O grande missionário inglês William Carey costumava dizer que consertava sapatos para pagar as despesas, mas que seu verdadeiro ofício era ganhar pessoas para Cristo. Do mesmo modo, Paulo trabalhava como fabricante de tendas para se sustentar (At 18:1-3); sua verdadeira missão, porém, era conduzir pessoas a Cristo.
Nesta semana, vamos conhecer um pouco do ministério de Paulo junto à igreja de Corinto. Como veremos, essa igreja tinha muitos problemas – vários não muito diferentes dos que enfrentamos hoje, quase dois mil anos depois. Quem é cristão há algum tempo e vive a rotina da igreja talvez se pergunte: Existe alguma comunidade cristã sem problemas? A resposta, claro, é óbvia.
Paulo enfrentou os desafios de Corinto com a mensagem da cruz (1Co 2:2). Fidelidade a essa mensagem também é o caminho para enfrentarmos os desafios atuais. Como veremos nesta semana e ao longo do trimestre, o ensino de 1 e 2 Coríntios se aplica diretamente à nossa vida.
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Paulo começa suas cartas aos Coríntios identificando-se como apóstolo de Jesus Cristo, “chamado pela vontade de Deus” (1Co 1:1; 2Co 1:1). Sua convicção a respeito de quem ele era em relação a Cristo era tão firme que, com poucas exceções, essa era a forma como iniciava suas cartas.
1. Leia 1 Coríntios 1:1 e Romanos 1:1. Quais dois aspectos do ministério de Paulo são destacados nesses textos? (Veja também Gl 1:1.)
Paulo fala sobre seu chamado e apostolado como cumprimento da vontade de Deus. Ele está seguro de que sua vocação não vem de homens, mas de Deus (Gl 1:1). Assim como Jeremias, foi separado desde o ventre materno (Jr 1:5) por um ato da graça divina (Gl 1:15), para anunciar o evangelho de Cristo entre os gentios.
Em 1 Coríntios 15:8, Paulo se inclui entre aqueles aos quais Cristo apareceu após a ressurreição (1Co 15:5-7). Poucos versos depois, ele dá a entender que seu chamado para ser um apóstolo decorreu desse encontro com Jesus (1Co 15:9-11).
O título “apóstolo de Cristo Jesus” reúne vários conceitos. Antes de tudo, traz a ideia de alguém a quem Jesus envia. No entanto, Paulo também usa essa expressão para se identificar como servo de Cristo (Rm 1:1; Tt 1:1; Gl 1:10) e como pregador e mestre (1Tm 2:7; 2Tm 1:11). Na pregação e no ensino paulinos, Cristo está sempre em evidência. Em resumo, Paulo é um apóstolo de Jesus.
Cristo não é apenas o centro do apostolado de Paulo; é o centro de sua vida. Seus pensamentos e afeições estavam cheios da presença de Cristo. Prova disso é que ele menciona Jesus repetidamente nas seções introdutórias de 1 Coríntios (saudação e ação de graças) – nove vezes em nove ver-sos (1Co 1:1-9). Paulo amava tanto a Cristo que não conseguia deixar de pensar Nele e falar sobre Ele. Seu desejo era compartilhar Jesus com aqueles que estavam sob seus cuidados, a fim de que a vida deles também estivesse centrada em Cristo. Enquanto Paulo foi chamado para ser apóstolo, eles foram chamados para ser seguidores fiéis de Jesus, conforme a vocação que o Senhor lhes concedeu.
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2. Leia Atos 17:16-34. Em que lugar Paulo esteve antes de ir a Corinto, e o que ele fez lá?
Atos 17:16 a 34 descreve a pregação de Paulo aos atenienses antes de sua ida a Corinto. Ao que tudo indica, ele não planejava visitar Atenas naquele momento, mas foi levado até lá por alguns amigos por causa da oposição enfrentada em Bereia (At 17:13-15). Os que acompanharam Paulo até Atenas retornaram a Bereia com a orientação de que Timóteo e Silas fossem ao seu encontro o quanto antes (At 17:15). O que se segue em Atos 17:16 a 34 mostra o que Paulo fez enquanto aguardava: falou de Jesus na sinagoga, na praça e no Areópago. Ele não conseguia deixar de falar sobre Cristo e aproveitava toda oportunidade para isso.
3. Leia Atos 18:1-11. O que Paulo fez ao chegar a Corinto e durante toda a sua permanência na cidade?
Paulo foi a Corinto em sua segunda viagem missionária. Lucas nos informa que ele permaneceu ali por um ano e seis meses. Como de costume, Paulo iniciou sua atividade missionária na sinagoga (At 18:4-6). Atos 17:1 e 2 menciona que esse era o “seu costume”. Ele seguia a estratégia de que a pregação deveria ser feita primeiramente aos judeus (Rm 1:16; At 13:46), conforme a ordem de Jesus aos apóstolos (At 1:8).
Quando, finalmente, Silas e Timóteo se juntaram a ele em Corinto, “Paulo se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que Jesus é o Cristo” (At 18:5). Ao longo de sua estada, permaneceu ocupado “ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18:11). Foi nesse contexto que expressou também as célebres palavras: “Porque decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co 2:2).
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4. Leia Atos 18:1-3; 1 Coríntios 5:9-11; 8:4. A partir desses textos, o que podemos concluir sobre a economia, a moralidade e a vida religiosa de Corinto?
Corinto era um importante centro do mundo antigo, conhecido por seu comércio próspero. A cidade foi destruída por Roma em 146 a.C. e reconstruída como colônia romana por Júlio César em 44 a.C. É essa Corinto romanizada que encontramos no Novo Testamento. Na época de Paulo, Corinto rivalizava com Atenas e, em vários aspectos, já a havia superado. Corinto tinha dois portos importantes, que facilitavam a troca de mercadorias e o desenvolvimento econômico.
Paulo escolheu Corinto por sua relevância e localização geográfica privilegiada. “Essa conjuntura apresentou uma oportunidade para a propagação do evangelho. Uma vez estabelecida em Corinto, a mensagem cristã seria prontamente comunicada a todas as partes do mundo” (Ellen G. White, A Vida de Paulo [CPB, 2025], p. 69).
Além disso, o próspero comércio em Corinto permitiria que Paulo se mantivesse fabricando e vendendo tendas enquanto anunciava o evangelho (At 18:2, 3). Naturalmente, a obra missionária em uma cidade grande e rica não está livre de desafios. Corinto era caracterizada por gritante pluralismo religioso (1Co 8:5), evidenciado pelos numerosos santuários construídos em homenagem a deuses como Apolo, Atena e Afrodite, entre outros – e até pelo culto de divindades egípcias, como Serápis e Ísis.
Somado a esse caos religioso, Corinto também era conhecida por sua libertinagem sexual. Estrabão, geógrafo e historiador grego, menciona a existência de mil prostitutas “sagradas” que participavam do culto no templo de Afrodite em Corinto. Embora muitos estudiosos vejam esse número com desconfiança e o relacionem à propaganda ateniense contra Corinto, a prostituição ritual era comum no mundo antigo. A imoralidade sexual era moralidade um problema em Corinto, como em outros lugares. Idolatria e imoralidade faziam parte da vida diária, e essa triste realidade explica boa parte do conteúdo de 1 e 2 Coríntios.
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5. Leia Atos 18:4-8. Quais foram os resultados da pregação de Paulo?
O trabalho de Paulo entre os judeus em Corinto não foi tão frutífero quanto ele desejava. O apóstolo enfrentou hostilidade e ódio: “Eles se opuseram e blasfemaram” (At 18:6). Quando o verbo grego blasfemeo (“blasfemar”) tem como alvo um ser humano, o sentido é “insultar” ou “difamar”. Em outras palavras, tentaram manchar a reputação de Paulo e impedir seus esforços missionários.
Felizmente, o trabalho de Paulo naquela sinagoga não foi em vão. Deus conduzia Sua missão e havia prometido: “[Minha palavra] não voltará para Mim vazia” (Is 55:11). Para surpresa de muitos, Crispo, o chefe da sinagoga, e toda a sua família creram em Jesus e foram batizados (At 18:8). E não foram apenas eles: “Muitos dos coríntios, ouvindo, creram e foram batizados” (At 18:8), provavelmente influenciados também pelo testemunho de Crispo.
6. Leia Atos 18:9, 10. O que podemos deduzir sobre a reação de Paulo diante dos desafios em Corinto? Como Deus encorajou Seu servo?
Logo após sair da sinagoga, Paulo recebeu um grande encorajamento: em uma visão noturna, o próprio Cristo lhe apareceu com palavras que lembram Isaías 41:10, que diz: “Não tema, porque Eu estou com você.” O após-tolo admitiu que esteve em Corinto “em fraqueza, temor e grande tremor” (1Co 2:3). Ele teve de deixar Bereia e seguir para Atenas por causa de ferrenha oposição e talvez imaginasse que teria de deixar Corinto pelo mesmo motivo. Mas, desta vez, seria diferente. Jesus lhe disse: “Tenho muita gente nesta cidade” (At 18:10, NVI). E Paulo foi Seu instrumento para levar a essas pessoas as boas-novas da salvação.
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7. Leia 1 Coríntios 1:11-13; 4:14; 5:11; 7:1; 14:37, 40. Leia também 2 Coríntios 1:12; 2:9; 11:3; 13:10. Com base nesses textos, por que Paulo escreveu cartas aos cristãos de Corinto?
Paulo estava em Éfeso quando escreveu 1 Coríntios (1Co 16:5-9). Membros da família de Cloe levaram-lhe a notícia de que as coisas não iam bem em Corinto (1Co 1:11). Em 1 Coríntios capítulos 1 a 6, o apóstolo aborda os problemas: divisões, imoralidade sexual, ações judiciais entre irmãos e prostituição. Além disso, Paulo recebeu uma carta com perguntas específicas (1Co 7:1). Sua resposta ocupa o espaço do capítulo 7 em diante. As perguntas estavam relacionadas a: casamento, divórcio, celibato, alimentos sacrifica-dos a ídolos, conduta no culto, uso dos dons espirituais e má compreensão sobre a ressurreição. A igreja de Corinto era problemática e imatura. Talvez sua igreja local tenha muitos problemas; ainda assim, a situação em Corinto era provavelmente pior.
A Primeira Carta e Paulo aos Coríntios é muito pertinente à nossa época. Afinal, não enfrentamos, até certo ponto, alguns dos mesmos problemas em muitas de nossas igrejas hoje? Essa carta tem muito a nos dizer. É “uma das mais ricas, instrutivas e poderosas de todas as suas cartas” (Ellen G. White, Atos dos Apóstolos [CPB, 2021], p. 192).
Paulo pode ter escrito três ou quatro cartas aos coríntios (veja 2Co 10:9). Ele escreveu uma primeira carta antes de 1 Coríntios, mas que se perdeu (1Co 5:9). E, antes de 2 Coríntios, escreveu uma carta referida pelos estudiosos como “carta severa”, também perdida (2Co 2:3, 4, 9; 7:8). Alguns entendem que essa “carta severa” seja 1 Coríntios; outros sugerem que seu conteúdo esteja preservado em 2 Coríntios, ao menos em parte.
Em 2 Coríntios, percebemos que os cristãos de Corinto eram influenciados pela cultura ao redor. Eles valorizavam a competição, o poder e a riqueza – elementos que também podem desafiar a igreja hoje. Em contra-partida, Paulo procurou formar uma cultura centrada em Cristo, um modo de enxergar o mundo pelas lentes do evangelho. É essencial que nós também enxerguemos o mundo atual através das lentes do evangelho.
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Leia, de Ellen G. White, Atos dos Apóstolos [CPB, 2021], “Corinto” (p. 155-161). “Em sua pregação do evangelho em Corinto, o apóstolo seguiu um método diferente do que caracterizara seu trabalho em Atenas [...]. Decidiu evitar discussões e argumentos elaborados e se propôs a nada saber entre os coríntios ‘senão a Jesus Cristo e este crucificado’” (Ellen G. White, Atos dos Apóstolos [CPB, 2021], p. 155).
Paulo obteve “certo sucesso”, mas “duvidou da sabedoria de edificar uma igreja com base no material humano ali encontrado. Ele considerava Corinto um campo de trabalho muito problemático e decidiu deixá-lo. [...]
“Enquanto cogitava deixar a cidade para ir em busca de um campo mais promissor, [...] o Senhor então lhe apareceu em uma visão noturna e disse: ‘Não tenha medo! Pelo contrário, fale [...], pois tenho muito povo nesta cidade’ (v. 9, 10). Paulo entendeu que foi uma ordem para permanecer em Corinto e uma garantia de que o Senhor faria crescer a semente plantada. [...] Uma grande igreja se levantou sob o estandarte de Jesus Cristo” (Ellen G. White, A Vida de Paulo [CPB, 2025], p. 74, 75).
“Está registrado que Paulo trabalhou por um ano e seis meses em Corinto. Seus esforços, porém, não se limitaram exclusivamente àquela cidade [...]. Ele transformou Corinto em sua base. [...] Várias igrejas foram assim plantadas [...]. A ausência de Paulo das igrejas sob seus cuidados era parcialmente suprida por correspondências cheias de palavra poderosas e impactantes, que costumavam ser recebidas como a palavra de Deus [...]. Essas epístolas eram lidas nas igrejas” (A Vida de Paulo, p. 76).
Perguntas para consideração
1. Por um momento, Paulo pensou em desistir de sua obra missionária em Corinto e deixar a cidade. O que o fez mudar de ideia? Como isso pode nos ajudar quando queremos desistir da missão?
2. Os coríntios eram fortemente influenciados pela cultura ao redor. Essa também é uma dura realidade entre nós hoje. Como estar no mundo (Jo 17:11, 15) sem nos deixarmos influenciar por ele? Como nossa igreja tem sido negativamente influenciada pela cultura que a cerca?
Respostas às perguntas da semana: 1. Paulo foi chamado por Deus e enviado como apóstolo de jesus Cristo. 2. Paulo esteve em Atenas, onde pregou o evangelho e dialogou com filósofos e ouvintes no Areópago. 3. Ao chegar a Corinto, Paulo trabalhou como fabricante de tendas e dedicou-se continuamente à pregação do evangelho. 4. Corinto tinha economia próspera, moralidade decadente e vida religiosa marcada por idolatria. 5. A pregação de Paulo resultou em oposição de alguns, mas também na conversão de muitos judeus e gentios. 6. Diante dos desafios, Paulo sentiu temor, mas Deus o encorajou prometendo Sua presença, proteção e fruto no ministério. 7. Paulo escreveu às igrejas de Corinto para corrigir erros, tratar problemas internos, orientar a conduta cristã e reafirmar sua autoridade apostólica.
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TEXTO-CHAVE: At 18:9, 10
FOCO DO ESTUDO: 1Co 1:1-3; At 18:4-10
ESBOÇO
Introdução: Uma tirinha recente mostra uma senhora idosa bastante corpulenta sentada no consultório médico. O médico está com uma expressão de espanto no rosto. A legen- da abaixo da tirinha diz: “Doutor, me identifico como uma adolescente magra de 16 anos e acho profundamente ofensivo o senhor dizer que meu peso, na minha idade, está ameaçando minha saúde”.
Como essa tirinha mostra de forma bem-humorada, a percepção é parte essencial da identidade. Entidades que enfrentam dificuldades para definir sua identidade também enfrentarão dificuldades para cumprir seu propósito ou missão na vida.
A lição desta semana apresenta dois livros do Novo Testamento voltados à missão; 1 e 2 Coríntios. Também somos apresentados ao autor, o próprio Paulo, especialmente à sua missão e ao propósito de alcançar os coríntios.
Temas da lição: Mais do que uma introdução ao contexto histórico da igreja em Corinto e de como ela foi fundada, a lição irá se concentrar nos seguintes temas e questões:
1. Cenários culturais e históricos. Consideraremos os contextos culturais e históricos relevantes para o estudo das epístolas aos coríntios.
2. Ministério estratégico. Qual foi a estratégia de Paulo para o ministério em Corinto? Na busca pela resposta a essa pergunta, consideraremos a estratégia missionária de Paulo em Corinto dentro do contexto da igreja cristã apostólica.
3. Identidade. A identidade é fundamental para a missão. Vale repetir: entidades que têm dificuldade em definir sua identidade também terão dificuldade em cumprir sua missão. Nossa discussão sobre identidade buscará responder às seguintes perguntas:
a. Por que Paulo se identificava como apóstolo?
b. Qual é o papel da identidade na missão?
c. Que tipo de identidade a igreja em Corinto possuía?
d. Como podemos manter uma identidade cristã em um mundo que enfatiza valores e ideais diferentes?
COMENTÁRIO
1. Contexto
A carta de 1 Coríntios é uma das mais extensas do Novo Testamento. Assim como Romanos, possui 16 capítulos, totalizando 433 versos. Trata-se de uma carta pastoral dirigida a uma igreja recém-estabelecida que enfrentava sérias questões éticas, teológicas e interpessoais. Paulo se identifica claramente como o autor de 1 Coríntios (1Co 1:1) e, em 1 Coríntios 16:21, inclui uma referência à sua assinatura escrita de próprio punho. A carta de 2 Coríntios é mais curta (13 capítulos, totalizando 257 versos) e contém muito mais informações pessoais sobre o apóstolo Paulo. A epístola descreve de maneira abrangente a compreensão que o apóstolo tinha de seu ministério apostólico. Alguns utilizaram a expressão em latim apologia pro vita sua, “defesa de sua vida”, como uma designação apropriada do conteúdo e do foco de 2 Coríntios (ver Leland Ryken e Philip Graham Ryken, “2 Corinthians: Introduction”, em The Literary Study Bible: ESV [Wheaton, IL: Crossway Bibles, 2007], p. 1.715). Nesta carta, Paulo defende seu ministério apostólico diante de alguns opositores na igreja de Corinto e oferece um exemplo de como a vida e o ministério cristão devem ser vividos.
A troca de cartas entre Paulo e a jovem congregação em Corinto tem sido objeto de discussão acadêmica. A carta de 1 Coríntios parece ser uma resposta a algumas perguntas que foram enviadas por correspondência a Paulo (ver, por exemplo, 1Co 7:1), talvez em resposta a uma carta anterior que o apóstolo tinha enviado e que já não existe mais, possivelmente mencionada em 1 Coríntios 5:9. É possível que tenha havido outras trocas de cartas entre Paulo e a comunidade cristã em Corinto, após essa primeira, que não estão mais disponíveis para nós.
Presume-se que essas trocas tenham precedido a segunda carta, que hoje faz parte do nosso cânon bíblico. A primeira epístola aos Coríntios foi escrita por volta do ano 55 d.C., em Éfeso (comparar com “1 Coríntios”, em Comentário Bíblico Andrews [CPB, 2025], p. 146), enquanto 2 Coríntios tem como data mais provável o ano 56 d.C.
2. Ministério estratégico em Corinto
O ministério de Paulo em Corinto é descrito em Atos 18. O apóstolo havia ministrado ali por mais de 18 meses. A antiga cidade de Corinto tinha sido destruída pelos romanos em 146 a.C. e foi reconstruída em 44 a.C. por Júlio César como uma colônia romana. Logo se tornou um importante centro político e econômico, estrategicamente localizado na parte oriental do Império Romano. Seus dois portos, Cencreia, a leste, e Lequeu, a oeste, ofereciam uma ligação terrestre segura entre os mares Egeu e Jônico. O controle de Corinto sobre esses dois portos e sobre a estrada que cruzava o istmo de 6 quilômetros de largura permitia à cidade cobrar impostos tanto do comércio norte-sul quanto do leste-oeste (comparar com Jerome Murphy-O’Connor, “Corinth”, em The New Interpreter’s Dictionary of the Bible, ed. K. Doob Sakenfeld [Nashville: Abingdon, 2006], v. 1, p. 732-735).
A cidade oferecia grandes possibilidades econômicas, e as oportunidades de ascensão social atraíam muitas nacionalidades. Por ser uma cidade relativamente jovem, Corinto também era menos controlada por antigas tradições e mais aberta a novas ideias. Roma designou a cidade como capital da província da Acaia, ressaltando, assim, sua importância política. A decisão estratégica de Paulo de investir mais de 18 meses de sua vida no ministério em Corinto nos dá um bom exemplo de seu planejamento missionário intencional.
O ministério de Paulo em Corinto seguiu um padrão conhecido. Ele foi hospedado na cidade por Áquila e Priscila, dois judeus convertidos ao cristianismo que haviam sido expulsos de Roma por um decreto de Cláudio, que baniu todos os judeus da cidade (At 18:2). Áquila e Priscila também eram fabricantes de tendas (At 18:3). De forma estratégica, Paulo visitou primeiro a sinagoga no sábado (At 18:4) e concentrou seu ensino, quando fora convidado a ler as leituras semanais da Torá, na vida, morte e ressurreição de Jesus (At 18:5).
Ao apresentar a verdadeira interpretação de textos messiânicos bem conhecidos, Paulo conseguiu dialogar com os membros judeus da comunidade em um terreno familiar. No entanto, sua interpretação e pregação frequentemente geravam conflito e tensão durante suas viagens missionárias, o que o levou, em Corinto, a direcionar sua atenção para os “tementes a Deus”. Esses eram gentios que, muitas vezes, se identificavam com os ensinos judaicos, mas que não haviam se tornado prosélitos (ver Mt 23:15). Atos 18:7 relata que Paulo passou a pregar na casa de Tício Justo, um vizinho não judeu da sinagoga em Corinto. Entre os que se convenceram com a pregação de Paulo estava Crispo, o chefe da sinagoga, junto com toda a sua casa, além de muitos outros (At 18:8).
3. A importância da identidade
A identidade molda nossas crenças, nossa compreensão da história e também nosso próprio senso de ser. Após sua experiência no caminho de Damasco (At 9), a identidade de Paulo é ancorada em seu chamado divino para seguir Jesus e ser um apóstolo (isto é, um enviado e mensageiro) de Jesus. Paulo, juntamente com seu coautor Sóstenes, inicia sua primeira carta à igreja de Corinto afirmando que foi “chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Cristo Jesus” (1Co 1:1; comparar com 2Co 1:1). O verbo grego apostellein, “enviar”, subjacente ao substantivo apostolos, – surpreendentemente – é raramente usado na literatura grega fora do Novo Testamento. O uso de uma palavra relativamente incomum para identificar um ministério crucial na igreja cristã apostólica pode ter sido uma tentativa consciente de comunicar a importância fundamental do ministério dos apóstolos, bem como a função única daqueles que foram enviados, a qual, incluindo Paulo, ia além dos Doze, como a referência em Romanos 16:7 pode sugerir: “Saúdem Andrônico e Júnias, meus parentes e companheiros de prisão, os quais são bem conhecidos entre os apóstolos” (Rm 16:7).
A identidade de Paulo está enraizada em três aspectos: (1) a experiência de seu chamado, na qual viu o Senhor ressurreto (1Co 15:8, 9; Gl 1:15, 16); (2) sua comissão recebida de Deus para proclamar o evangelho (Gl 1:1; comparar com At 9:15); e (3) os frutos de seu ministério apostólico, representados pelos conversos e pelas novas igrejas (1Co 9:2). O livro de Atos apresenta vários testemunhos de Paulo que recontam seu chamado, sua comissão e seus frutos, ressaltando a importância desses elementos para o seu ministério. Embora reconheça sua excelente formação aos pés de mestres renomados e sua filiação à rigorosa seita dos fariseus, sua identidade não está fundamentada no prestígio ou nas realizações, mas em seu encontro com Jesus Cristo.
A identidade também parece ter sido uma questão importante na recém-estabelecida igreja de Corinto. Paulo reage firmemente às notícias de que havia divisão na congregação, em que as pessoas agora se alinhavam fortemente a diferentes líderes cristãos. Ele lembra seus leitores de que, acima de tudo, eles são seguidores de Cristo, e não de Paulo, Apolo ou Pedro (1Co 1:10-12). Seu argumento em favor da unidade está fundamentado no Cristo indivisível, em Seu sacrifício e em Sua graça salvadora (1Co 1:13). Retornaremos à questão da identidade na igreja de Corinto em uma lição futura, focando-a em mais detalhes.
APLICAÇÃO PARA A VIDA
Muitas empresas hoje dedicam tempo e recursos à questão da marca e da autoidentidade. Elas perceberam que, no competitivo mundo dos negócios, simplesmente continuar fazendo o que sempre fizeram não garante a sobrevivência. É necessário ter uma visão clara de quem são e das necessidades específicas que podem atender. Paulo também parece ter compreendido a importância da identidade.
1. Em grupo, explorem a autoidentificação de Paulo como apóstolo. O que essa identidade significava e que direito ele tinha de reivindicar essa distinção para si? Como seu apostolado influenciou o propósito e a missão de sua vida?
2. Reflitam e discutam como nossa identidade individual e coletiva como cristãos adventistas do sétimo dia pode nos ajudar a descobrir e a entender às necessidades de nossas comunidades.
3. A igreja em Corinto era de uma mistura cultural única. A maior parte do grupo não tinha um contexto cultural judaico. Eles não podiam ser identificados como uma ramificação ou seita judaica. Essa falta de identidade clara está na base de muitos dos problemas que Paulo aborda na igreja de Corinto. Em grupo, discutam a relação entre identidade e comportamento. Por que saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos influencia o que fazemos e como vivemos?
4. Finalmente, como podemos manter uma identidade cristã em um mundo que enfatiza valores e ideais diferentes?
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"Doutor" lbrahim
Tanzânia | lbrahim Alex Juma
A história missionária desta semana é sobre o primeiro pastor adventista do sétimo dia a viver na ilha de Zanzibar, que faz parte da Tanzânia e está localizada na costa leste da África. O pastor lbrahim A/ex Juma chegou do continente da Tanzânia em 1989.
lbrahim não fora treinado como médico. Ele havia estudado teologia para se tornar pastor, mas conhecia muitos princípios de saúde depois de ensinar o "Curso para Deixar de Fumar", ajudar pessoas a abandonarem a bebida alcóolica e seguir pessoalmente uma dieta baseada em vegetais.
Então, ele chegou à ilha de Zanzibar mais como médico do que como pastor. lbrahim entendeu o porquê. Muitos ilhéus não eram cristãos, e ele não seria bem recebido se chegasse como pastor. Ele próprio havia sido criado na mesma religião mundial não cristã que muitos ilhéus praticavam.
lbrahim chegou com sua esposa e cinco filhos em 1989, um ano depois da inauguração da primeira clínica adventista na ilha. Ele trabalhou com o diretor da clínica, Dr. Josiah, e os ilhéus o apelidaram de "doutor".
Como profissional de saúde, lbrahim viajou por Zanzibar e ensinou princípios de saúde. Logo, ele ganhou a reputação de fazer o bem.
Em um hotel, ele percebeu que o recepcionista fumava um cigarro atrás do outro e disse: "Posso ajudá-lo a parar". Ele orou com o homem e ofereceu algumas dicas sobre como parar de fumar.Quando o recepcionista conseguiu parar de fumar, ele contou a todos sobre lbrahim.
A congregação da igreja local era composta por sete pessoas quando lbrahim chegava. Incluindo Ezekiel e Moses, dois homens do continente da Tanzânia que haviam sido batizados alguns anos antes,e outros cincoque Ezekiel e Moses haviam levado ao batismo.
Aqueles sete adventistas haviam estado compartilhando sua fé com outros cristãos. Um mês após a chegada de lbrahim, ele batizou nove pessoas. Uma daquelas nove pessoas hoje trabalha na clínica adventista.
Outro funcionário da clínica é um técnico de laboratório cujo pai se juntou à igreja por meio do trabalho de lbrahim. O pai era um pastor que uma vez convidou lbrahim para pregar em sua igreja.
lbrahim pregou sobre o sábado do sétimo dia, e o pastor e sua família foram batizados.
Às vezes, os dias eram difíceis. Os filhos de lbrahim, que tinham entre 10 e 15 anos, eram espancados e vítimas de bullying na escola. lbrahim orou para que as crianças não desanimassem, e Deus respondeu.
Todos os cinco filhos, e um sexto que nasceu mais tarde, são adventistas fiéis. Um é pastor, e outra é esposa de pastor.
Às vezes, havia um perigo potencial à espreita.
Certa vez, um funcionário do governo bem-posicionado alertou lbrahim e o médico da clínica para não comparecerem a um compromisso.
"Alguém quer fazer algo ruim",disse ele. "Não vá."
Outra vez, um novo amigo que não era cristão, alertou lbrahim para não ir a uma reunião. "Não vá hoje", disse ele. "Eles querem te machucar."
Alguns ilhéus não eram tão amigáveis. Um soldado aposentado disse a lbrahim: "Você veio para trazer cristianismo para nossa ilha. Volte para o continente. Não queremos ver você aqui."
Outro ilhéu o ameaçou: "Nós o mataremos se você ficar. Aquele que matá-lo irá direto para o céu, porque ele fez algo bom ao matar aquele que tentou estragar nossa ilha".
Ibrahim sobreviveu a todas as conspirações, e a igreja prosperou.
Por um tempo, os membros da igreja adoravam em um campo de futebol alugado todos os sábados. À medida que a necessidade de uma igreja aumentava, lbrahim e o médico da clínica foram visitar os líderes de Zanzibar.
lbrahim disse ao líder: "Em nossa clínica, temos médicos e enfermeiras que são adventistas do sétimo dia. Eles não têm um lugar para adorar. Por favor, podemos ter um terreno para construir um lugar para adorar?".
O líder prontamente instruiu que o terreno fosse dado aos adventistas para construir uma igreja.
lbrahim percebeu que havia sido fácil conseguir o terreno porque a clínica era bem conhecida e havia tratado muitas pessoas com sucesso.
Ele agradeceu a Deus pela bênção da clínica.
A primeira Igreja Adventista foi inaugura em 1995, em uma cerimônia de dedicação com a presença do presidente da Associação Geral, Robert S. Folkenberg.
No ano seguinte, o trabalho de lbrahim em Zanzibar terminou, e ele partiu para servir na Tanzânia continental.
De uma congregação de apenas sete adventistas quando chegou, havia 160 quando ele partiu. Hoje, mais de 1.00 membros da igreja vivem na ilha.
Aos 71 aos, lbraim ainda prega e participa do ministério nas prisões. Ele retorna a Zanzibar de tempos em tempos, inclusive para uma reunião campal há três anos.
Ele é grato a Deus por tê-lo enviado a Zanzibar. Ele é grato pela clínica adventista, que continua a levar cura para muitas pessoas hoje.
O Dispensário Adventista do Sétimo Dia de Zanzibar oferece serviços essenciais em Zanzibar há quase 40 anos. Mas agora seus dois prédios estão antigos e precisam ser substituídos. Você pode fazer parte da história da clínica doando na Oferta do Décimo Terceiro Sábado deste trimestre, também conhecida como Oferta Trimestral de Projetos Missionários. Os fundos permitirão que os prédios da clínica sejam demolidos e substituídos por estruturas modernas. A oferta também irá para outros quatro projetos na Divisão Africana Centro-Oriental: uma clínica no Burundi, uma escola de enfermagem na Universidade Adventista de Lukanga, na República Democrática do Congo, uma escola primária no Quênia e um megacentro de mídia na República Democrática do Congo. Obrigado por doar generosamente.
Dicas para a história
• Mostre o continente africano e a Tanzânia no mapa. Em seguida, mostre a ilha de Zanzibar, a localização do Dispensário Adventista do Sétimo Dia de Zanzibar, que receberá parte da oferta deste trimestre.
• Assista a um pequeno vídeo de lbrahim no YouTube em: bit.ly/lbrahim-ECD.

