser mensageira de Deus. Ser profeta nunca foi tarefa simples ou prestigiosa. Como, então, ela se submeteria ao chamado divino?
Na próxima semana, examinaremos mais de perto a obra especial e os desafios enfrentados pelos profetas do Antigo Testamento – desafios que também se refletem na vida e no ministério de Ellen White.
Respostas às perguntas da semana: 1. Fé confiante e obediente em Deus, imputada por justiça, tornando-o exemplo e “pai” de todos os que creem. 2. O ministério profético confronta a idolatria, chama o povo à decisão e ao arrependimento e confirma a verdadeira adoração. 3. Promove arrependimento que restaura relacionamentos e converte o coração de pais e filhos, preparando-os para a vinda do Senhor. 4. Detalha o sofrimento substitutivo e a exaltação de Cristo, confirmando a confiabilidade e centralidade cristológica do dom profético. 5. Daniel testemunhou aos pagãos que o Deus do Céu é vivo, santo, soberano sobre reis e reinos, revelador de mistérios e poderoso para livrar. 6. Preparar o caminho para o Messias, conclamando o povo ao arrependimento e à confissão de pecados. 7. Apontando para as obras messiânicas visíveis – curas, libertações, ressurreições e pregação aos pobres – como cumprimento das profecias.
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TEXTO-CHAVE: Is 6:8
FOCO DO ESTUDO: Gn 15:6; Gl 3:6-9; 1Rs 18:19-39; Is 53:1-12; Dn 2:44-48; Mc 1:2-5; Mt 11:1-5
ESBOÇO
Introdução: O chamado de um profeta bíblico é uma convocação divina, na qual Deus designa diretamente um indivíduo para falar em Seu nome, muitas vezes, por meio de uma experiência de revelação, como uma visão, um sonho ou uma voz audível. Esse chamado geralmente envolve uma comissão para proclamar a mensagem de Deus, confrontar o pecado e orientar o Seu povo. Muitas vezes, o chamado envolve um alto custo pessoal, como se vê na vida de profetas como Moisés, Isaías e Jeremias. A lição desta semana concentra-se no chamado profético em diferentes contextos históricos e em como as mensagens dos profetas, em geral, abordavam os temas do juízo, da salvação e da restauração. A discussão culmina no chamado de Ellen White como uma manifestação do desejo de Deus de continuar comunicando-Se com o Seu povo em um mundo marcado pelo pecado.
COMENTÁRIO
1. Deus escolheu profetas para serem Seus porta-vozes
Willem A. VanGemeren, um estudioso do Antigo Testamento, captou de forma precisa a natureza divina do chamado profético e sua missão de transmitir a mensagem de Deus. Ele definiu o profeta do Antigo Testamento como “um israelita, chamado por Deus e capacitado pelo Espírito, que serve como porta-voz de Deus, que recebeu autoridade e revelação de Deus, que atua como um bom pastor sobre o rebanho de Deus e que demonstra a Palavra e a missão de Deus por meio de sinais” (Willem A. VanGemeren, Interpreting the Prophetic Word [Zondervan, 1990], p. 32). Diversos aspectos dessa definição se destacam. Primeiro, Deus concedia ao profeta uma revelação divina, e o Espírito o capacitava para transmitir essa revelação. Segundo, o profeta exercia a função de pastor sobre o povo de Israel, nutrindo-o, orientando-o, repreendendo-o e corrigindo-o. Por fim, sinais como milagres, eventos especiais e lições simbólicas confirmavam as credenciais divinas do profeta.
A convocação divina era um momento transformador na vida do profeta. O chamado profético acontecia de forma inesperada, com força e poder, mas “não era experimentado como a tão desejada oportunidade do profeta de alcançar um conhecimento que, de outra forma, estaria oculto. O profeta não se apodera do momento; é o momento que se apodera dele. A palavra revelada não lhe é oferecida como algo que ele possa ou não se apropriar segundo seu próprio critério, mas é imposta a ele de maneira vigorosa e poderosa” (Abraham J. Heschel, The Prophets [Harper & Row, 1962], v. 2, p. 224). Miqueias declarou: “Quanto a mim, estou cheio do poder do Espírito do Senhor, cheio de justiça e de força, para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel, o seu pecado” (Mq 3:8).
Em numerosos livros proféticos, os autores declaram que “a palavra do Senhor veio” a eles (Jr 1:11; Jn 1:1; ver também Os 1:1; Jl 1:1) ou que “a mão do Senhor esteve sobre” eles (Ez 1:3; ver também Ez 3:22) e introduzem ou concluem seus oráculos com a expressão “assim diz o Senhor” (Is 7:7; Am 1:3; Ob 1:1; Ag 1:7; ver também Zc 12:1). Essas fórmulas proféticas recorrentes deixam a impressão clara de que os profetas não tinham dúvida de que estavam proclamando as palavras de Deus. Essa “palavra” (ou revelação) profética frequentemente trazia uma mensagem de juízo, como declarou Ezequiel: “[O Senhor] me disse: – Filho do homem, fique em pé, e falarei com você. Enquanto falava comigo, o Espírito entrou em mim e me fez ficar em pé, e ouvi Aquele que falava comigo” (Ez 2:1, 2). Mais adiante, o Senhor afirmou: “Você lhes dirá as Minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” (Ez 2:7).
2. A mensagem de Deus em um momento histórico específico
Os profetas eram “escolhidos por Deus para receber Sua mensagem e, então, proclamá-la a um público em uma situação histórica específica” (Eric J. Tully, Reading the Prophets as Christian Scripture: A Literary, Canonical, and Theological Introduction [Baker Academic, 2022], p. 58). Por exemplo, cada profeta estudado nesta lição experimentou o dom profético em um contexto histórico particular.
O chamado de Deus a Abraão (Gn 12:1) ocorreu após a confusão das línguas, em Gênesis 11, quando o paganismo, a idolatria e a guerra haviam prevalecido. Curiosamente, a primeira vez que o termo “profeta” aparece nas Escrituras aplica-se a Abraão, que atuou como intercessor (Gn 20:7). Elias exerceu seu ministério durante uma grande crise espiritual no Reino do Norte (Israel), nos reinados de Acabe e Acazias. Elias denunciou com veemência a adoração a Baal e chamou Israel ao arrependimento. Isaías profetizou durante o reinado de quatro reis de Judá, no 8º século a.C., quando o grande desafio era a ascensão do Império Assírio, a maior ameaça a Judá naquele período. Daniel desempenhou um papel significativo nos reinos da Babilônia e da Pérsia. João Batista anunciou a vinda do Messias no 1º século d.C. Em tempos pós-bíblicos, Ellen White recebeu sua primeira visão nos Estados Unidos, antes da Guerra Civil Americana (1861-1865), após o desapontamento milerita.
3. Juízo, salvação e restauração
A mensagem profética no Antigo Testamento frequentemente girava em torno de três temas centrais: juízo, salvação e restauração. Esses temas estavam interligados e formavam o núcleo do ministério dos profetas, abordando o relacionamento de aliança entre Deus e o Seu povo. Os profetas chamavam constantemente Israel e Judá de volta às suas responsabilidades pactuais para com Deus, advertindo-os acerca das consequências de sua rebelião, idolatria e injustiça social. O juízo era apresentado como uma resposta divina à quebra da aliança (Dt 28). Apesar das advertências, os profetas ofereciam esperança, apontando para a disposição de Deus em salvar um remanescente de Seu povo que se arrependesse. A salvação frequentemente envolvia a intervenção de Deus para livrar Seu povo de inimigos ou de circunstâncias extremas. A restauração incluía o retorno dos exilados à sua terra, a reconstrução de Jerusalém e do templo, bem como uma renovação espiritual no relacionamento do povo com Deus, culminando, em última instância, na vinda do Messias.
4. A visão inaugural de Ellen White
Em dezembro de 1844, Ellen White recebeu sua primeira visão no contexto histórico do desapontamento milerita. Tratava-se de um período de transição, em que os seguidores de Guilherme Miller se encontravam desapontados e desorientados. Ellen White surgiu nesse cenário com uma mensagem de esperança e encorajamento. Enquanto orava com um grupo de mulheres mileritas desencorajadas, ela sentiu-se envolvida por uma luz. Em sua mente apareceu uma cena em que viu o “povo do advento” caminhando por uma vereda estreita em direção ao Céu, com uma grande luz atrás dele e Jesus à frente. Enquanto mantinham os olhos fixos em Jesus, as pessoas permaneciam no caminho e avançavam. Quando alguns desviavam os olhos de Cristo, caíam do caminho para o mundo escuro abaixo (ver Ellen G. White, Primeiros Escritos [CPB, 2022], p. 32, 33). A visão a surpreendeu e exerceu sobre ela uma força que não podia controlar. Assim como os profetas bíblicos que a precederam, ela foi “tomada pelo momento”.
Diversos temas emergiram dessa primeira visão, que foi fundamental para o futuro ministério profético de Ellen White. Primeiro, ela aponta para sua paixão ao longo da vida pela segunda vinda de Cristo. Segundo, os adventistas do sétimo dia jamais devem se esquecer de seu lugar na história profética. Terceiro, todos os cristãos, especialmente os adventistas, devem manter a vida centrada em Jesus como Senhor e Salvador (ver George R. Knight, Uma Igreja Mundial: Breve História dos Adventistas do Sétimo Dia [CPB, 2000], p. 33).
Ellen White chamou essa experiência de sua “primeira visão”, pois visões em que era levada ao Céu passaram a ocorrer repetidamente. Assim, sua identidade profética foi se formando em torno de expressões frequentemente utilizadas, como “Deus me mostrou”, “vi” ou “fui tomada em visão”, as quais comunicavam sua autoconsciência e autoridade proféticas. Essas revelações trouxeram conforto e consolo ao pequeno grupo disperso e aflito de crentes fiéis que passaram pela experiência milerita. Ellen White foi chamada a viajar e compartilhar suas visões com os diversos grupos de mileritas espalhados pelo estado do Maine e, posteriormente, por outras regiões da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. Com o tempo, colocou essas revelações, e muitas outras que se seguiriam, por escrito, para circulação entre os crentes em formação que, mais tarde, se tornariam os adventistas do sétimo dia.
Para estudo adicional: Ver Zoltán Szalos--Farkas, The Rise and Development of Seventh- -day Adventist Spirituality: The Impact of the Charismatic Guidance of Ellen G. White, Doctoral Dissertation Series (Editura Institutului Teologic Adventist, 2005), v. 1, p. 56-61.
APLICAÇÃO PARA A VIDA
As seguintes perguntas de aplicação para a vida, extraídas do comentário desta lição, são oferecidas para enriquecer a discussão em classe. Escolha, entre elas e entre as perguntas da lição, aquelas que melhor envolverão a classe em uma reflexão significativa.
1. Os profetas não buscavam o chamado; eram tomados por ele. Como você imagina que os profetas se sentiam durante essa experiência? De que maneira isso desafia nossa perspectiva sobre o chamado de Deus em nossa própria vida?
2. A mensagem de cada profeta era moldada pelos desafios históricos de seu tempo. Como a compreensão do contexto histórico da profecia bíblica nos ajuda a aplicar suas lições à realidade atual?
3. Os profetas advertiam que a quebra da aliança levaria ao juízo (Dt 28). Como esse princípio se aplica hoje à fidelidade pessoal e comunitária?
4. Apesar de suas mensagens de juízo, os profetas sempre apontavam para a esperança e a salvação. Como podemos manter a esperança em meio às provações e ao sentimento de culpa pessoal?
5. Como podemos ser mensageiros da justiça e da misericórdia de Deus em um mundo que tem dificuldade de lidar com essas duas realidades?
6. A primeira visão de Ellen White enfatizou a importância de manter os olhos fixos em Jesus. Como podemos permanecer espiritualmente focados em Cristo em meio às distrações da vida?
7. Um dos temas centrais dessa visão foi a importância de lembrar nosso lugar na história profética. De que maneira compreender onde estamos no plano de Deus molda a forma como vivemos hoje?
8. O ministério profético de Ellen White prosseguiu ao longo de toda a sua vida. Como podemos discernir e responder à orientação contínua de Deus em nossa jornada espiritual pessoal?
9. De que maneira saber que Deus utiliza pessoas comuns para propósitos extraordinários fortalece a sua fé?
10. Como podemos equilibrar os temas do juízo, da salvação e da restauração ao compartilhar o evangelho com outras pessoas?
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