Lição 6
02 a 08 de maio
Por que a interpretação é necessária?
Sábado à tarde
Ano Bíblico: 1Cr 4-6
Verso para memorizar: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que Se torna galardoador dos que O buscam” (Hb 11:6).
Leituras da semana: Lc 24:36-45; 1Co 12:10; 14:26; At 17:16-32; Jo 12:42, 43

Ler a Bíblia também significa interpretá-la. Mas como fazemos isso? Quais princípios utilizamos? Como lidamos com os diferentes tipos de escrita encontrados ali? Por exemplo, como saber se uma passagem que estamos lendo é uma parábola, um sonho profético-simbólico ou uma narrativa histórica? A definição de uma questão tão importante do contexto das Escrituras envolve, em si, um ato de interpretação.

Às vezes, algumas pessoas usam a Bíblia como um oráculo divino: simplesmente abrindo-a aleatoriamente para procurar um verso bíblico que elas esperam que lhes conceda orientação. Mas, relacionar aleatoriamente as passagens da Bíblia à medida que as encontramos pode levar a conclusões muito estranhas e equivocadas.

Por exemplo, quando um marido abandonou a esposa por causa de outra mulher, a esposa obteve grande segurança ao encontrar o seguinte texto: “Porei inimizade entre ti e a mulher” (Gn 3:15). Com base nesse verso, ela ficou convencida de que o caso de seu marido com a amante não duraria!

Qualquer texto sem contexto se torna rapidamente um pretexto para nossos próprios interesses e ideias. Portanto, há uma grande necessidade de não apenas lermos a Bíblia, mas de interpretá-la corretamente.

Domingo, 03 de maio
Ano Bíblico: 1Cr 7-9
Pressuposições

1. Leia Lucas 24:36-45. Embora os discípulos estivessem familiarizados com as Escrituras, o que os impediu de enxergar o verdadeiro significado da Palavra, mesmo quando os eventos preditos nela haviam acontecido diante deles? Assinale a alternativa correta:

A.( ) Falta de acesso direto ao texto e o fato de que eram iletrados.

B.( ) As pressuposições promovidas pelos líderes religiosos da época.

Ninguém chega ao texto das Escrituras com a mente vazia. Todo leitor e estudante da Bíblia chega a ela com uma história específica e experiência que inevitavelmente impactam o processo de interpretação. Até mesmo os discípulos tinham suas ideias particulares de quem era o Messias e o que Ele devia fazer, com base nas expectativas daquele tempo. Suas fortes convicções impediram uma compreensão mais clara do texto bíblico, o que explica por que tantas vezes eles compreenderam de maneira equivocada Jesus e os eventos que envolviam Sua vida, morte e ressurreição.

Todos temos uma série de crenças acerca deste mundo, da realidade suprema ou de Deus que pressupomos ou aceitamos, mesmo involuntariamente ou inconscientemente, quando interpretamos a Bíblia. Ninguém se aproxima do texto bíblico com a mente vazia. Se, por exemplo, a cosmovisão de uma pessoa categoricamente exclui qualquer intervenção sobrenatural de Deus, essa pessoa não lerá nem entenderá as Escrituras como um relato verdadeiro e confiável do que Deus fez na História, mas a irá interpretar de maneira muito diferente de alguém que aceita a realidade sobrenatural.

Os intérpretes da Bíblia não podem se despojar completamente de seu passado, de suas experiências, ideias, noções e opiniões preconcebidas. A neutralidade total, ou a objetividade absoluta, não pode ser alcançada. O estudo da Bíblia e a reflexão teológica sempre ocorrem no contexto de pressuposições acerca da natureza do mundo e da natureza de Deus.

Mas a boa notícia é que o Espírito Santo pode esclarecer e corrigir nossas perspectivas e pressuposições limitadas ao lermos as palavras das Escrituras com mente aberta e coração sincero. A Bíblia repetidamente confirma que pessoas com origens muito diferentes foram capazes de entender a Palavra de Deus e que o Espírito Santo nos guia “a toda a verdade” (Jo 16:13).

Quais são seus pressupostos em relação ao mundo? De que maneira você pode ­rendê-los à Palavra de Deus para que ela remodele suas ideias a fim de que estejam em harmonia com a realidade que a Bíblia ensina?
Segunda-feira, 04 de maio
Ano Bíblico: 1Cr 10-12
Tradução e interpretação

Bíblia foi escrita em línguas muito antigas: o Antigo Testamento foi escrito, em sua maior parte, em hebraico, com algumas passagens em aramaico, enquanto o Novo Testamento foi escrito em grego koiné. A maioria da população mundial hoje não fala nem lê essas línguas antigas. Por isso, a Bíblia precisou ser traduzida para diferentes idiomas modernos.

Mas toda tradução sempre envolve algum tipo de interpretação. Algumas palavras em um idioma não têm um equivalente exato em outro. A arte e a habilidade de cuidadosamente traduzir e interpretar textos é chamada de “hermenêutica”.

2. Leia 1 Coríntios 12:10; 14:26; João 1:41; 9:7; Atos 9:36; Lucas 24:27. Em todas essas passagens, vemos a ideia de interpretação e tradução. Em Lucas 24:27, até Jesus teve que explicar o significado das Escrituras aos discípulos. O que isso revela sobre a importância da interpretação?

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A palavra grega hermeneuo, da qual temos a palavra “hermenêutica” (interpretação bíblica), é derivada do deus grego Hermes, que era considerado emissário e mensageiro dos deuses e, como tal, responsável, entre outras coisas, pela tradução de mensagens divinas para o povo.

O ponto essencial em relação à hermenêutica é que, a menos que compreendamos as línguas originais, nosso único acesso aos textos é por meio de traduções. Felizmente, muitas traduções fazem um bom trabalho ao transmitir o significado essencial. Não precisamos conhecer a língua original para compreender verdades cruciais reveladas nas Escrituras, ainda que esse conhecimento linguístico seja benéfico. No entanto, mesmo com uma boa tradução, uma interpretação adequada dos textos também é importante, como vimos em Lucas 24:27. Esse é o principal propósito da hermenêutica: transmitir com precisão o significado dos textos e nos ajudar a aplicar corretamente o ensino do texto à nossa vida. O texto de Lucas, mencionado anteriormente, mostra que Jesus fez isso com Seus seguidores. Imagine ter o próprio Jesus interpretando passagens bíblicas para você!

Algumas pessoas têm acesso a várias traduções, outras não têm. Independentemente das traduções que você possua, por que é importante estudar a Palavra em espírito de oração e buscar obedecer aos seus ensinamentos?
A comunhão com Deus deve levá-lo a compartilhar a verdade. Isso está acontecendo com você?
Terça-feira, 05 de maio
Ano Bíblico: 1Cr 13-16
A Bíblia e a cultura

3. De acordo com Atos 17:16-32, Paulo tentou apresentar a mensagem do evangelho em um novo contexto: a filosofia da cultura grega. Como contextos culturais diversos influenciam a maneira de avaliar a importância de ideias diferentes?

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O conhecimento da cultura do Oriente Próximo é útil para compreender algumas passagens bíblicas. “Por exemplo, a cultura hebraica atribui a um indivíduo a responsabilidade por atos que ele não cometeu, mas permitiu que ocorressem. Por essa razão, os escritores da Bíblia comumente creditavam a Deus como tendo executado ativamente o que no pensamento ocidental Ele permite ou não evita que aconteça. Um exemplo disso é o endurecimento do coração de Faraó” (Métodos de Estudo da Bíblia, seção 4).

A cultura também levanta algumas questões hermenêuticas importantes. A Bíblia é condicionada culturalmente e, portanto, relacionada apenas a essa cultura naquilo que ela declara? Ou a mensagem divina concedida em uma cultura específica transcende essa cultura específica e fala a todo ser humano? O que acontece se nossa experiência cultural se torna o fundamento e a prova decisiva para nossa interpretação das Escrituras?

Em Atos 17:26, o apóstolo Paulo apresentou uma perspectiva interessante sobre a realidade que muitas vezes é negligenciada quando lemos esse texto. Ele declarou que Deus fez todos nós a partir de um só. Embora sejamos culturalmente muito diferentes, de acordo com a Bíblia, há um elo comum que une todas as pessoas, apesar de suas diferenças culturais, e isso porque Deus é o Criador de toda a humanidade. Nossa pecaminosidade e necessidade de salvação não se limitam a uma cultura. Todos precisamos da salvação oferecida a nós pela morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Embora Deus tenha falado a gerações específicas, Ele cuidou para que as futuras gerações que leriam a Palavra de Deus entendessem que essas verdades vão além das circunstâncias locais e limitadas em que os textos da Bíblia foram escritos.

Paralelamente, pense na álgebra, que foi inventada no século IX d.C., em Bagdá. Isso significaria, então, que as verdades e princípios desse ramo da matemática estão limitados apenas àquele tempo e lugar? Evidentemente que não!

O mesmo princípio se aplica às verdades da Palavra. Embora a Bíblia tenha sido escrita há muito tempo em culturas muito diferentes da nossa, suas verdades são tão relevantes para nós quanto para quem elas foram primeiramente endereçadas.

Quarta-feira, 06 de maio
Ano Bíblico: 1Cr 17-20
Nossa natureza pecaminosa e caída

4. Leia João 9:39-41; 12:42, 43. O que impediu que essas pessoas aceitassem a verdade da mensagem bíblica? Que advertência é apresentada nesses incidentes?

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É fácil olhar com desprezo para os líderes que rejeitaram Jesus, apesar de evidências tão poderosas. No entanto, precisamos ter cuidado para não nutrir uma atitude semelhante no que diz respeito à Palavra de Cristo.

É evidente que o pecado mudou radicalmente e rompeu nosso relacionamento com Deus. O pecado afeta toda a nossa existência. Ele também afeta nossa capacidade de interpretar as Escrituras. Não apenas nossos processos de raciocínio são facilmente empregados para fins pecaminosos, mas nossa mente e pensamentos se corromperam pelo pecado e, portanto, fecharam-se à verdade de Deus. As seguintes características dessa corrupção podem ser detectadas em nosso pensamento: orgulho, engano próprio, dúvida, afastamento e desobediência.

Uma pessoa orgulhosa se exalta acima de Deus e de Sua Palavra. Isso ocorre porque o orgulho leva o intérprete a enfatizar excessivamente a razão humana como o árbitro final da verdade, mesmo as verdades encontradas na Bíblia. Essa atitude rebaixa a autoridade divina das Escrituras.

Algumas pessoas tendem a ouvir somente as ideias que lhe são atrativas, mesmo que elas estejam em contradição com a vontade revelada de Deus. O Senhor nos alertou sobre o perigo do engano próprio (Ap 3:17). O pecado também alimenta a dúvida, na qual vacilamos e somos inclinados a não acreditar na Palavra de Deus. Quando começamos a duvidar, a interpretação do texto bíblico jamais leva à certeza. Em vez disso, aquele que duvida rapidamente se eleva a uma posição em que julga o que é e o que não é aceitável na Bíblia, um terreno muito perigoso.

Em vez disso, devemos abordar a Bíblia com fé e submissão, e não com uma atitude de crítica e dúvida. O orgulho, o engano próprio e a dúvida levam a uma atitude de afastamento em relação a Deus e à Bíblia, que certamente levará à desobediência, isto é, à indisposição de obedecer à vontade revelada de Deus.

Você já lutou contra a convicção de algo que leu na Bíblia, isto é, ela mostrou claramente o que fazer, mas você queria fazer outra coisa? O que ocorreu e o que você aprendeu nesse caso?

Quinta-feira, 07 de maio
Ano Bíblico: 1Cr 21-24
Por que a interpretação é importante?

5. Leia Neemias 8:1-3, 8. Por que uma compreensão clara das Escrituras é tão importante para nós, não apenas como indivíduos, mas como igreja? Assinale a alternativa correta:

A.( ) Porque agiremos com segurança se compreendermos a Palavra do Senhor.

B.( ) Porque uma compreensão das Escrituras nos torna infalíveis.

O assunto mais importante da Bíblia é a salvação e a maneira pela qual somos salvos. Afinal, o que mais importa a longo prazo? Como o próprio Jesus perguntou, de que adianta ganhar tudo o que o mundo oferece e perder nossa alma? (Mt 16:26).

Mas saber o que a Bíblia ensina sobre a salvação depende muito da interpretação. Se abordamos e interpretamos a Bíblia de maneira equivocada, provavelmente chegaremos a conclusões falsas, não apenas no entendimento da salvação, mas em tudo o que a Bíblia ensina. Na verdade, mesmo nos dias dos apóstolos, o erro teológico já havia se infiltrado na igreja, evidentemente sustentado por falsas interpretações das Escrituras.

6. Leia 2 Pedro 3:15, 16. Por que é importante uma leitura correta das Escrituras?

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De fato, se somos um povo do “Livro”, que deseja viver unicamente pela Bíblia, e não temos outras fontes autoritativas como a tradição, os credos nem a autoridade de ensino da igreja para interpretar a Bíblia para nós, então a hermenêutica correta das Escrituras é muito importante, pois temos somente a Bíblia para nos dizer em que devemos crer e como devemos viver.

A interpretação das Escrituras é um assunto vital à saúde teológica e missiológica da igreja. Sem uma interpretação correta da Bíblia, não pode haver unidade na doutrina e no ensino e, portanto, nenhuma unidade na igreja e em nossa missão. Uma teologia precária e distorcida inevitavelmente leva a uma missão deficiente e distorcida. Afinal, se temos uma mensagem para dar ao mundo, mas estamos confusos sobre seu significado, com que eficiência poderemos apresentar essa mensagem àqueles que precisam ouvi-la?

Leia as três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12. Quais são as questões teológicas nessa passagem e por que uma compreensão correta delas é tão importante para a nossa missão?
Sexta-feira, 08 de maio
Ano Bíblico: 1Cr 25-27
Estudo adicional

Textos para leitura: Caminho a Cristo, p. 105-113 (“Expulse a Dúvida”); documento “Métodos de Estudo da Bíblia”, Seção 1: “Estudo Bíblico: Pressuposições, Princípios e Métodos”; Seção 2: “Pressuposições Originadas de Afirmações das Escrituras”; e Seção 3: “Princípios Para Abordar a Interpretação das Escrituras”. Acesse http://www.centrowhite.org.br/metodosde- estudo-da-biblia.

“No estudo da Palavra, deixe de lado as opiniões preconcebidas e as ideias herdadas e cultivadas. Você nunca alcançará a verdade se estudar as Escrituras para defender suas próprias ideias. Deixe-as de lado e, com o coração contrito, ouça o que o Senhor tem a lhe dizer. Quando a pessoa humilde que procura a verdade se assenta aos pés de Cristo e aprende Dele, a Palavra lhe dá entendimento. Àqueles que são sábios demais aos próprios olhos para estudar a Bíblia, Cristo diz: Vocês devem se tornar mansos e humildes de coração, se desejam ser sábios para a salvação. 

“Não leia a Palavra à luz de opiniões antigas; mas, com a mente livre de preconceitos, busque-a com cuidado e oração. Se, à medida que lê, você se sente convicto a respeito de algo, e nota que suas próprias opiniões não estão em harmonia com a Palavra, não tente adaptá-la a essas opiniões. Ajuste suas opiniões à Palavra. Não permita que suas crenças ou práticas anteriores dominem o entendimento. Deixe a mente receptiva às maravilhas da Lei. Descubra o que está escrito, e então firme os pés na Rocha eterna” (Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, p. 260).

Perguntas para consideração

1. Nossa visão de mundo, educação e cultura impactam a interpretação das Escrituras? É importante identificar influências externas que trazemos à interpretação da Bíblia?

2. O pecado pode nos levar a interpretar de maneira equivocada a Palavra de Deus? O desejo de fazer algo condenado na Bíblia nos induz a interpretar as Escrituras de modo distorcido? Como o pecado filtra nossa maneira de interpretar a Bíblia?

3. Uma compreensão maior dos tempos e da cultura bíblica nos ajuda a entender mais algumas passagens das Escrituras? Dê alguns exemplos.

Respostas e atividades da semana: 1. B. 2. A interpretação é importante, pois sem ela não chegaríamos a nenhuma conclusão sobre um assunto ou temática. Embora não seja possível separar a interpretação dos aspectos pessoais, é imprescindível ter a mente aberta ao Espírito Santo, para que Ele nos conduza na leitura e interpretação. 3. A cultura e filosofia inevitavelmente moldam e influenciam nosso pensamento e nossa maneira de avaliar as coisas. Elas, porém, devem ser subordinadas à Palavra de Deus. 4. O orgulho e a glória dos homens impediu que pessoas que creram nas verdades da Bíblia e no Messias confessassem essas verdades. 5. A. 6. Porque uma interpretação equivocada pode nos levar à destruição.

Resumo da Lição 6
Por que a interpretação é necessária?

Textos-chave: Hb 11:6; Lc 24:44, 45; 1Co 12:10; 1Co 14:26; Jo 1:41; 9:7; At 9:36; Lc 24:27; At 17:22-26; Jo 9:39-41; 12:42, 43; Ne 8:1-3, 8

Esboço

Às vezes, as pessoas dizem que consideram as palavras da Bíblia de maneira literal, sem necessidade de interpretação. Embora seja louvável levar a Palavra de Deus a sério e estar disposto a seguir o que ela nos ordena a fazer, ninguém lê esse livro com a mente neutra. Todos sofremos influência na maneira de pensar e compreender devido à forma como fomos criados, educados, e em virtude da cultura que nos cerca e da nossa experiência. Todos temos alguns pressupostos com os quais abordamos o texto. A leitura e o estudo do texto bíblico envolvem inevitavelmente alguma interpretação. A Bíblia foi escrita nos idiomas grego, hebraico e aramaico. Muitos não conhecem essas línguas nem estão sequer familiarizados com elas de modo rudimentar. E, como qualquer tradutor sabe, toda tradução para outro idioma envolve alguma forma de interpretação. É preciso conhecer muito bem um idioma para entender algumas de suas sutilezas ou quando se usa ironia. Além disso, nosso pensamento é obscurecido pelo pecado e, portanto, não é neutro quando se trata de coisas espirituais. O próprio fato de existirem diferentes igrejas e denominações, mesmo que todas afirmem viver pela Bíblia, demonstra que alguma forma de interpretação impera em todos nós. No entanto, estudamos o mesmo livro e podemos chegar a conclusões que nos unem, apesar de todas as diferenças acima. Considerando que interpretação é essencial para a compreensão, nesta semana estudaremos alguns métodos de interpretação que guiarão nosso estudo da Bíblia.

Comentário

O significado de uma frase não é determinado apenas pelas palavras isoladas, mas pelo contexto em que estas são empregadas. Se não considerarmos adequadamente o contexto literário imediato e mais amplo de uma afirmação e como são empregadas as palavras nesse contexto, rapidamente chegaremos a conclusões erradas. Da mesma forma, deve-se levar em consideração o contexto histórico do que está escrito. Isso nos ajuda a situar o texto. Qualquer texto sem um contexto rapidamente se torna um pretexto para a opinião individual. Se ignorarmos o contexto, logo leremos algo no texto que na verdade não era o que o escritor pretendia transmitir. Chamamos isso de eisegese (interpretação de um texto atribuindo-lhe ideias do próprio leitor). Mas, em vez de ler algo que não existe no texto, deve-se fazer uma exegese completa (interpretação gramatical, histórica, jurídica, etc., dos textos), ou seja, devemos ler no texto o que o texto realmente afirma. Os Adventistas do Sétimo Dia desejam seguir somente a Bíblia. Não temos um papa ou uma tradição de ensino que determine o significado definido das Escrituras. Assim, é crucial para nossa teologia e missão uma interpretação cuidadosa e sólida da Bíblia. Isso molda nossa identidade e crenças teológicas.

Pressuposições e cosmovisões

Toda pessoa possui uma série de crenças que pressupõe consciente ou inconscientemente. Assume-se que sejam verdadeiras, mesmo que não seja possível prová-las por completo. Essas convicções mais básicas sobre o mundo e sobre valores são chamadas de cosmovisão. Nossa visão de mundo determina o que é importante para nós e o que não é. Ela filtra nossa percepção e interpretação da realidade e oferece um padrão do mundo que guia a nossa vida. Ela abrange nosso entendimento de Deus, da natureza humana, da moralidade e da verdade. Uma visão de mundo é composta de crenças e respostas a perguntas nessas áreas, e é influenciada pelos pais, pela educação, pelos amigos e experiências, pela mídia, cultura e religião. Usamos nossa visão de mundo todos os dias e percebemos e interpretamos a realidade através dela. Ela influencia nosso pensamento e também nossas ações e comportamento.

Reflexão

Pense sobre os diferentes aspectos em que nossa cosmovisão afeta nosso pensamento e comportamento. Compartilhe com a classe os desafios que surgem quando diferentes visões de mundo colidem.

Nossa visão de mundo se desenvolve enquanto aprendemos. Ela pode mudar quando passamos por uma experiência que altera radicalmente muitas de nossas crenças fundamentais, ou quando temos uma experiência de conversão. Em geral, essa mudança ocorre quando a visão de mundo anterior se mostra inverídica. Após essa mudança, a pessoa continuará a fazer ajustes e tentará alinhar outras crenças com o restante de suas crenças centrais. Uma conversão a Jesus não apaga automaticamente os anos de formação anterior, mas envolve uma mudança de uma visão de mundo para outra e uma harmonização de todas as crenças pessoais com a Bíblia.

Reflexão

Leia Lucas 24:36-49. Como a experiência do Cristo ressuscitado e Sua explicação das Escrituras mudaram a forma como Seus discípulos enxergavam a realidade? Compartilhe como sua experiência de conversão afetou seu entendimento da Bíblia. Se gradualmente harmonizamos todas as nossas crenças anteriores com as Escrituras, o que isso nos diz sobre como devemos lidar com outras pessoas que estão crescendo em seu entendimento?

Tradução e interpretação

Para se interpretar a Bíblia corretamente, deve-se estudá-la nos idiomas originais em que foi escrita. Se isso não for possível, use uma tradução que se aproxime ao máximo dos idiomas originais. Uma tradução desse tipo enfatiza a equivalência palavra por palavra no processo de tradução e oferece uma versão mais exata e literal das línguas bíblicas. Quando estudamos e comparamos como determinadas palavras são usadas em vários contextos pelos escritores da Palavra de Deus, a própria Bíblia pode revelar seu significado. Embora esse tipo de tradução formal produza uma excelente Bíblia de estudo, sua leitura é mais engessada e artificial. Ao contrário das traduções formais, existem traduções dinâmicas que enfatizam o significado essencial, em vez da equivalência de palavra por palavra. Nesse caso, a tradução é reestruturada com base no emprego idiomático que representa o pensamento ou significado equivalente no idioma traduzido. Ainda que essas traduções sejam bem legíveis, a interpretação pode ser enganosa ou errônea. Finalmente, existem traduções de paráfrase que são muito mais livres do que as traduções dinâmicas. Como esse tipo de tradução é mais interpretação do que tradução, ela não é adequada para a pesquisa séria da Bíblia.

Reflexão

Se diferentes traduções da Bíblia estiverem disponíveis no seu idioma, mostre-as na classe da Escola Sabatina e dê exemplos das diferentes traduções de uma passagem bíblica. Faça isso de tal maneira que os ouvintes sejam fortalecidos em sua fé e incentivados a estudar a Bíblia mais seriamente por si mesmos. Recomende uma tradução confiável do livro sagrado em seu idioma para o estudo.

Algumas denominações possuem sua própria tradução oficial da Bíblia. Esse não é o caso da Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas a Igreja usa traduções reconhecidas disponíveis nas sociedades bíblicas. Alguns adventistas trabalham com as sociedades bíblicas para ajudar a tornar a Palavra de Deus disponível a todos e fazem contribuições valiosas para várias traduções da Bíblia. Pense em maneiras pelas quais você pode ajudar na promoção, distribuição e estudo das Escrituras.

A Bíblia e a cultura

Conhecer a cultura do Oriente Próximo pode ser útil para entender algumas passagens bíblicas. Leia algumas ilustrações em “Métodos de Estudo da Bíblia”, seção 4, 8, q. Acesse: http://www.centrowhite.org.br/metodos-de-estudo-da-biblia/. Estudiosos críticos sustentam que a Bíblia é culturalmente condicionada, ou seja, reflete a cultura em que se originou e, portanto, é restrita em sua autoridade, pois é limitada a um determinado cenário cultural, dizem eles. Embora a Bíblia tenha sido realmente escrita em uma cultura específica, “os escritores bíblicos insistem que a mensagem teológica das Escrituras não é ligada à cultura, nem aplicável apenas a certas pessoas ou a uma determinada época, mas permanente e universalmente aplicável” (Richard M. Davidson, "Interpretação Bíblica", em Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, ed. Raoul Dederen. Hagerstown, MD: Review and Herald, 2000, p. 85). Jesus nasceu em uma cultura específica e, no entanto, Ele não é o Salvador apenas do povo de Sua época. Ele é o Salvador do mundo inteiro. O fato de que Ele veio em uma cultura específica não O torna culturalmente relativo, mas Lhe confere um significado que transcende toda cultura.

Reflexão

Algumas pessoas se concentram apenas naquilo que difere de cultura para cultura e, assim, rapidamente perdem de vista os pontos em comum que existem em todo ser humano. Quais aspectos básicos da existência e anseios humanos estão presentes em todas as culturas? Como a resposta espiritual de Deus a esses aspectos transcende qualquer cultura específica e fala a todas as pessoas? Como você pode ajudar a tornar a mensagem bíblica aplicável às pessoas da sua cultura? Em que aspecto a cultura pode se tornar um obstáculo para a aceitação da mensagem bíblica?

Nossa natureza pecaminosa e a interpretação bíblica

Além de todos os aspectos acima mencionados que mostram por que a interpretação é necessária, há outro fator que é frequentemente esquecido e que tem que ver com as consequências de nossa natureza pecaminosa. Leia Efésios 4:17, 18 e reflita sobre o que Paulo escreveu ali. Ele descreveu algumas consequências da cegueira do nosso coração e da futilidade da nossa mente. Às vezes, nossa compreensão e interpretação das Escrituras é manchada e obscurecida por causa do pecado. Além disso, não seguimos a Bíblia porque tememos a pressão dos colegas ou o desprezo de parentes e amigos. É por isso que precisamos da ajuda do Espírito Santo para iluminar nossa mente e nos tornar dispostos a obedecer as instruções que descobrimos na Palavra.

Aplicação para a vida

Uma pessoa ouviu a verdade bíblica. A leitura das Escrituras lhe deu uma nova perspectiva de que Deus é real e vivo e que vale a pena viver a mensagem da Bíblia. No entanto, quando algumas orações não são respondidas como era esperado e a saúde de uma criança está em risco, essa pessoa recorre às fontes tradicionais de cura de sua cultura. Essas fontes tradicionais de cura são mediadas por poderosos feiticeiros da comunidade.

Pense em hábitos e tentações semelhantes que você enfrenta quando sua fé bíblica é desafiada. Em que áreas você está tentado a confiar mais na educação recebida, na educação dos pais ou na experiência do que na verdade bíblica?

Alguns que são instruídos na filosofia ocidental e no pensamento crítico acreditam que não existe um ser sobrenatural que possa intervir na história ou fazer milagres. Sua visão fechada de mundo os impede de aceitar muitas histórias sobrenaturais da Bíblia como reais. Em que sentido sua visão de mundo influencia sua interpretação das Escrituras?

Uma pessoa nova na fé quer estudar a Bíblia mais detalhadamente. Qual tradução da Bíblia você recomendaria para ela?

Por que a fé é importante para um entendimento adequado das Escrituras? Qual é o papel da fé no processo de interpretação?

ARMAZÉM EVANGELÍSTICO

Lauri Herranen permaneceu com o semblante sóbrio junto ao túmulo de um amigo em Mikkeli, Finlândia. O amigo da mesma faixa etária tinha morrido três anos antes quando um coágulo de sangue circulou do coração para o cérebro. “Eu poderia estar neste túmulo”, Lauri pensou, enquanto pareceu ouvir uma voz interior lhe dizer: “Você sabe onde seu estilo de vida atual terminará. Você realmente quer isso?” Lauri, que estava com 45 anos, não conseguiu responder a essa pergunta. Mas ecoou em sua mente diariamente: “Se você morrer, sabe o que acontecerá com você. Se você morrer, sabe o que acontecerá com você.”

Ele se lembrou de quando era criança e sentia medo quando ouvia sobre a vinda de Jesus. Aprendera que os ímpios seriam jogados no inferno de fogo eterno. Sem ter nenhum amigo cristão, não sabia quem poderia ouvir sobre seus medos. As questões pioraram quando foi ao médico para curar uma infecção de ouvido e foi diagnosticado com câncer de próstata. Agora a perspectiva de morte era muito real.

Lauri se encheu de coragem e foi conversar com o pastor de uma denominação cristã. O pastor orou pelo perdão de seus pecados e sugeriu que ele também orasse pedindo perdão. Durante a oração, algo aconteceu em seu interior. Ele deixou os pecados aos pés da cruz. Paz e alegria preencheram seu coração e ele começou a ler a Bíblia seriamente. Para sua surpresa, viu que o evangelho de Lucas mencionava o sábado como o dia sagrado. Ele leu o Novo Testamento três vezes procurando um trecho que mostrasse a mudança do sábado para o domingo, mas não conseguiu encontrar.

Nesse meio tempo, ele viu no jornal a propaganda de uma série evangelística que seria realizada na igreja adventista local. Em menos de um ano, ele se tornou membro da igreja. A esposa desaprovou seu interesse em Deus e pediu o divórcio. Alguns anos depois, Lauri casou com uma adventista, Päivi, e mudou para sua terra natal, Lahti, onde ansiava encontrar maneiras de falar de Jesus. Após muita oração sentiu-se impressionado para abrir uma despensa de alimentos na Igreja Adventista de Lahti.

“A maioria dos finlandeses é bastante secular, e têm a vida centralizada em adquirir bens materiais e prazeres mundanos”, ele disse, “eles não têm espaço para Deus na vida. Por isso me perguntei: ‘Como alcançá-los?’ Um armazém de alimentos foi a resposta.” Entre as pessoas que iam à procura de alimentos duas vezes na semana, estavam trabalhadores da construção civil e idosos. Muitos finlandeses, e outros eram russos. Alguns enfrentavam problemas financeiros. A maioria era solitária, e desejava amigos, assim como Lauri quando procurou amigos cristãos para conversar. “Na sociedade finlandesa, é difícil conversar sobre assuntos pessoas, especialmente sobre a fé,” Lauri diz.

No início do projeto, poucas pessoas visitavam o armazém. Mas agora, depois de cinco anos, 40 pessoas procuram alimentos todas as segundas e quartas-feiras. O armazém já ajudou a alcançar centenas de vidas e pelo menos uma pessoa foi batizada. Além de atrair também membros adventistas inativos. Irmãos que não frequentavam os cultos por muitos anos decidiram ser voluntários e, lentamente, retornam à vida na igreja.

Lauri, que atualmente tem 60 anos, venceu o câncer e usufrui de uma boa saúde, não teme a morte. “Agora minha vida está nas mãos de Deus e anseio a vinda de Cristo, ele” diz. “Não tenho medo da morte.”

Dicas da história

• Assista ao vídeo sobre Lauri no YouTube: bit.ly/Lauri-Herranen.
• Faça o download das fotos no Facebook (bit.ly/fb-mq) ou banco de dados ADAMS (bit.ly/friend-to-finland).
• Faça o download das fotos dos projetos do trimestre: bit.ly/ted-13th-projects.

Comentário da Lição da Escola Sabatina – 1º Trimestre de 2020
Tema Geral: Como interpretar as Escrituras
Lição 6 – 2 a 9 de maio

Por que a interpretação é necessária?

Autor: Isaac Malheiros
Editor: André Oliveira Santos
Revisora: Josiéli Nóbrega

Por que não podemos apenas abrir a Bíblia e simplesmente ler o que está escrito e obedecer? Porque não fazemos isso com nenhum tipo de texto. Todo texto que lemos, seja uma história, um manual de um smatphone, uma poesia ou a bula de um remédio, requer algum tipo de interpretação. Para entendermos a mensagem, precisamos entender a relação entre as palavras, frases e parágrafos. Além disso, existem figuras de linguagem, expressões idiomáticas e referências históricas e culturais.

Assim também é com a Bíblia. A Bíblia admite, por exemplo, que nas cartas de Paulo “há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam” (2Pe 3:16), e que há “coisas difíceis de explicar” no assunto do sumo sacerdócio de Jesus (Hb 5:11 NVI).

A interpretação da Bíblia possui duas faces, uma que olha para trás e outra que olha para a frente: 1) exegese: é descobrir o que o texto significou para o autor e seus primeiros leitores, lá no passado; e 2) aplicação: descobrir o impacto que o significado original tem hoje, que princípios podemos extrair desse texto e como aplicar na atualidade. O nome dessa arte de interpretar é “hermenêutica”.

Apesar de não existir mensagem oculta ou cabalística na Bíblia, precisamos interpretá-la por causa do distanciamento entre nós e o texto bíblico e seu caráter divino-humano.

1) A natureza humana da Bíblia provoca os seguintes distanciamentos:

a) Distanciamento temporal e espacial: o último livro da Bíblia foi escrito há cerca de 2 mil anos, e isso é muito tempo. Por causa disso, não temos mais os escritores bíblicos vivos, à nossa disposição para tirar dúvidas. Não podemos perguntar a eles: “O que vocês quiseram dizer com isso?” Além disso, a Bíblia foi escrita em lugares com características bem diferentes dos lugares que a maioria dos cristãos de hoje conhecem. Alguns lugares, cidades e rios bíblicos não existem mais, e muitos textos bíblicos fazem referência à fauna e flora de lugares específicos que o leitor moderno talvez não entenda.

b) Distanciamento cultural: a Bíblia foi escrita no meio de povos diferentes, com costumes diferentes. O contexto cultural em que a Bíblia foi escrita não existe mais, e isso pode causar alguma dificuldade para entender certos textos. A resposta aparentemente grosseira de Jesus à sua mãe (“mulher, que tenho Eu contigo?”), o endurecimento do coração de Faraó, a recomendação de Paulo para que mulheres usassem véu em Corinto – tudo isso tem um contexto cultural, e é fundamental conhecê-lo para entender o texto. Para conhecer a cultura dos tempos bíblicos, é útil ter em mãos comentários bíblicos e obras como o “Comentário histórico-cultural da Bíblia” (Editora Vida) e o “Manual de usos e costumes dos tempos bíblicos” (Editora CPAD).

c) Distanciamento linguístico: a Bíblia foi escrita em três línguas antigas: hebraico bíblico, aramaico bíblico e grego koine – são diferentes do hebraico, do aramaico e do grego modernos. Traduzir a Bíblia é um desafio que tem sido vencido com sucesso pelas diversas sociedades bíblicas. Mas toda “tradução” possui um pouco de “interpretação”. Por isso, é sempre bom utilizar várias versões para estudar a Bíblia, e compará-las.

2) A natureza divina da Bíblia provoca os seguintes distanciamentos:

a) Distanciamento natural entre o homem e Deus: precisamos interpretar a Bíblia por causa da finitude da mente humana em contraste com a infinitude de Deus. Somos originalmente diferentes de Deus (embora criados à sua imagem e semelhança), e menores que os anjos (Hb 2:7). O Senhor declara: “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55:8; cf. Rm 11:33, 34).

b) Distanciamentos por causa do pecado: nosso entendimento foi obscurecido e cegado pelo pecado (Rm 1:21; Ef 4:18; Jo 9:39-41). E, além da dificuldade de entender, nossa natureza pecaminosa rebelde nos impede de aceitar até o que entendemos (Rm 7:17-25). Por isso, somos incapazes de, por conta própria, compreender a mente de Deus, e o Espírito da verdade é quem nos guia a toda a verdade (Jo 16:13).

3) A influência das nossas pressuposições

Quando nos aproximamos da Bíblia, já temos muitas ideias e crenças pré-concebidas. As pressuposições são os “óculos” através dos quais lemos a Bíblia. Essas ideias e crenças têm origem na nossa experiência, educação, personalidade, etc.

A cultura também influencia o modo como pensamos. Uma mãe solteira de uma favela de São Paulo não vai ler a Bíblia como um empresário norueguês de meia-idade, ou um adolescente do interior da Mongólia. No entanto, ao lerem Atos 4:12 (“E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.”) com as pressuposições bíblicas, os três chegarão à conclusão de que Jesus é o único Salvador, e não há outro. O impacto dessa verdade pode ser diferente na vida de cada um, e as aplicações pessoais também. Mas todos entendem o sentido único de que Jesus é o único Salvador.

Nós trazemos uma grande “bagagem” quando nos aproximamos da Bíblia para estudá-la. E, mesmo seguindo um método de interpretação deduzido da própria Bíblia, é muito difícil abrirmos mão de toda essa bagagem pessoal e alcançar uma neutralidade total. Mas podemos diminuir esse problema significativamente com uma atitude de humildade em dois aspectos:

1) humildade intelectual: submeter nossa mente aos princípios claramente estabelecidos na Bíblia. Nossas pressuposições precisam ser examinadas pelas Escrituras, pois não podemos estudar a Bíblia com pressuposições que não são bíblicas. A autoconfiança e a autossuficiência intelectual impedem o intérprete de ouvir o que a Bíblia diz sobre si mesma. Alguns cristãos confiam demais na própria experiência, acham que já sabem tudo, e se acham inteligentes demais para admitir algum erro.

2) submissão do coração: a disposição de ouvir e obedecer (Tg 1:22). A autoconfiança e a autossuficiência são sintomas de um coração orgulhoso. Algumas pessoas estudam a Bíblia apenas para defender suas próprias ideias, buscando textos que apoiem o que elas já pensam (o nome desse método é “texto-prova”). Esse é um sinal de orgulho, que coloca a opinião acima da revelação. Essas pessoas não querem ouvir a voz de Deus, mas a própria voz. Elas não dizem “amém” ao que Deus diz, mas querem inverter a oração do Senhor, e fazer Deus dizer ao ser humano: “seja feita a tua vontade”.

Conclusão

Por tudo isso, muitas vezes, não é só abrir a Bíblia e ler. É preciso um método para vencer essas distâncias. O estudo dos princípios e métodos de interpretação fiel da Bíblia chama-se “hermenêutica”. A Bíblia estabelece os parâmetros para a sua própria interpretação – ou seja, a Bíblia deve ser o fundamento da hermenêutica correta, e qualquer hermenêutica que tenha outro fundamento deve ser vista com cautela.

Um perigo interno que o cristianismo enfrenta hoje é o da diluição dos fundamentos, a pregação da ambigüidade e o esvaziamento do discurso bíblico por meio de hermenêuticas contemporâneas que rebaixam a autoridade da Bíblia. Quando pensamos a Bíblia usando critérios e categorias que não são bíblicos, criamos uma religião que coloca Deus de joelhos diante do homem. No entanto, a única religião que salva é aquela que põe o homem de joelhos diante de Deus e da sua Palavra.

Conheça o autor dos comentários para este trimestre: Isaac Malheiros é pastor, casado com a professora Vanessa Meira, e pai da pequena Nina Meira, de 8 anos. Tem atuado por 16 anos como pastor na área educacional, como capelão e professor, e ama ensinar a ler e interpretar a Bíblia. Atualmente, é pastor dos universitários e professor do Instituto Adventista Paranaense (IAP). É doutor em teologia (Novo Testamento), mestre em teologia (Estudos de texto e contexto bíblicos) e especialista em Ensino Religioso e Teologia Comparada.